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Trump recorre aos charlatães econômicos

14 Agosto Escrito por  Paul Krugman Lido 508 vezes

face-homem Corte nos impostos sobre salários é a hidroxicloroquina da política econômica

Enquanto a economia dos Estados Unidos derrapa a caminho do desastre, as negociações no Congresso sobre o que fazer parecem ter se paralisado. Por isso, no sábado (8), o presidente Donald Trump –falando em um de seus clubes de golfe, é claro– anunciou quatro medidas executivas que, segundo ele, resgatariam a recuperação. Infelizmente, uma das medidas era fútil, uma trivial e uma impraticável. E a quarta pode causar danos substanciais.

A medida fútil simplesmente apela que as agências do governo "considerem" ajudar inquilinos que estejam diante da possibilidade de despejo. A medida trivial dispensa o pagamento de juros e posterga o pagamento do principal dos empréstimos educacionais. A medida impraticável supostamente oferece assistência renovada aos desempregados que perderam os benefícios de que vinham desfrutando na pandemia porque os republicanos do Senado não querem fornecê-los, mas o programa anunciado seria um pesadelo administrativo que poderia demorar tempo demais a ser colocado em vigor e requereria que os estados, desprovidos de caixa, oferecessem fundos casados para cobrir parcialmente o custo, um dinheiro de que os governos estaduais não dispõem. Lembre-se: os estados tiveram muita dificuldade para implementar a primeira rodada de medidas de assistência aos desempregados, o que deixou milhões de pessoas descobertas por diversas semanas. A coisa seria ainda pior agora.

Mas a medida realmente substantiva instruiria os empregadores a deixar de recolher impostos e contribuições na fonte sobre os salários de seus trabalhadores.

É uma ideia bastante insensata, do ponto de vista legal e constitucional. Presidentes podem decretar a suspensão do recolhimento de impostos devidamente legislados sempre que quiserem? Mas deixe de lado as considerações legais, por um instante, e pergunte: a que isso serve? Quem acredita que uma redução nos impostos recolhidos sobre os salários, mesmo que ela seja aprovada de maneira legal, resolveria qualquer dos problemas que enfrentamos?

Nenhum economista respeitável que eu conheça considera o corte desses impostos como uma boa ideia. Mesmo que o dinheiro fosse destinado aos trabalhadores, o que quase certamente não aconteceria, ele seria destinado ao grupo errado deles –os trabalhadores que não perderam seus empregos na pandemia, em lugar daqueles que o perderam. Isso não encorajaria contratações, porque o que vem dissuadindo os empregadores não é o custo, mas a paralisação das atividades que acarretem risco elevado de contágio (como por exemplo servir refeições em ambientes fechados).

É claro que há ideias econômicas ruins –por exemplo cortes de impostos gigantescos para os ricos– que têm forte apoio político mesmo assim. Mas o corte dos impostos e contribuições salariais não é uma delas. Mesmo os republicamos do Senado repudiaram a ideia, descartando-a de sua proposta.

Mas lá está ela, aparentemente como peça central do novo plano de Trump. O que está acontecendo?

A resposta é que um corte nos impostos sobre salários é a hidroxicloroquina da política econômica. Um remédio fajuto que de alguma maneira atraiu a atenção de Trump, que não desiste da proposta porque os sicofantas continuam a dizer que ele é infalível. Pode ser que existam motivos ulteriores –a medida poderia servir para solapar as finanças da Previdência Social ou do programa Medicare– mas isso tudo é secundário. Basicamente, a proposta é só mais um chilique de um presidente cujo temperamento o torna incapaz de admitir seus erros.

Não sei ao certo quem convenceu Trump inicialmente quanto a essa má ideia. O defensor mais incansável da proposta é Stephen Moore, que tem um histórico de prever milagres trazidos por cortes de impostos –vocês se recordam de que o estado do Kansa seria uma das maravilhas do mundo?– ainda que estas previsões jamais se confirmem. Poucos dias atrás, Moore argumentou publicamente que Trump tinha o poder de reduzir impostos sem autorização do Congresso; e assim chegamos aqui.

Quero deixar claro que Trump não está de fato cortando os impostos sobre os salários, o que exigiria aprovação legislativa. Ele está simplesmente adiando o recolhimento; os assalariados ainda continuarão devendo esses impostos, usualmente recolhidos na fonte, dentro de alguns meses. E sabendo disso, muitos se não a maioria dos empregadores não vão querer aumentar os pagamentos de salários; eles simplesmente recolherão o dinheiro e o deixarão depositado em benefício dos trabalhadores para pagamento futuro dos impostos. Para a maioria dos trabalhadores, essa coisa toda pode não ter efeito prático algum.

Mas pode ser, pode até ser, que Trump dê um jeito de vencer em novembro e de cancelar esse passivo fiscal retroativamente. Caso o faça, isso criaria um grande rombo nas finanças da Previdência Social e do Medicare, programas que, não importa o que o presidente diga, ele sempre desejou eliminar.

O ponto principal, no entanto, é que estamos diante de um momento de crise. As medidas de emergência que sustentaram a economia dos Estados Unidos ao longo da crise do coronavírus expiraram mesmo que a pandemia ainda continue conosco. A menos que alguma coisa seja feita, e rápido, o consumo está a ponto de despencar, e a derrubará toda a economia quando isso acontecer.

Não era difícil prever que isso aconteceria. Os democratas aprovaram projetos de lei para lidar com essa situação quase três meses atrás. Mas os republicamos do Senado optaram por nada fazer, e ainda não estão encarando com seriedade a proposição de soluções.

O momento seria muito propício para liderança presidencial real. Mas o que temos em lugar disso é um falastrão que alardeia curas miraculosas em seu clube de campo. No processo, ele bem pode ter solapado qualquer modesta chance que existia de chegarmos a um acordo mesmo que moderadamente decente com o objetivo de evitar um desastre. Como eu disse acima, não acredito que haja um jogo mais profundo em curso, aqui.

Sim, as intenções de Trump são ruins. Mas recentes entrevistas e informações de fontes próximas deixam bastante claro que ele está completamente desnorteado, e não compreende nem a realidade epidemiológica e nem a realidade econômica que enfrentamos.

Em momento de crise, os Estados Unidos foram amaldiçoados com um presidente incompetente, profundamente ignorante e ao mesmo tempo tão inseguro, em termos pessoais, que se sente compelido a ter ao seu redor apenas pessoas que lhe digam que ele é um gênio universal.

The New York Times, tradução de Paulo Migliacci

Fonte: Folha de São Paulo

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