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Civilização e energia

05 Julho Escrito por  Andrei Martyanov Lido 939 vezes

face-homemCivilização moderna e energia são as duas faces da mesma moeda.

Não existe civilização sem produção de energia porque não existe civilização sem consumo de energia. Como acontece com qualquer ser humano, o processo de consumo e reposição de energia é constante, mesmo quando nós, humanos, dormimos. Isto se aplica ainda mais às sociedades modernas cuja existência sem energia – seja gasolina para os carros, querosene para os motores a jato, eletricidade para iluminar e alimentar as máquinas industriais – é inconcebível. No final, a história do progresso da humanidade é uma história de extração e utilização de energia, desde as fogueiras nas cavernas primitivas até à Estação Espacial Internacional e centrais de energia nuclear e, não nos esqueçamos, das armas de destruição maciça que podem condenar toda a civilização humana à aniquilação total.

Hoje, a geopolítica e a geoeconomia contemporâneas podem ser definidas adequadamente dentro de uma estrutura que leva em conta a energia. A energia não é o único maior fator económico consequente; é também um grande problema geopolítico. Para mim, pessoalmente, sendo natural da cidade de Baku, agora capital de um Azerbaijão independente, desde que nasci que a produção de energia tinha um odor muito específico que absorvi em criança. Baku e a Península de Apsheron, onde se situa, cheiravam a petróleo bruto. Esse cheiro tornou-se uma sensação constante devido ao facto de o óleo ser extraído da terra ininterruptamente em Apsheron desde 1846, quando o primeiro poço foi lá perfurado, muito antes do desenvolvimento dos campos de petróleo americanos. O resto é história, com Dmitry Mendeleev e os irmãos Nobel a desempenharem um papel fundamental no desenvolvimento dos campos de petróleo e da indústria petroquímica em Apsheron. No início do século XX, o Azerbaijão, então parte do Império Russo, produzia mais da metade do petróleo mundial. O Azerbaijão em geral, e Baku em particular, tornou-se o cadinho da indústria petrolífera da Rússia.

Na época soviética, Apsheron era um enorme campo de petróleo e o crude era bombeado perto de Baku, nos subúrbios de Baku e dentro da própria Baku. O primeiro Instituto Politécnico da Eurásia totalmente dedicado à educação de engenheiros de petróleo foi aí fundado no início do século XX. O petróleo de Apsheron foi também literalmente o combustível que permitiu a vitória da União Soviética na Segunda Guerra Mundial. A exploração offshore estava também a desenvolver-se a uma velocidade surpreendente e, na década 1950, Baku havia-se tornado na verdadeira capital do petróleo e da indústria petroquímica da União Soviética. Estava também a tornar-se cada vez mais numa cidade muito bonita e pitoresca. Embora o cheiro a petróleo persistisse no ar, muitas vezes misturado com o cheiro dos oleandros e dos rododendros, até nem incomodava assim tanto a maior parte dos nativos de Baku.

Qualquer pessoa nascida em Baku no século XX nascia automaticamente no mundo da extração e processamento da substância mais importante na história da humanidade moderna – o petróleo. O crude e tudo o que está a ele associado, desde a tecnologia às pessoas, foi e ainda é o principal motor que impulsiona a economia não só do Baku, mas de toda a região do Cáucaso. Evidentemente, desde o colapso da União Soviética, o papel do Azerbaijão na produção de petróleo caiu vertiginosamente no espaço da ex-União Soviética, com a Rússia a produzir em Maio de 2020 quase 14 vezes mais petróleo do que o Azerbaijão. Isto levou a um declínio dramático na importância relativa do Azerbaijão numa Era onde os grandes grupos económicos, militares e da energia estão de volta ao que muitos no Ocidente chamaram de a Grande Competição pelo poder, a maior parte desta construída à volta da Energia. O petróleo bruto e outros hidrocarbonetos – como o gás natural – permanecem no centro da geopolítica e da geoeconomia modernas, caso alguém esteja inclinado a utilizar o termo Grande Competição ou, usando a definição de Luttwak – guerra por outros meios.

A produção global de energia no mundo é expressa frequentemente na métrica MTEP, que significa Milhões de Toneladas Equivalentes de Petróleo – que define a produção total de energia que varia entre o petróleo real e o gás e é expresso em Joules (uma medida padrão para energia) obtido pela queima de uma tonelada de petróleo. Em 2019, o balanço da produção de energia expresso em MTEP era revelador. A China liderava o mundo com 2684 MTEP com os EUA e a Rússia a seguir na liderança com 2303 e 1506 MTEP, respectivamente. Outro índice crucial de desenvolvimento económico, a produção de eletricidade a partir de todas as fontes – petróleo, hidroelétricas, carvão e nuclear – viu a China a liderar o mundo dramaticamente com a produção de 7482 Terawatts-hora (TWh), com os Estados Unidos a ficarem num segundo lugar distante com 4385 TWh, com a Índia em 1614 TWh e a Rússia em 1122 TWh. Estes números são cruciais para a compreensão da formação de, não apenas uma nova realidade económica, mas de uma nova realidade geopolítica, na qual os Estados Unidos encontram-se cada vez mais não só desafiados, como também superados economicamente – uma realidade que as elites americanas tentam negar – em termos globais do poder nacional. A Energia nesta realidade geopolítica e geoeconômica desempenha um papel crucial e assim continuará a desempenhar e a expandir-se no futuro.

