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São Petersburgo prepara o cenário para a Guerra dos Corredores Econômicos

Publicado em 24/06/2022 Escrito por  Pepe Escobar Lido 1820 vezes

face-homemRússia, agora como superpotência militar-energética mostra-se capaz, sim, de remeter de volta para a Idade da Pedra grande parte do ocidente industrializado

O Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo foi configurado há anos como absolutamente essencial para entender a dinâmica em evolução e as provações e tribulações da integração da Eurásia.

Em 2022 São Petersburgo é ainda mais crucial, pois se conecta diretamente a três desenvolvimentos simultâneos aos quais já me dediquei, sem ordenação específica:

Primeiro, a chegada do "novo G8" – quatro países BRIC (Brasil, Rússia, Índia, China), mais Irã, Indonésia, Turquia e México, cujo PIB calculado pela paridade do poder de compra (PPC) já supera o do antigo G8, dominado pelo Ocidente.

Segundo, a estratégia chinesa dos "Três Anéis",[1] de desenvolver relações geoeconômicas com vizinhos e parceiros.

Terceiro, o desenvolvimento do BRIC+, ou BRIC estendido, incluindo alguns membros do "novo G8" – assunto a ser discutido na próxima cúpula na China.

Ninguém duvidava de que o presidente Putin seria a estrela de São Petersburgo 2022 – onde fez discurso afiado e detalhado na sessão plenária [discurso traduzido ao português em Blog Bacurau Homenagem ao Filme e em Comunidad Saker Latinoamericana].

Dentre os destaques, Putin esmagou as ilusões do chamado 'bilhão de ouro' que habita o oeste industrializado (apenas 12% da população global) e as "políticas macroeconômicas irresponsáveis dos países do G7".

O presidente russo observou que é possível que "as perdas da UE devidas a sanções contra a Rússia" ultrapassem US$ 400 bilhões por ano, e que os altos preços da energia na Europa – que realmente começaram "no terceiro trimestre do ano passado" – são efeito de haver quem "acredite cegamente em fontes de energia renovável".

Putin também rejeitou devidamente a propaganda ocidental contra "aumento de preços de Putin". Disse que a crise alimentar e energética está ligada a políticas econômicas ocidentais equivocadas, ou seja, "grãos e fertilizantes russos estão sob sanções" e o prejuízo maior é do Ocidente.

Em poucas palavras: o Ocidente avaliou erradamente a soberania da Rússia ao sancionar o país. E agora está pagando preço muito alto.

O presidente chinês Xi Jinping enviou mensagem por vídeo ao fórum e a todo o Sul Global. Evocou o "verdadeiro multilateralismo", insistindo em que todos ouçam os mercados emergentes, os quais têm "uma palavra a dizer na gestão econômica global". E pediu "melhor diálogo Norte-Sul e Sul-Sul".

Coube ao presidente cazaque Tokayev, governante de país parceiro profundamente estratégico de Rússia e China, enunciar, pessoalmente, a frase mais crucialmente decisiva: a integração da Eurásia deve progredir de mãos dadas com a Iniciativa Cinturão e Rota (ICR) da China. Aí está: o circuito se completou.

Construir "em semanas" uma estratégia de longo prazo

São Petersburgo ofereceu várias discussões interessantes sobre temas-chave e subtemas da integração da Eurásia, como os negócios, no âmbito da Organização de Cooperação de Xangai (OCX); aspectos da parceria estratégica Rússia-China; o que o futuro reserva para os BRIC; e perspectivas para o setor financeiro russo.

Uma das discussões mais importantes concentrou-se na crescente interação entre a União Econômica Eurasiana (UEE) e a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ANSA; ing. ASEAN), exemplo chave do que os chineses definem como 'cooperação Sul-Sul'.

E isso conectado ao caminho ainda longo e sinuoso que leva a uma integração mais profunda da própria ANSA.

A integração da Eurásia exige passos que gerem desenvolvimento econômico mais autossuficiente para os membros; exige que se estabeleçam as prioridades para substituir importações; que se aproveite todo o potencial de transporte e logística; que se desenvolvam corporações transeurasianas; e que se imprima a 'marca' da ANSA em um sistema novo de relações econômicas globais.

O vice-primeiro-ministro russo Alexey Overchuk foi particularmente preciso nos assuntos urgentes mais próximos: implementar uma união econômica e alfandegária de livre comércio – além de um sistema de pagamento unificado – com pagamentos diretos simplificados, pelo cartão de pagamento Mir, para alcançar novos mercados no Sudeste Asiático, África e Golfo Pérsico.

Numa nova era definida pelos círculos empresariais russos como "jogo sem [falsas] regras"[2] – desmascarando a "ordem internacional baseada em regras [norte-americanas]" cunhada pelos EUA – outra discussão relevante foi trazida pelo principal conselheiro de Putin, Maxim Oreshkin, focada em determinar as prioridades para grandes empresas e o setor financeiro, conectadas com a política econômica e a política exterior do Estado.

O consenso é que as 'regras' atuais foram redigidas pelo ocidente. E que A Rússia só poderia conectar-se a mecanismos já constituídos, se sustentados por leis e instituições internacionais. Então o Ocidente "tentou nos espremer" e até "cancelar a Rússia". É hora portanto de "substituir essas regras sem regras".

Esse é tema-chave subjacente ao conceito de 'soberania' desenvolvido por Putin no discurso em plenário.

Em outra importante discussão presidida pelo CEO do Sberbank Herman Gref, que está sob sanção, houve muita preocupação em torno da ideia de que o "salto evolutivo russo em direção a 2030" deveria ter acontecido mais cedo. Agora, "uma estratégia de longo prazo deve ser construída em semanas", quando já se veem quebras em todo o espectro das cadeias de suprimentos.

