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Mourão, o anti-Geisel, e sua fracassada tarefa em Angola

22 Julho Escrito por  Beto Almeida Lido 739 vezes

face-homem Geisel o primeiro a reconhecer a Independência de Angola, que lutava para expulsar o exército da África do Sul, então sob o regime do Apartheid.

O General Mourão foi indevidamente encarregado, pelo Presidente Bolsonaro, de fazer gestões junto ao presidente de Angola, João Lourenço, em favor dos interesses da Igreja Universal, empresa que foi expulsa de solo angolano por lavagem de dinheiro. O vice-presidente brasileiro ainda solicitou a mandatário angolano que recebesse uma delegação parlamentar brasileira, chefiada por um parlamentar que é bispo, para , de algum modo, evitar que a punição soberana do estado angolano fosse cumprida.

Além do evidente rebaixamento do cargo de vice-presidente da república às funções de operador em favor dos interesses de uma empresa cuja matéria-prima é a circulação manipulada da fé, mas é possuidora de meios de comunicação (televisoras, rádios, editoras, jornal, gravadora de discos etc), a gestão feita por Mourão constitui-se em lamentável ingerência em assuntos internos de estado soberano, com o qual o Brasil possui larga e expressiva tradição de amizade, e, também, significativas ações de cooperação.

Estatizante X Neoliberal

É possível que o General Mourão, que durante a campanha eleitoral, em programa na Globo News, definiu-se como um "anti-Geisel", explicando que considerava o ex-Presidente brasileiro "um estatizante", enquanto ele era neoliberal - não tenha sabido valorizar a importância que o MPLA, partido a que pertence o presidente Lourenço, atribui ao mandatário gaúcho. Foi o governo do Presidente Geisel o primeiro a reconhecer a Independência de Angola e o governo do Presidente Agostinho Neto, em 1975, quando a nação angolana ainda lutava para expulsar o exército da África do Sul, então sob o regime do Apartheid.

A decisão de Ernesto Geisel foi imensamente valorizada pela comunidade de países que lutava contra o colonialismo, entre eles a URSS, e, muito especialmente pela República de Cuba, que em solidariedade à justa luta de Angola por sua independência, enviou-lhe cooperação militar de envergadura, com cerca de 400 mil homens e mulheres cubanos que, ao final de uma longa guerra, foi fator determinante para derrotar o Exército da África do Sul, na memorável Batalha de Cuito Cuanavale, mesmo com o régio apoio que as tropas do Apartheid recebiam dos Estados Unidos e de Israel, países de submissa simpatia do General Mourão. Entrevistando a jornalista e escritora Katiusca Blanco, biógrafa de Fidel, que também integrou as forças militares cubanas que derrotaram o exército mercenário de Jonas Savimbi , a UNITA, soube que a notícia da decisão do Presidente Geisel pela TV foi aplaudida pelas tropas cubanas e angolanas.

Kissinger, fora da agenda

Se por um lado Fidel Castro e Agostinho Neto, com o apoio da URSS, aplaudiam o pioneiro reconhecimento feito pelo governo Geisel, de outro, o então Secretário de Estado dos EUA, Henry Kissinger, mais conhecido como o "viajante da morte", desembarcou em Brasília , onde queixou-se do presidente brasileiro , alegando que "o governo brasileiro está fazendo o jogo dos comunistas em Angola com aquela linha em sua política exterior". De poucas palavras, Geisel respondeu em tom firme e surpreendente ao intervencionismo gringo: " Senhor Secretário, a nossa política externa não está na agenda da reunião".

Na realidade, os EUA tinham alguma expectativa de que o Brasil algo pudesse fazer contra aquela histórica Operação Carlota, - nome de uma negra cubana que lutou heroicamente contra a escravidão - que, em rota contrária à dos Navios Negreiros, ao longo de anos, cruzou o Atlântico levando tropas e armamentos de Cuba para a libertação Angola. Entretanto, como Kissinger pode constatar, aquele reconhecimento pioneiro do Governo de Agostinho Neto por Ernesto Geisel não era um ato isolado da política externa brasileira de então. Enquanto naquela época defendiam-se interesses estratégicos do Brasil, Mourão,hoje, rebaixa o Estado Brasileiro a um varejismo desqualificado em defesa de uma empresa atravessadora da fé.

Geisel furou o bloqueio dos EUA ao Iraque

A política externa brasileira, naquela época, também registrou apoio e reconhecimento aos governos de Moçambique, Guiné, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. Além disso, sustentava o Direito ao Mar para a Bolívia, ao mesmo tempo que reatava relações com a República Popular da China, então sob o comando de Mao Tsé Tung. Além disso, adotava nova postura em relação aos países árabes, impulsionando as relações com a Líbia e Iraque, ao ponto do Brasil enviar para este país a estatal Braspetro, responsável pela descoberta do maior manancial de petróleo por lá, em equipe sob o comando do geólogo Guilherme Estrella, que, mais tarde, teria grande responsabilidade na coordenação dos trabalhos de equipe que levaram à descoberta do Petróleo Pré-Sal. Quando o Iraque, na década de 70, passa a explorar o poço gigante de Majnou, os EUA impõem bloqueio contra o governo de Sadam Housseim, o qual o governo de Ernesto Geisel furou, comprando enormes quantidades de petróleo iraquiano, apesar da proibição imperial estadunidense.

O episódio em que o vice-presidente Mourão, em desqualificada tentativa de imiscuir-se em assuntos de outros estados para defender empresa punida por leis angolanas, é uma flor de oportunidade para refletir sobre o rebaixamento da política externa brasileira hoje, permitindo realçar o contraste com uma linha terceiro-mundista praticada pelo Itamaraty por décadas. O soberano e altivo NÃO que o vice-presidente Mourão recebeu do presidente angolano João Lourenço, tornar-se-á ,certamente, uma espécie de paradigma negativo da involução da política exterior do Brasil, similar à batida de continência de Jair Bolsonaro ante a bandeira dos EUA.

No contraste, está a postura de Geisel que, ao reconhecer o governo do MPLA, liderado por Agostinho Neto, inscreveu o Brasil na página da descolonização da África, em sintonia com o heroico esforço empreendido por Cuba que, ao derrotar o poderoso e bem armado exército sul-africano, libertou Angola e a Namíbia, desestabilizando o regime do Apartheid, contribuindo decisivamente para a libertação de Nelson Mandela. Ao sair da prisão, Nelson Mandela viaja a Cuba onde, agradecido, declara, em comício ao lado de Fidel Castro: "Devemos a Cuba o fim do Apartheid". A política externa brasileira estava do lado certo da História.

Beto Almeida, jornalista

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