Qualquer pessoa que tenha lido as manchetes económicas dos jornais em Março de 2020 acerca da reunião da OPEP+ em Viena poderia muito bem ter lido os relatórios sobre um colapso nas negociações diplomáticas, o que precede a maioria das guerras. A OPEP+ foi uma modificação da OPEP original (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) fundada em 1960, pela adição em 2016 da Rússia, México, Azerbaijão e alguns outros países produtores. A agência Bloomberg descreveu o colapso em Viena nestes termos:

O colapso é a maior crise desde que a Arábia Saudita, a Rússia e mais de 20 outras nações criaram a aliança OPEP+ em 2016. O grupo, que controla mais da metade da produção mundial de petróleo, susteve os preços e reformulou a geopolítica do Oriente Médio, aumentando assim a influência do presidente Vladimir Putin na região. Mas está sob crescente pressão no último ano.

O colapso das negociações de Viena entre dois dos maiores players, a Arábia Saudita e a Rússia, referidos pelos media ocidentais como "aliados", deveu-se à recusa da Rússia em continuar com seus cortes na produção de petróleo para manter os preços do petróleo em níveis confortáveis para os produtores. A Rússia, na sua essência, rejeitou todas as limitações da OPEP+ à produção de petróleo. O ministro russo da Energia, Alexander Novak, afirmou explicitamente que as empresas de petróleo da Rússia eram livres para aumentar a produção a partir de 1 de abril. Os media ocidentais e os especialistas enquadraram imediatamente o falhanço dos limites de produção da OPEP+ como uma guerra do petróleo entre a Rússia e a Arábia Saudita. Não poderiam estar mais errados, mesmo considerando os muito baixos padrões dos sabichões ocidentais quando discutem qualquer coisa relacionada com a Rússia. No fim iriam acabar por aprender uma lição cruel e humilhante. A Rússia, recusando qualquer corte na produção de petróleo, não estava contra a Arábia Saudita, mas sim contra os Estados Unidos. Nomeadamente, a indústria americana do petróleo de xisto (shale oil) e da fraturação hidráulica (fracking). E, efetivamente, a Arábia Saudita deu meia-volta e aumentou a sua produção – contra aquilo que tinha exigido inicialmente – e a fazer o mesmo que a Rússia.

O aparecimento da América no mercado internacional do petróleo é uma história da tecnologia que ganhou ao bom senso económico e também uma história de absoluta fraude. A produção de petróleo dos EUA entre 2000 e 2011 oscilou entre os 5-6 milhões de barris de petróleo por dia. Mas em 2012 as coisas mudaram – a produção começou a aumentar a uma taxa crescente e em 2019 atingiu mais de 12 milhões de barris por dia. Em janeiro de 2020, os Estados Unidos estavam a produzir quase 13 milhões de barris de petróleo por dia. Esse crescimento maciço na produção de petróleo deveu-se principalmente ao que então era descrito como um boom de xisto. É óbvio que a tecnologia de extração de petróleo de xisto, que existe desde meados do século XX, continuou a aperfeiçoar-se com o passar dos anos. Mas a produção de petróleo de xisto sempre foi cara e ao longo do século XX o petróleo de xisto não podia competir com o petróleo barato extraído pela perfuração vertical clássica, e que muitas vezes definia os horizontes de lugares ricos em petróleo como a Península de Apsheron em geral e Baku em particular, dominados pelas torres de petróleo e, posteriormente, o mar, salpicado de plataformas de petróleo facilmente visíveis.

Uma mudança dramática para o petróleo de xisto veio com a melhoria da tecnologia de fracking e a disponibilidade de crédito barato nos Estados Unidos – isto é, dívida – para muitas empresas de petróleo independentes, que em meados dos anos 2000 correram mesmo para campos não comprovados de petróleo de xisto e acabaram por conduzir quase todo o crescimento da indústria do petróleo. Em 2019 elas respondiam por quase dois terços da produção de petróleo dos EUA.

Todo esse crescimento foi alcançado, do modo como descreveu o analista financeiro David Deckelbaum: "Esta é uma indústria em que para cada dólar que trouxerem, terão de gastar dois". Em linguagem simples, a indústria não é economicamente viável, não importa a forma como se olha para esta indústria, mesmo quando se consideram preços do petróleo razoavelmente altos. No entanto, com os preços do petróleo a cair, como quando começaram a cair em 2019, enquanto a indústria exigia preços entre US$55-65/barril em 2020 para chegar ao break even (ponto de equilíbrio), as perspectivas para o petróleo de xisto dos EUA estavam a tornar-se cada vez mais terríveis. Mas dois fatores, de geoeconomia como dizem os puristas, acuaram contra o petróleo dos EUA e a sua prematura declaração de independência energética, bem como contra a noção de que a América estava a tornar-se num exportador líquido de petróleo:

1. O petróleo de xisto dos EUA era financeiramente inviável;
2. As exportações de petróleo dos EUA foram possíveis primariamente devido aos EUA terem "apanhado" quotas libertadas principalmente como resultado dos cortes anteriores da Rússia e da Arábia Saudita dentro da OPEP+ numa tentativa de equilibrar o mercado mundial de petróleo, o qual enfrentava queda nos preços devido a um excesso de produção.

Claro que havia um terceiro fator em jogo aqui e que era crucial para o petróleo de xisto dos EUA – eram os custos da Rússia. O custo do petróleo saudita oficialmente declarado tão baixo quanto US$2,80 por barril não fomos um fator. Era considerado simplesmente como um dado adquirido que os sauditas permaneceriam extremamente competitivos com praticamente qualquer custo de petróleo. O problema da Arábia Saudita reside no seu sistema político retrógrado, na sua mono-economia e no peso tremendo da vasta rede de membros da realeza saudita e sua população em geral com as obrigações sociais e de bem-estar que lhes são dispensadas, questão esta que não poderia ser revista sem criar uma grave instabilidade política em Riad.

