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Os poderes e a sociedade integrada

28 Junho Escrito por  Pedro Pinho Lido 305 vezes

Pedropinho100O século XXI aguçou contradições da sociedade humana

e, provavelmente, exigirão revoluções, como as ocorridas nos séculos XVII e XVIII, para acomodar, por mais cem ou duzentos anos, a convivência no planeta.

O fim da história, com a queda do muro de Berlim e o desmembramento da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), durou menos de uma década. E trouxe à cena, ao primeiro plano, personagens que nenhum protagonista da política internacional aceita reconhecer: os capitais marginais, como designo o dinheiro originado das drogas, dos tráficos internacionais de pessoas e órgãos humanos, dos contrabandos de armas e outros maléficos produtos que, desde as desregulações dos anos 1980, transitam legalmente pelos fluxos financeiros internacionais.
O momento do capital monetário

Este momento que vivemos é o dos capitais monetários, da especulação, dos cash, em detrimento das dívidas e, de modo algum, das fabricações e dos produtos. É o espaço magnífico para os ilícitos. Expandem-se, desabrocham, e aumentam grandemente os subornos, as ameaças, as intimidações, e a corrupção.
Passam a valer novos padrões legais, condizentes com a anormalidade do poder que nada produz, que se satisfaz na contínua e irracional concentração de riqueza, como fosse um moto contínuo. E os identificamos como fake news, criando realidades (sic), lawfares, para perseguir quem seja declarado inimigo, e os legalfacts, bulas, instruções de embalagens, placas de rua transformadas em normas jurídicas.

E, se o caro leitor ainda justifica as invasões armadas do poder monetário, para depor o dirigente do Iraque, deixando o país em conflito permanente, ou para destruir a Líbia, país que teve o maior índice de desenvolvimento humano da África e que retorna ao tribalismo após esta agressão financista, ou à Síria, empobrecendo a nação e o povo, por muitos anos ricos, ao menos se vê diante do exemplo da colonização cultural, ao usar, para a área jurídica, apenas expressões em inglês, como no parágrafo anterior. Não mais o latim, dos clássicos, da nossa tradição ocidental (opa! e não era o que dizíamos defender?!).
Inventar a história

Claro que a civilização dos capitais financeiros precisa inventar sua história, um passado que dê dignidade aos cafetões, justificativa para os ladrões, e perdão aos criminosos que a administram, e, também, explique e defenda a perseguição (corrupto, pelego, comunista, terrorista) daqueles que questionam suas ordens, a veracidade dos imaginados ou construídos fundamentos desse poder apátrida e suas ações.

O percuciente e culto historiador António Manuel Hespanha (1945-2019) escreveu: "os acontecimentos históricos são criados pelo trabalho do historiador, o qual seleciona a perspectiva, constrói objetos que não têm uma existência empírica (como curvas de natalidade, tradições literárias, sensibilidades ou mentalidades) ou cria esquemas mentais para organizar os eventos, como quando usa os conceitos de "causalidade", de "genealogia", de "influência", de "efeito de retorno" ("feedback", opa! só dá anglicismo). A única verificação possível é a sequência cronológica, entre os acontecimentos" (António M. Hespanha, Cultura Jurídica Europeia, síntese de um milênio, Almedina, Coimbra, reimpressão 2015).

E não faltam denúncias e comprovações de que os capitais dos Stuart ingleses, dos Orange neerlandeses, dos judeus Rothschild, se misturam, nos gestores de ativos, com os do falecido colombiano Escobar Gaviria, com os do indiano Anurag Dikshit e sua sócia californiana Ruth Parasol, e das dezenas de criminosos citados por Loretta Napoleoni (Economia Bandida, original de 2008, tradução de Pedro Jorgensen Jr. para DIFEL - Editora Bertrand Brasil, RJ, 2010) e por John Perkins (A História Secreta do Império Americano, original de 2007, tradução de Marta Rosas para Editora Pensamento-Cultrix, SP, 2008).
Primeira derrocada das finanças

Na primeira derrocada das finanças, após a I Grande Guerra (1914-1918) e a Revolução Russa de 1917, o historiador visconde Georges d'Avenel (1855-1939) enunciava que somente quem tinha muito dinheiro (assez grand nombre de chiffres) podia competir com as altas de preço (Georges d'Avenel, Histoire de la Fortune Française, La fortune privée à travers sept siècles, Payot, Paris, 1927). E premonizava o Visconde que as gerações futuras "verão novamente grandes aventuras do dinheiro".

O que vemos hoje é o acirramento de decálogo que se convencionou chamar "Consenso de Washington" (1989). Na descrição do Wikipédia: consolida o receituário de caráter neoliberal - na onda mundial que teve sua origem no Chile de Pinochet, sob orientação dos Chicago Boys, que seria depois seguida por Thatcher, na Inglaterra (thatcherismo) e pela economia do lado da oferta (supply-side economics) de Ronald Reagan (reaganismo), nos EUA.

Pudera não é mesmo caro leitor, um sistema que tem origem num corrupto assassino, o general Pinochet, assessorado por estrangeiros (os garotos de Chicago), mais interessados em ganhar fama e dinheiro do que elevar o nível de vida de uns poucos sul-americanos, só poderia cair nas mãos dos capitais verdadeiramente obtidos por atos ilícitos, residentes em paraísos fiscais.

Modificar esta situação dolorosa e mortal vai exigir muito desprendimento, muita luta e desapego. Vai demandar também criatividade e coragem para mudar.

O modelo de Estado Nacional de três poderes não pode subsistir, pois todo poder efetivo, real, é uno e indivisível, ou então não é poder. Também uma democracia a que se visita periodicamente para votar em quem não se conhece, a quem não tem nem terá acesso, e que não poderá destituir, não é governo do povo nem para o povo, como estamos fartos de constatar. Elegemos um representante dos dinheiros, de quem deve ter muito, como dizia o Visconde francês há quase um século, para comprar mídias e consciências.

A democracia exige participação direta, o povo se manifestando sobre o que conhece de perto, com as pessoas que vão lhe atender e dar soluções. É nos Conselhos, inúmeros, distribuídos pelas estruturas do Estado, em todos os níveis de governo, que se encontrará a democracia.
Sociedade desintegrada

A sociedade desintegrada se defende com a participação permanente e não de quatro em quatro anos. Numa estrutura de Estado onde a responsabilidade de todos, de cada um dos agentes, está evidente, às claras, não pode ser dissimulada, mascarada. E comprada ou fraudada logo se destampa, se expõe, se revela.

Nova organização para o poder popular, de todos, não dos marginais e criminosos capitais financeiros.

Pedro Augusto Pinho, administrador aposentado.

Original: https://port.pravda.ru/sociedade/cultura/25-06-2021/53035-sociedade_integrada-0/

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