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O lucro recorde da Petrobrás e a alta nos preços de combustíveis

Publicado em 24/02/2022 Escrito por  Eric Gil Dantas Lido 889 vezes

face-homemA Petrobrás anunciou ontem mais um lucro líquido recorde,

R$ 106,7 bilhões no acumulado de 2021. É um número bastante superior ao que vimos em 2019 (R$ 40 bi), 2010 (R$ 35 bi), 2008 e 2011 (R$ 33 bi, cada), os melhores resultados até então. Atualizado pela inflação, o ano de 2008 é o que chega mais próximo, R$ 72 bilhões em valor atual.

Parte disso, R$ 23,4 bilhões, veio de receitas “não recorrentes”. Principalmente devido a um impairment (R$ 18,8 bilhões) e a dinheiro recebido pelas privatizações (R$ 10,9 bilhões). Mesmo assim, o lucro recorrente da companhia ainda ficou em R$ 83,9 bilhões.

O que levou a Petrobrás a este resultado histórico? Seria uma melhora da gestão, como alegam os adoradores do Mercado? Privatizações, foco em ativos de classe mundial e alinhamento com os preços de mercado?

Primeiramente vejamos os números sobre produção da Petrobrás. A estatal extraiu em 2021 2% a menos de petróleo e gás do que no ano anterior, quando houve pico de produção da estatal. Por outro lado, aumentou a utilização da capacidade instalada do seu parque de refino para 83% – no último trimestre de 2021 atingiu a marca dos 88%, maior resultado desde o 3º trimestre de 2015 – o que levou a um aumento de 1,3% na produção de derivados. Em síntese, diminuiu a produção de petróleo e gás 56mil boed e aumentou de derivados 24 mil boed.

Sendo assim, não parece ser o volume produzido que explica este resultado. Então, se não é a quantidade, vejamos o preço.

Vimos no último ano uma grande escalada de preços, tanto do barril do petróleo, quanto dos combustíveis. O leitor pode pensar que, apesar de o barril de petróleo (no nosso caso, o brent) ter chegado ao fim do ano passado próximo dos 80 dólares, isto não seria nenhuma novidade. Em 2012 e 2013 a média anual ficou próximo dos 110 dólares, e mesmo assim não vimos resultados como os divulgados ontem. Sim, é verdade. A média de preço do barril de petróleo vendido em 2021 ficou em US$ 70,73. Em 2012 foi de US$ 111,27. No entanto, a taxa de câmbio saltou de 1,67 real por dólar em 2012 para 5,40 reais por dólar no ano passado. Isto é, em moeda nacional o preço do barril vendido pela Petrobrás em 2021 ficou em R$ 382, muito superior ao que aconteceu em qualquer outro ano. O mais próximo disto foi em 2018, quando chegou a R$ 260. O barril a R$ 382 é 117% superior à média do período que vai de 2007 a 2020 (R$ 176).

Nos postos e revendas, os produtos derivados de petróleo chegaram no ano passado a suas maiores marcas históricas. Como 60% das receitas líquidas da estatal advém dos produtos derivados de petróleo (o custo do barril que a Petrobrás repassa para suas refinarias também está aí, obviamente), o preço do mercado interno é determinante para os resultados da empresa.

Em 2021 o “Preço derivados básicos ‐ Mercado interno (R$/bbl)” da Petrobrás chegou a R$ 416,40. A marca mais próxima disto havia sido em 2018, com R$ 299,70 (lembram da greve dos caminhoneiros?). O preço de 2021 equivale a quase o dobro da média do período anterior (2007 a 2020), de R$ 212. Se compararmos a 2020, houve um crescimento de 64% nos preços.

Gráfico 2 – Preço derivados básicos ‐ Mercado interno (R$/bbl) (anuais)

É verdade que a Petrobrás gerou muito mais dinheiro em 2021. O fluxo de caixa operacional (resultado contábil que se restringe aos movimentos da operação em si da empresa, deixando de fora questões financeiras, por exemplo) dobrou nos últimos dois anos. Mas também é verdade que isso acontece em grande parte por conta dos preços dos dois principais produtos da empresa: petróleo cru e seus derivados.

O Pré-sal vem ajudando enormemente. Já equivale a 70% do total do petróleo produzido pela companhia, e tem um custo de extração 77% inferior aos outros (terra, águas rasas e águas profundas). Grandes investimentos agora se frutificam em enormes receitas e custos muito inferiores.

Infelizmente não temos muito a comemorar com esse resultado. Como vimos, o lucro advém de altíssimos preços, principalmente dos derivados. No Mato Grosso um botijão de gás está sendo vendido em média a R$ 123,54. A gasolina comum é vendida em média a R$ 7,15 no Rio de Janeiro. O Diesel S-10 a R$ 6,37 no Acre. Com o PPI, todo aumento do preço internacional do petróleo, que deveria trazer maior renda para o país, vira inflação e pobreza para a nossa população. Com o conflito na Ucrânia o barril de petróleo ultrapassou os US$ 100. E aí? A Petrobrás vai cobrar R$ 150 pelo botijão e pagar novamente os R$ 101 bilhões em dividendos do ano fiscal de 2021?

Eric Gil Dantas, economista do Ibeps

Fonte: FNP

 

 

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