Sem nunca ter revelado oficialmente os seus custos, registou-se várias vezes que a Rússia está confortável com o preço do petróleo à volta de US$40/barril. O orçamento da Rússia, no qual o petróleo era um dos principais contribuintes da receita, embora de longe não o único, tinha esse número como preço base para um orçamento equilibrado. O cansaço da Rússia com o petróleo de xisto dos EUA que estava a conquistar mercado à pala dos cortes de produção na Rússia foi a principal razão para o colapso das negociações na OPEP+ de Viena a Fevereiro de 2020 visando cortes de produção, e teve muito pouco a ver com qualquer "aliança" de petróleo russo-saudita. Por outro lado, e a propósito, quaisquer contradições irreconciliáveis durante as negociações na OPEP+ terão tido muito mais a ver com o petróleo de xisto dos Estados Unidos que não tem qualquer direito económico de usurpar os já bem-estabelecidos produtores de petróleo que estavam prontos para negociar e para se comprometerem, como já haviam feito em muitas outras ocasiões, para evitar problemas.

Economicamente e financeiramente, o petróleo de xisto dos EUA era uma anomalia, ou como um repórter questionou: "Os perfuradores de xisto dos EUA merecem existir em mercados livres?". Era uma pergunta difícil para uma nação que, por dois séculos, anda globalmente a fazer proselitismo das virtudes de um "mercado livre" e "livre comércio", espalhando o evangelho da austeridade financeira e dos resultados financeiros. Os grandes media dos EUA, sempre atentos ao lidar com a Rússia, embora incompetentemente como sempre, anunciaram o colapso da OPEP+ em Viena como o início da guerra do petróleo entre a Rússia e a Arábia Saudita. A revista Time chegou a chamar a essa guerra de "Battle Royal" e colocou a intenção saudita de "inundar o mercado" e "dar uma lição à Rússia" no centro da suposta disputa. Para esses comentadores, a falar em nome de uma nação cujo preço de referência do petróleo andava a volta de US$80/barril, este foi um cato um tanto imprudente. Como sempre acontece com os grandes media dos EUA, perceberam tudo errado. A maioria deles, pelo menos. Apenas a relativamente marginal Newsmax foi capaz de ver a dura realidade – para os Estados Unidos – da alegada disputa russo-saudita e fez o que qualquer jornalista profissional normal faria nestas circunstâncias: perguntar aos russos como é que viam toda a situação. Os russos não viram a situação como foi vista nos EUA. Como Alexander Dynkin, um dos peritos mais influentes da Rússia, o presidente do Instituto de Economia Mundial e Relações Internacionais em Moscou, um think tank estatal, afirmou:

"O Kremlin decidiu sacrificar a OPEP+ para travar os produtores de xisto dos EUA e para punir os EUA por se intrometerem no Nord Stream 2. Claro que incomodar a Arábia Saudita pode ser arriscado, mas esta é a estratégia da Rússia neste momento – geometria flexível de interesses".

Os eventos que se seguiram validaram completamente esta hipótese inicial e se alguém deveria aprender uma lição, eram os Estados Unidos. A lição não foi apenas na teoria, mas na aplicação prática e bem-sucedida da geoeconomia e de uma análise geopolítica sólida. O movimento dos sauditas de inundar o mercado com petróleo barato não foi contra a Rússia, por si só. Nem os russos pretendiam necessariamente destruir completamente o petróleo de xisto dos EUA, tendo inicialmente como objetivo principal levar os Estados Unidos à mesa de negociações e transformar a OPEP+ em OPEP++. No final, os próprios sauditas tinham contas a ajustar com o petróleo de xisto dos EUA. A Rússia poderia resistir a qualquer calamidade no mercado global de petróleo, o petróleo de xisto dos EUA não, especialmente no contexto da pandemia COVID-19 e no fecho das economias das nações ocidentais. Os perfuradores de petróleo de xisto dos EUA poderiam endividar-se para sobreviver mais tempo à queda dos preços do petróleo, a Rússia poderia aproveitar o colchão de US$500 mil milhões que havia preparado com antecedência. De facto, já se sabia que os russos tinham capacidade para sobreviver a preços do petróleo muito baixos muito antes dos atritos entre a Rússia e a Arábia Saudita em Viena. Em declarações à CNCBC em Outubro de 2019, o ministro das Finanças da Rússia, um reformista liberal bastante pró-ocidental, estava bastante confiante de que mesmo que o preço do petróleo caísse para "US$30 ou US$20 por barril, a Rússia não sofreria um choque económico e seria capaz de cumprir as suas obrigações orçamentais durante três anos, graças às suas vastas reservas de ouro".

Num caso clássico de arrogância, obstinação e incompetência, os media dos EUA deram início a uma orgia de especulações (e adulterações) sobre as reservas de ouro e moeda da Rússia e até começaram a praticar o seu passatempo favorito de prever a perda de poder de Vladimir Putin na Rússia. Alguns repórteres ocidentais, como é habitual, a projetarem a sua própria incompetência e imaturidade, uma característica definidora do corpo de jornalistas nos EUA, até começaram a explicar em Abril de 2020 – quando os preços do petróleo caíram abaixo dos US$30/barril e o massacre da indústria de petróleo de xisto dos EUA começou a sério – que a aparente inflexibilidade de Putin (e da Rússia) em face da alta dos preços do petróleo devia-se ao orgulho de Putin. Obviamente não houve "desafio" ao "poder" de Putin, como os artigos sugeriam, e os russos foram muito claros ao afirmar que poderiam viver com o preço de US$25/barril por um período de 10 anos. Os russos mantiveram-se também absolutamente calmos quando o volume de petróleo produzido nos EUA caiu, num movimento historicamente sem precedentes, em território negativo no final de Abril de 2020. Em algum momento o WTI (West Texas Intermediate), petróleo americano de referência, estava a negociar a -US$40/barril. Estando a negociar a -US$40 – preços negativos – uma situação tão fora do comum, tornava-se claro que tão cedo não haveria retorno a preços do petróleo na faixa dos US$80/barril ou mesmo dos US$60/barril, se é que alguma vez haveria.