Uma pergunta importante foi dirigida ao público – o crème de la crème da comunidade empresarial russa. "O que você recomendaria: aumentar o comércio com o leste, ou redirecionar a estrutura da economia russa?" Eloquentes 72% dos presentes votaram a favor de se redirecionar a estrutura da economia russa.

Assim então chegamos ao ponto crucial, pois todos esses temas estavam já em interação, quando consideramos o que acontecera, apenas alguns dias antes de São Petersburgo.

O corredor Rússia-Irã-Índia

Um nodo chave do Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (ing. INTSC) entrou agora no jogo, ligando o noroeste da Rússia ao Golfo Pérsico através do Mar Cáspio e do Irã. O tempo de transporte entre São Petersburgo e os portos indianos é de 25 dias.

Esse corredor logístico com transporte multimodal tem enorme significado geopolítico para dois membros do BRIC e para um potencial membro do "novo G8", porque abre rota alternativa fundamental para o tráfego usual de carga da Ásia para a Europa, através do canal de Suez.

O corredor INSTC é projeto clássico de integração Sul-Sul: uma rede multimodal de 7.200 km de rotas marítimas, ferroviárias e rodoviárias interligando Índia, Afeganistão, Ásia Central, Irã, Azerbaijão e Rússia, até a Finlândia no Mar Báltico.

Em termos técnicos, imagine um conjunto de contêineres indo por terra de São Petersburgo a Astrakhan. Em seguida, a carga navega pelo Cáspio até o porto iraniano de Bandar Anzeli. Em seguida, é transportada por via terrestre para o porto de Bandar Abbas. E depois, no exterior, para Nava Sheva, o maior porto marítimo da Índia. O principal operador é a empresa Linhas de Navegação República Islâmica do Irã (ing. Islamic Republic of Iran Shipping Lines (ing.IRISL), que tem filiais na Rússia e na Índia.

E isso nos leva ao objeto em torno do qual se travarão as guerras doravante: por corredores de transporte. Não mais por território.

A Iniciativa Cinturão e Rota (ICR) acelerada de Pequim é vista como ameaça existencial à 'ordem internacional baseada em regras'. Desdobra-se em seis corredores terrestres na Eurásia, além da Rota da Seda Marítima do Mar da China Meridional e do Oceano Índico, até a Europa.

Um dos principais objetivos da guerra por procuração que a OTAN faz na Ucrânia é interromper os corredores da ICR em toda a Rússia. O Império fará de tudo para interromper não apenas os nodos da ICR, mas também do INSTC.

O Afeganistão, sob ocupação dos EUA, foi impedido de se integrar, como mais um nodo à ICR ou ao Corredor INSTC.

Com acesso total ao Mar de Azov – agora "lago russo" – e sem dúvida a toda a costa do Mar Negro e dali adiante, pode-se prever que Moscou aumentará enormemente suas perspectivas de comércio marítimo (Putin: "Historicamente, o Mar Negro é território russo").

Nas últimas duas décadas, os corredores de energia foram fortemente politizados e estão no centro de implacáveis competições globais entre gasodutos – do gasoduto Baku-Tbilisi-Ceyhan e South Stream aos Nord Stream 1 e 2, e os intermináveis novelões dos gasodutos Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia (TAPI) e Irã-Paquistão-Índia (IPI).

Depois, há a Rota do Mar do Norte ao longo da costa russa até o Mar de Barents. China e Índia estão muito focadas na Rota do Mar do Norte, também discutida em detalhes, não por acaso, em São Petersburgo.

O contraste não poderia ser mais impressionante: de um lado os debates de São Petersburgo sobre uma possível reconexão do mundo em que vivemos; de outro lado, os Três Patetas embarcados num trem para lugar nenhum, para dizer a um comediante ucraniano medíocre que se acalme e negocie a rendição (conforme confirmado pela inteligência alemã).

Quase imperceptivelmente – assim como reincorporou a Crimeia e entrou no teatro sírio – a Rússia, agora como superpotência militar-energética mostra-se capaz, sim, de remeter de volta para a Idade da Pedra, grande parte do ocidente industrializado. Simplesmente, as elites ocidentais são impotentes.

Se ao menos pudessem percorrer um corredor no trem de alta velocidade eurasiano, talvez aprendessem alguma coisa.
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[1] Mais sobre isso em Monthly Review Online, de China Environment News, 2/6/2022, Cheng Yawen, postado em 14/6/2022 (ing.) [NTs].

[2] Há importante dificuldade na tradução da expressão "game with no rules". "Jogo sem regras" (todos poderiam fazer o que queiram?!), absolutamente não corresponde ao significado em inglês, no contexto desse artigo e do problema. No verbete 'Rule' do Cambridge Dictionnary, vê-se que a palavra tem em inglês, dentre outros, um traço semântico de 'regra aceita' ou 'regra reconhecida' ou 'regra legítima'; e que também tem uma acepção como verbo "regrar" (e até "mandar"). Para nos aproximarmos do equivalente semântico, em português, de rule/rules, na acepção que a expressão tem em inglês, tentamos aqui a via de incluir na expressão o adjetivo "falsas". Pode-se tentar "também "regras sem legitimidade".

Adiante, no artigo, esse problema é admitido e exposto bem claramente: "A Rússia só poderia conectar-se a mecanismos já constituídos, se sustentados por leis e instituições internacionais. Então o Ocidente "tentou nos espremer" e até "cancelar a Rússia". É hora portanto de "substituir essas regras sem regras" (de Maxim Oreshkin, conselheiro de Putin no FEISP. E não lembro de ter visto reconhecimento e exposição mais clara desse 'problema das regras', em toda a mídia 'ocidental'). Correções e comentários são bem-vindos [NTs].

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