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Editorial: Portas giratórias

31 Outubro Lido 9143 vezes

É legal e moral um empregado ou diretor sair da empresa, onde foi formado e detendo informações estratégicas, para trabalhar imediatamente numa concorrente?

A questão é ainda mais grave se esta empresa é controlada pela União Federal.
Em algumas áreas do governo, há períodos de carência que – dizem -, muitas vezes, acabam sendo burlados por contratos de gaveta.

Escolas, hospitais, órgãos públicos e Congresso Nacional
Você já se perguntou porque os partidos e os políticos querem indicar o diretor da escola, do hospital, da receita federal e de estatais?

Por que diretores do Banco Central fundam seus próprios bancos ou vão trabalhar em grandes bancos privados?

No Banco Central, Agências Reguladoras: ANS (saúde), Aneel (energia elétrica), ANP (petróleo, gás e biocombustíveis), Anatel (telecomunicações), a mudança do lado da mesa é uma constante, fazendo a regulação e levando informações do órgão regulador para a empresa privada.

Se você acha que infelizmente é assim mesmo, está abrindo mão de sua cidadania, entregando o país e o futuro de seus filhos para um mundo pior do que recebeu de seus pais.

Os políticos não são eleitos para isso. Eles, os empregados de órgãos públicos, juízes e procuradores da república são pagos com o dinheiro de seus impostos e lhes devem prestar conta pelos seus atos.


Joseph Stiglitz
O Nobel de economia de 2001, critica as “portas giratórias” dos conselheiros econômicos:

“As portas giratórias de Washington e Nova York também alimentaram o movimento para evitar novas iniciativas regulatórias. Um grupo de funcionários que tinham vínculos diretos ou indiretos com o setor financeiro foi incumbido de formular regras para o seu próprio ramo de atividade. Quando os funcionários que têm a responsabilidade de formular as políticas para o setor financeiro provêm do próprio setor financeiro, porque haveríamos de esperar que eles incorporem pontos de vista marcadamente diferentes daqueles que o setor deseja” (Joseph Stiglitz, O mundo em queda livre, Cia das Letras, 2010).   

Simplificando, uma forma singela para desvendar os “mistérios do mercado” é observar quem estava fazendo o que e para quem antes de entrar no governo, e para onde foi depois. Estas correlações respondem as perguntas nunca feitas pelos especialistas em manipulação midiática. [1]

Raul Prebisch e Celso Furtado
Celso Furtado, em entrevista no livro “Seca e Poder”[2], relata: "Eu me recordo de uma história curiosa com Raul Prebisch, o criador do Banco Central da Argentina, de tremenda influência na América Latina.

Ele me contou que quando saiu do Banco Central passou por grandes dificuldades financeiras, teve até de vender o piano da mulher. Eu arregalei os olhos: quem passara tantos anos chefiando o BC da Argentina teria o emprego que quisesse! E ele disse: "Mas Celso, eu conhecia a carteira de todos os bancos, administrava o redesconto por telefone, era o homem mais bem informado! Todos queriam me contratar, mas eu não podia trabalhar para nenhum."

Este é o padrão de comportamento ético a ser seguido por qualquer servidor público ou empregado de estatal.

Um profissional oriundo do setor privado e, eventualmente desempenhando uma função em órgão público, deve se pautar pelo mesmo rigor ético e não misturar o público com o privado, em benefício de uma empresa privada que venha a lhe contratar no futuro.

[1] https://jornalggn.com.br/blog/bruno-lima-rocha/as-portas-giratorias-e-a-%E2%80%9Cblindagem%E2%80%9D-do-banco-central
[2] http://csbh.fpabramo.org.br/uploads/seca_e_poder.pdf

TABELA

Última modificação em Quarta, 01 Novembro 2017 16:29
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