É uma verdade bem conhecida a que, em retrospectiva, tudo bate certo e faz sentido. Mas qualquer pessoa que lesse este artigo no Outono de 2020, sobre os resultados de uma alegada "guerra de preços" entre a Rússia e a Arábia Saudita, não poderia ignorar o principal resultado desta situação que, neste caso, foi a devastação que trouxe à indústria do petróleo de xisto dos Estados Unidos. Já em Junho de 2020, depois de os preços do petróleo terem estabilizado um pouco à volta dos US$39 para o WTI americano, e terem começado a flutuar consistentemente acima dos US$40 para a principal referência russa, os Urais – a CNBC citando um relatório da Deloitte emitido a 22 Junho saia-se com uma manchete assustadora: "A indústria de xisto vai ser abalada por US$300 mil milhões em perdas e uma onda de falências”. Se os sinais da insolvência do petróleo de xisto dos EUA já eram visíveis em meados da década de 2010, como um observador da indústria do petróleo sublinhou, 2020 foi o ano do "Grande Massacre Americano do Petróleo de Xisto e do Gás". Era uma descrição adequada da implosão catastrófica do petróleo norte-americano, cujo resultado final ainda viu os Estados Unidos aderir à OPEP+ quando se discutiam os cortes necessários para a estabilização do mercado em torno de exatamente dos US$40, o que deixou a Rússia feliz, a Arábia Saudita insatisfeita e a indústria de petróleo de xisto dos EUA efetivamente defunta. A Rússia inicialmente queria os Estados Unidos na mesa de negociações da OPEP+. E a Rússia conseguiu isso e ainda conseguiu incluir a Arábia Saudita como terceira bola no bilhar russo, com duas das bolas a cair nas bolsas da mesa do bilhar.

A lição para os Estados Unidos foi humilhante. Sucedeu-se, uma vez mais, o chorrilho de conspirações e cabalas dos supostos sabichões e "peritos" dos EUA contra a Rússia – uma coleção de ideólogos ignorantes que, longe de saberem qualquer coisa sobre a Rússia ou a indústria do petróleo, também sabiam muito pouco sobre os Estados Unidos e o seu principal "aliado" no Médio Oriente, a Arábia Saudita. Como um autoproclamado "especialista" em Rússia, George Friedman da famosa STRATFOR, escreveu numa peça incoerente, emocionalmente carregada e delirante, cheia de chavões e propaganda dos EUA sobre a Rússia – desde o orgulho de Putin até à dependência da Rússia do petróleo, aos oligarcas russos e ao colapso iminente da Rússia – que a Rússia era "o maior perdedor do mundo (biggest loser) com a queda do petróleo". O facto de ainda darem palco e espaço público a estes "especialistas" nos Estados Unidos e de serem tratados como especialistas é um poderoso testemunho do declínio da experiência profissional nos Estados Unidos, não apenas em campos inerentemente susceptíveis à fraude, como ciência política e comentários políticos, mas em campos que realmente requerem uma boa compreensão tanto da realidade "no terreno" quanto habilidades suficientes para ter pelo menos alguma compreensão do assunto.

A crise do petróleo de 2020, de facto, ensinou lições a quem estivesse disposto a aprender. Mesmo com uma das chamadas grandes petrolíferas, a British Petroleum, tendo divulgado um relatório que previa o fim do crescimento da procura por petróleo, a lição principal nem foi sequer a trajetória da indústria do petróleo. Ficou claro que o encerramento das economias ocidentais devido a uma reação exagerada à pandemia COVID-19 mudaria a estrutura da procura. A principal lição foi que a Rússia era absolutamente impermeável às pressões dos EUA e era a única nação verdadeiramente independente em energia na Terra. A independência energética da Rússia apoiava-se numa combinação de poder militar e económico, o que permitiu à Rússia prosseguir com seus principais objetivos económicos, incrementando-os no processo. A Rússia fê-lo sem qualquer consideração às opiniões e ameaças do que, parecia na época, uma coleção dos mais poderosos atores (players) no mercado do petróleo: Estados Unidos, Arábia Saudita, entre outros. Alguns observadores nos Estados Unidos finalmente aprenderam algumas lições e, como concluiu um deles: "Era evidente para qualquer pessoa até com apenas a metade do cérebro que a última guerra de preços do petróleo instigada pelos sauditas terminaria em fracasso abjeto para os mesmos, assim como o esforço nos anos anteriores 2014-2016 o fez e pelas mesmas razões". Simon Watkins, que assim concluiu, pelo menos tinha o direito de gabar-se de tal conclusão; havia previsto o fracasso saudita já em Março de 2020, logo no início da crise do petróleo.

No entanto, realisticamente, Watkins foi um dos poucos que falou com sensatez, mas mesmo os raros discursos como os dele falharam largamente a identificar a guerra do preço do petróleo como um assunto essencialmente russo-americano, com a Arábia Saudita a ser apenas um proxy da Rússia ou, de acordo com a tradição americana da conspiração – o Judas traidor do mercado global do petróleo. É evidente que a Arábia Saudita, num cenário de queda de preços, não tinha outra opção senão duas – aceitar o seu destino e começar a viver com as suas reservas enquanto administrava um déficit orçamental sempre crescente, ou fazer algo em relação a esse cenário. A Rússia, ao recusar cortes de produção em Fevereiro, obrigou os sauditas, liderados por Mohammad Bin Salman, a liberar uma armada de petroleiros cheia de petróleo, o que baixou o preço do petróleo e deu início ao colapso total da indústria de fracking dos EUA. Se alguma vez houve um cato com sentido de Estado nos assuntos econômicos globais mais importante do que o do Kremlin, deve ter sido um evento na escala da formação da OPEP em 1960 ou do embargo do petróleo de 1973-74 por uma iteração árabe da OPEP, OAPEP, que abalou os alicerces da economia da América e redefiniu dramaticamente a paisagem geopolítica.

Para os excepcionalistas americanos, toda a noção de que a Rússia poderia forçar os Estados Unidos a fazer qualquer coisa que beneficiasse a Rússia, como participar dos cortes na produção de petróleo e ter um preço do petróleo que satisfizesse a Rússia, era insuportável. Para piorar a situação, havia o facto de que, enquanto o petróleo de xisto nos EUA continuava a provocar grandes falências e cortes radicais, a Rússia aumentava as suas reservas de ouro e moeda estrangeira para o correspondente a US$600 mil milhões. Além disso, acrescenta-se a humilhação vinda da China a superlotar as suas reservas de petróleo com petróleo barato, enquanto simultaneamente assina um maciço acordo de parceria estratégica com o Irão, supostamente no valor de US$400 mil milhões, incluindo a possibilidade de um pacto militar, que teve enormes ramificações geopolíticas para os Estados Unidos que, assumidamente, vê ambos Irão e China como inimigos.

A escala da derrota geoeconômica da América, que não conseguiria ser ofuscada através de campanhas incessantes pelos lobbies, trouxe à tona uma verdade muito importante e fundamental: a indústria do petróleo, juntamente com os recursos de hidrocarbonetos de uma nação, era mais eficaz nas lutas geoeconômicas e geopolíticas apenas se estivesse sob o controle direto de um governo nacional, como o que foi organizado na economia cada vez mais mista da Rússia. O outro lado dessa derrota foi a tradicional ignorância americana, se não tiver sido mesmo a ilusão totalmente debilitante no que diz respeito aos assuntos económicos da Rússia e do papel que os hidrocarbonetos desempenhavam na economia russa. Embora os especialistas ocidentais continuassem a explorar o mito da Rússia depender apenas das receitas das vendas de petróleo e gás natural, a realidade era dramaticamente diferente.

Conforme observado no Relatório Operativo da Câmara de Contabilidade Russa em Agosto de 2020, as receitas orçamentais da Rússia no primeiro semestre de 2020 com as vendas de hidrocarbonetos representaram menos de um terço (29,3%) do total das receitas orçamentais e caíram 13% em comparação com o mesmo período do ano de 2019. Evidentemente, a Rússia tinha, de alguma forma para observadores incultos, 70,7% das receitas, além das receitas de hidrocarbonetos para manter sua economia a funcionar. A Rússia superou, uma vez mais, as expectativas dos especialistas e "analistas" ocidentais e, em vez de entrar em colapso devido à deterioração da sua situação política e económica interna, prosseguiu com um desenvolvimento industrial acelerado. Foi a versão de Obama de uma economia russa "deixada em farrapos" outra vez.

Nesta primeira fase somos forçados a questionar a competência das elites americanas cujo registo de fracassos absolutos em prever qualquer coisa, mesmo dentro do seu campo de jogo, continua a crescer exponencialmente, não apenas em questões de previsão e compreensão de nações estrangeiras, das quais as elites dos Estados Unidos sempre souberam muito pouco, ou nada. A questão que se coloca cada vez mais é se essas elites e esses decisores políticos têm a mínima noção do que é o seu país. Só se poderia explicar a falta de reação interna da Rússia ao alegado agravamento da sua própria situação pela "propaganda de Putin" apenas por tanto tempo quanto essa "explicação" se tornasse obsoleta e cansativa e, portanto, totalmente ineficaz.

A questão é como é que a economia realmente funciona na Rússia, ou no Irão, ou na China ou em qualquer outro lugar – uma lição que os excepcionalistas americanos e evangélicos de um "mercado livre" decididamente não queriam aprender por razões ideológicas e políticas ou, como a terrível conclusão em si inevitavelmente garante, foram e são simplesmente incapazes de aprender. A crise do petróleo deu a resposta – foi a mais recente e não a primeira vez, e tem implicações geopolíticas massivas.


A pandemia do COVID-19 e a resposta grosseira, possivelmente deliberada e desproporcional, que lhe foi dada nos EUA e na Europa foram o gatilho para o colapso económico e, com ele, para a mais grave crise do petróleo da história. Mas tanto a economia global como, consequentemente, a procura por petróleo estavam já a diminuir muito antes do início da pandemia. O problema era sistémico e o colapso era inevitável, com ou sem pandemia. Ainda não se sabe quanta intenção maliciosa esteve por detrás das decisões tomadas, mas no esquema geral das coisas, a crise provou que os hidrocarbonetos em geral e o petróleo em particular não vão, tão cedo, a lugar nenhum como principal motor da economia global. O relatório de setembro de 2020 da Administração de Informação de Energia dos EUA foi lido como um veredicto para os adeptos da utopia da energia "verde":

Os combustíveis fósseis, ou fontes de energia formadas na crosta terrestre a partir de matéria orgânica em decomposição, incluindo petróleo, gás natural e carvão, continuam a ser responsáveis pela maior parte da produção e do consumo de energia nos Estados Unidos. Em 2019, 80% da produção interna de energia proveio de combustíveis fósseis e 80% do consumo interno de energia teve origem em combustíveis fósseis.
Desnecessário será dizer que dos restantes 20% relativos à produção e consumo de energia não fóssil, as renováveis, constituíram uma parcela pouco maior do que a nuclear. Entre essas energias renováveis, a energia hidroelétrica tradicional e a biomassa ultrapassaram, em mais de duas vezes, a produção de energia de referência para os ambientalistas, a solar e eólica, reduzindo a participação de fontes politicamente importantes, mas economicamente e tecnologicamente questionáveis, para pouco menos de 4% do total da produção de energia da América.

As tendências de energia foram impiedosamente alheias à agenda política da energia "verde" e, realisticamente, deixaram muito poucas opções para o crescimento do movimento "verde" dos Estados Unidos — um movimento ideológico apoiado principalmente pelo Partido Democrata —, se este alguma vez tivesse a pretensão de ter um programa económico realista baseado em tecnologias reais, exequíveis e economicamente viáveis sem destruir os alicerces da civilização moderna, totalmente dependente de energia. Para os Estados Unidos, cujo "romance" com o petróleo de xisto e o status de exportador líquido de energia foi bastante breve em termos históricos, a maior prova da completa loucura económica induzida pela ideologia do combate às alterações climáticas poderia facilmente ser encontrada na Europa.

A questão das alterações climáticas deixou há muito de ser científica para transformar-se numa cruzada moral erradamente atribuída, nos Estados Unidos, à "esquerda" ou, de forma mais geral, aos "liberais". O clima, é certo, altera-se, mas o cerne do problema é porque é que ele se altera. Uma geração inteira de pessoas no Ocidente cresceu acreditando que as alterações climáticas são antropogênicas, isto é, causadas pelos humanos. Esta visão domina o campo das alterações climática ocidental e está a servir de nova cobertura de distração de um movimento de décadas contra a poluição, muito real e, de facto, antropogênica, do meio ambiente. Um dos exemplos mais reveladores é a própria indústria do petróleo de xisto, em que os EUA mergulharam a todo vapor, extraído pela fraturação hidráulica, que leva ao envenenamento das fontes de água potável e cria grandes cavidades subterrâneas que ameaçam as infraestruturas e propriedades à superfície com terramotos. No fim, existem outros perigos para a saúde relacionados com este método de extração, ou mesmo com métodos de extração tradicionais. No entanto, não há a menor evidência, exceto em modelos inconfiáveis, de que seja a atividade humana a provocar alterações climáticas.

Vladimir Putin, enquanto presidente da Rússia, não é, certamente, um cientista do clima, mas é seguramente aconselhado por um dos melhores cientistas do clima e do meio ambiente do mundo, e a sua posição é conhecida: as alterações climáticas não são provocadas pelos humanos. Mas para o Ocidente em geral, e os Estados Unidos em particular, onde as opiniões de celebridades sem instrução, de uma estudante semianalfabeta da Suécia ou de pessoas com formação em jornalismo, um eufemismo para um diploma em línguas, constituem uma fonte credível de informação, qualquer contra-argumento verdadeiramente científico não é motivo para contemplação. Mas o destino da Alemanha e o seu suicídio energético ao sacrificar a sua outrora poderosa economia industrial no altar da ignorância e da incompetência em busca de uma quimérica energia "verde" deveriam servir como um aviso para todos.

Uma das estatísticas mais surpreendentes para a Alemanha é o facto de a economia alemã se encontrar em estado de paralisia ou declínio desde há anos. Já em agosto de 2019, a economia alemã estava, segundo um observador, a soluçar durante vários meses consecutivos, enquanto os seus níveis de manufatura caíam para o valor mais baixo em seis anos.

Em agosto de 2020, um ano depois, a economia da Alemanha estava numa queda livre. A relação entre energia e declínio económico da Alemanha pode não ser imediatamente evidente para muitos, mas é uma conexão é direta, pois os produtos da Alemanha são extremamente dependentes de energia, e a energia, ou melhor, o seu preço, é o principal fator de custos, tornando os produtos da Alemanha, desde carros a produtos de consumo, menos competitivos do que, por exemplo, os produtos chineses, que têm menores custos laborais e, mais importante, custos de energia mais baixos. Como a Forbes noticiou em setembro de 2019:

Um novo relatório da gigante da consultoria McKinsey concluiu que a Energiewende alemã, ou transição energética para energias renováveis, representa uma ameaça significativa para a economia e para o abastecimento de energia do país. Um dos maiores jornais da Alemanha, Die Welt, resumiu as descobertas do relatório da McKinsey numa única palavra: "desastroso". ... A McKinsey lança o seu aviso mais forte relativamente ao cada vez mais inseguro fornecimento de energia na Alemanha, devido à sua forte dependência em relação à energia intermitente de origem solar ou eólica. Durante três dias, em junho de 2019, a rede elétrica esteve muito perto de sofrer "apagões".
Para qualquer pessoa que já fez escalas nos aeroportos da Alemanha, como Frankfurt, durante ondas de calor que não são incomuns na Alemanha ou na Europa nos meses de verão, a sensação predominante é o desconforto total com o calor. Os ares condicionados simplesmente não são permitidos. O contraste da transição entre um avião fresco e confortável e o próprio aeroporto num clima assim pode ser chocante. O conforto humano e, às vezes, até a saúde para quem tem problemas cardíacos e outras doenças, ocupa um distante segundo lugar na Alemanha em relação às "preocupações ambientais", dado que os aparelhos de ar condicionado supostamente prejudicam o meio ambiente. Isto dá uma melhor imagem do que admitir o fator dos custos. Em Dezembro de 2019, o custo de US$0,38 por kiloWatt-hora (kWh) de eletricidade para um orçamento médio de uma família alemã era o segundo mais alto do mundo, depois das Bermudas. Em termos comparativos, o mesmo kWh nos Estados Unidos custa US$0,14 e na Rússia US$0,06. Para empresas, o preço do kWh na Alemanha era de US$0,23 – o mais alto entre os países desenvolvidos, com os Estados Unidos em US$0,11. A Rússia estava em US$0,08; A China estava em US$0,10. A conclusão, portanto, é inevitável. Dado que a Alemanha tem os custos de energia mais altos do mundo para uma economia industrial desenvolvida, as perspectivas de sobrevivência da Alemanha como uma economia totalmente independente, avançada e competitiva parecem cada vez mais escassas, uma vez que se considera não apenas a política energética da Alemanha, mas a da União Europeia como um todo, o que entre os profissionais competentes da indústria e da energia cria uma sensação de perplexidade.

Mas perplexos não devem ficar. A abordagem, ou melhor, a loucura da Alemanha no seu compromisso com uma falsa premissa de "salvar um planeta" é bastante simples:

Pergunte a praticamente qualquer economista e ele vai dizer a mesma coisa: se quiser salvar o planeta de alterações climáticas descontroladas, terá que tornar a energia cara. "A teoria económica contém uma verdade fundamental sobre a política das alterações climáticas", escreveu em 2008 o economista da Universidade de Yale William Nordhaus, que ganhou o Prémio Nobel de 2018 pelo seu trabalho. "Para qualquer política ser eficaz na solução do aquecimento global, deverá aumentar o preço de mercado do carbono, o que aumentará os preços de mercado dos combustíveis fósseis e derivados". Várias políticas podem ser usadas para tornar a eletricidade mais cara. Por exemplo, pode tributar as emissões de carbono ou estabelecer regulamentos de poluição do ar. No entanto, a forma mais popular de tornar a energia cara é fazer o que a Alemanha fez, ou seja, subsidiar as energias solar e eólica por meio de uma sobretaxa (ou imposto) sobre a eletricidade. Mas tais esforços levantam a questão: por que é necessário aumentar o preço da eletricidade para reduzir as emissões? A França gera menos de um décimo das emissões de carbono da Alemanha por quase metade do custo.

A resposta a esta pergunta é bastante simples. A França produz mais de 72% da sua eletricidade em centrais nucleares – um absoluto tabu na Alemanha que, por vontade própria, abandonou a sua indústria de energia nuclear avançada em 2000 como resultado de políticas promovidas pelos "Verdes" alemães, vocais e influentes, e depois de a pressão pública ter aumentado após a catástrofe da central nuclear de Fukushima. Hoje estas políticas começam a virar-se contra os próprios e, mesmo a França, que lidera o mundo na parcela da eletricidade produzida em centrais nucleares, não pode abalar as metas utópicas da UE de se tornar "neutra em carbono" até 2050. Essas metas tornaram-se lei tanto na Alemanha como em França em 2019. No papel, as metas parecem boas e, além disso, a energia nuclear é uma grande promessa, como um trampolim para novas fontes de energia de não hidrocarbonetos, mas apenas sob uma condição – que essas novas fontes de energia sejam capazes de sustentar a pedra basilar da civilização moderna avançada – a rede elétrica. Nem a energia solar nem a energia eólica – idolatradas por gerações de adoradores da Greta Thunberg, a maioria dos quais nunca trabalhou um dia na economia produtiva real – são capazes de manter as tensões e frequências necessárias para a sobrevivência e estabilidade da rede elétrica. A questão do armazenamento da energia, indispensável para a manutenção de uma rede, também não está resolvida.

Ainda assim, isto não impede que os ambientalistas europeus e americanos, cada vez mais radicalizados, promovam uma agenda que mina os próprios alicerces da civilização moderna, como os eventos dos últimos anos o demonstraram claramente. Notavelmente, na Europa as pessoas que estão por trás das ideias ambientalistas mais radicais são aquelas não têm absolutamente nenhuns antecedentes na indústria da energia ou de qualquer indústria real. Em 2017 ministério francês da Ecologia ou, utilizando o seu título completo, ministro para Transição Ecológica, ou como também era conhecido então, ministro da Transição Ecológica e de Solidariedade, era encabeçado por Nicolas Hulot. Hulot é uma figura notável no movimento ambiental europeu uma vez que toda espécie de atraentes registos políticos e ideológicos constam no seu curriculum, tais como o de serem jornalista e ativista ecológico, mas não há registo com antecedentes de ciências naturais ou de engenharia, os quais podem ser encarados como exigíveis para dirigir aquele ministério num país como a França. Não surpreendentemente, Hulot era a favor da eliminação progressiva da energia nuclear.

A personalidade de Hulot e a falta de quaisquer qualificações sérias para administrar as questões tecnológicas extremamente complexas da economia e da tecnologia em relação à ecologia e ao seu relacionamento com as necessidades técnicas de infraestrutura é instrutiva, mas de modo algum única na Europa. No seu Discursos sobre o Estado da União Europeia, Ursula von der Leyen, avançou com a ecologia, colocando-a em primeiro lugar no seu discurso e propondo restrições ainda mais severas na utilização de hidrocarbonetos. Leyen, que é ginecologista e especialista em cuidados infantis por educação e burocrata política por vocação, é conhecida basicamente pela sua gestão desastrosa do Ministério da Defesa da Alemanha. No mundo ocidental, onde as qualidades profissionais e humanas têm sido sacrificadas no altar da correção política, aparecimentos nos media e corrupção de facto nos escalões políticos de topo, a sobrevivência e mesmo a expansão de leis económicas pseudocientíficas e de ideologias que desafiam o senso comum, tais como ambientalismo radical, são não só previsíveis como inevitáveis. As coisas ficarão muito pior na Europa e eles poderão nunca se recuperar.

Contudo, os Estados Unidos não estão em posição de se regozijar. A meritocracia nos EUA está morta e mais provavelmente nunca retornará, como os acontecimentos dos últimos anos têm demonstrado tão manifestamente. No entanto, os Estados Unidos, pelo menos por agora, têm uma vantagem crucial sobre a Europa, que será comida tanto a partir de dentro quanto de fora pelos Estados Unidos – se os EUA sobreviverem como uma nação unificada. Na eventualidade de a América ter êxito na sabotagem do gasoduto Nord Stream 2, que vai da Rússia à Alemanha, os Estados Unidos poderão ainda forçar a Europa a abandonar o que representa o último reduto da luta perdida da Europa contra a insuficiência energética e a insolvência económica, grosseiramente agravada pelo seu fundamentalismo ambiental. Isto poderá tornar-se o maior triunfo geoeconômico dos Estados Unidos, mesmo que de curta duração, já que permitirá aos EUA matarem dois coelhos de uma só cajadada: forçar a Europa a comprar os seus hidrocarbonetos muito mais caros, incluindo Gás Natural Liquefeito (GNL), portanto afundando em simultâneo a competitividade dos produtos europeus, os quais já mal se mantêm à tona, e dando um impulso a quaisquer outros produtos de fabricação americana que possam estar disponíveis para exportação para a Europa, além de energia e armas.

Este é o jogo de hoje e o destino da Europa é preocupação secundária, senão terciária, para os Estados Unidos os quais, muito naturalmente, farão tudo o que puderem para sobreviver. Se for às custas dos europeus, que seja. Todos os meios de sabotar as tentativas europeias de obter energia acessível já estão a ser empregados, desde operações de bandeira falsa (exemplo, o "envenenamento" do líder da "oposição" da Rússia, Alexey Navalny, com um possível envolvimento dos serviços especiais britânicos), campanhas crescentes de chantagem e subversão daquelas poucas pessoas remanescentes na política europeia que não sucumbiram a uma lavagem cerebral ideológica e ao vício, a sessões de "dois minutos de ódio" quanto ao senso tecnológico e económico, que grassa na Europa a uma velocidade espantosa. Os russos previram esses desenvolvimentos. Após as declarações transparentemente falsas da Alemanha sobre o "envenenamento" de Navalny, o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov, dirigindo-se à UE em geral e à Alemanha em particular, no que para a diplomacia russa eram termos inusitadamente severos, esclareceu as intenções da Rússia como se segue:

(…) Por outras palavras, preparar-nos-emos para todas e quaisquer eventualidades, se a UE mantiver as suas posições negativas e destrutivas, para sermos independentes dos seus caprichos e para que possamos assegurar o nosso próprio desenvolvimento autónomo, bem como em parceria com aqueles que estão dispostos a cooperar em igualdade de condições e respeito mútuo. (…)

A declaração de Lavrov significou um ultimato do Kremlin à Alemanha – para decidir o que a Alemanha realmente queria, um abastecimento de energia confiável que daria à sua economia uma possibilidade de lutar, ou finalmente sucumbir completamente às exigências americanas e formalizar irrevogavelmente a sua vassalagem, a qual, no final, tornaria a Alemanha uma nação do terceiro mundo com indústrias obsoletas e insolventes que cairão vítimas da concorrência chinesa, americana e até russa. Afinal, não é responsabilidade da Rússia sacrificar os seus interesses pela Alemanha. Não obstante, um breve olhar sobre a elite do poder político da UE e a sua incompetência e covardia deixa poucas dúvidas de que os dias da UE estão contados. Algumas pessoas nos Estados Unidos entendem o que se passa e trabalham incansavelmente para esse fim, apesar do facto de que a incompetência e a má-fé das elites americanas às vezes superam todas as expectativas razoáveis.

A mensagem da Rússia, no entanto, continha um ponto muito sério e quase explicitamente declarado. Enquanto os Estados Unidos se esforçavam para sabotar o Nord Stream 2 , a realidade geoeconômica e geopolítica mantém-se inalterável. Como um dos mais respeitados e perspicazes analistas geopolíticos da Rússia, Rostislav Ishenko, observou: "Para a Rússia, o encerramento do projeto Nord Stream 2 é meramente desagradável, mas para a Alemanha – é uma catástrofe". Mesmo a conhecida paciência russa tem seus limites, mas ao contrário da UE e também dos Estados Unidos, a Rússia tem o luxo da energia e do tempo, os seus graus de liberdade são muito maiores.

Ironicamente, na base de tudo isto estão os enormes recursos naturais da Rússia, especialmente energia, que têm sido usados para tirar o país do sulco da economia neoliberal e de ideologias radicais suicidas.


Engenheiro, analista militar e geopolítico.   Este ensaio é o capítulo 4 de Disintegration – Indicators of the Coming American Collapse , o seu livro mais recente (foram omitidas as 44 notas de rodapé deste capítulo).   Os dois livros anteriores desta trilogia foram The (Real) Revolution in Military Affairs e Losing Military Supremacy: The Myopia of American Strategic Planning

Este ensaio encontra-se em https://resistir.info/

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