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A responsabilidade dos generais de Bolsonaro na tragédia brasileira

27 Maio Escrito por  Luís Nassif Lido 990 vezes

luis nassifUma ampla reportagem da Reuters internacional se constitui no principal documento,

até agora, para explicar o rotundo fracasso do país no combate ao Covid-19 e às suas consequências econômicas.

A reportagem diz que, no começo da pandemia, havia determinação no Ministério da Saúde. No dia 13 de março, determinou que cruzeiros fossem cancelados, aconselhou autoridades locais e descartarem eventos de grande escala, e instou os viajantes, de volta ao Brasil, a ficarem isolados por uma semana. Antes que o país relatasse a primeira morte por Covid-19, parecia que o país sairia na frente. Os comunicado foram apenas dois dias após a Organização Mundial da Saúde chamar a doença de pandemia.

Menos de 24 horas depois, o Ministério recuou, alegando críticas e sugestões recebidas. Na verdade, a mudança foi decorrente  da intervenção direta do chefe de gabinete da Presidência.

Ali se deu a virada, do Ministério da Saúde para o general Walter Souza Braga Neto, Ministro-Chefe da Casa Civil. A partir dali, os militares do governo Bolsonaro passaram a comandar e a se tornar responsáveis pelos resultados e fracassos do combate ao Covid-19, que levou o Brasil ao segundo pior surto do mundo, atrás dos Estados Unidos, com mais de 374 mil casos confirmados e 23 mil mortes. E tudo isso em um país que se tornou um case mundial na luta contra a malária, zika e HIV.

Segundo a reportagem, quando o primeiro caso foi confirmado, em 26 de fevereiro, o Ministério da Saúde estava em andamento havia quase dois meses. Mas dois fatores implodiram as políticas públicas.

O primeiro, o boicote de Bolsonaro às medidas de confinamento. O segundo, a incapacidade do governo em aumentar os testes rapidamente.

A tentativa de convencer Bolsonaro a ampliar o isolamento esbarraram em sua convicção de que a pandemia passaria em breve e havia exagero nos alertas sobre ela.

Ao mesmo tempo, a área econômica agiu de forma bastante lenta. Em live, em meados de março, o Ministro da Economia Paulo Guedes chegou à afirmar à CNN Brasil que a economia poderia crescer 2% a 2,5% com a queda da economia global. Em poucas semanas, as projeções viraram pó. Em 15 de maio, o Barclays corou sua previsão de queda de 7,7% no Produto Interno Bruto, pela maneira “ineficaz” do Brasil lidar com a pandemia.

A reportagem cita declarações de Solange Vieira, antiga funcionária pública responsável pela introdução do fator previdenciário, no governo FHC e titulada Superintendência de Seguros Privados. Quando o Ministério da Saúde comentou os riscos de mortes em idosos, sua reação foi chocante: “ É bom que as mortes se concentrem em idosos, porque reduzirá nosso déficit previdenciário”.

No dia 13 de março, o Ministério da Saúde mudou sua orientação por pressão do general Braga Neto. A partir daí,  o país perdeu dois Ministros da Saúde. Dois dias depois, Bolsonaro se misturou a manifestantes, em frente o Palácio, estimulando as aglomerações.

No dia 16 de março criou o chamado “gabinete da crise” liderado por Braga Neto.  Logo depois, o Diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis, Júlio Croda, pediu demissão para não ser responsabilizado “por mortes excessivas”.

Ao final desse pandemônio, a Saúde estava entregue a um outro general, Eduardo Pazuello, sem nenhuma experiência na área de saúde. Pelo menos 13 militares foram nomeados para cargos da Saúde.

Segundo Wildo Araujo, um ex-funcionário do Ministério da Saúde que foi co-autor de um dos primeiros grandes estudos do COVID-19 do país, “eu tenho o maior respeito pelas forças armadas, mas tenho pena dos que estão entrando agora porque não têm ideia do que fazer. Eles não sabem como lidar com o sistema público de saúde brasileiro”.

O grande fracasso na aplicação dos testes deveu-se à falta de planejamento do Ministério da Saúde. Em vez de montar uma rede de laboratórios para ir atrás e testes pelo mundo, concentrou tudo em apenas um laboratório, a Fiocruz, combalida por anos de cortes no orçamento. Mesmo assim, a Fiocruz conseguiu entregar 1,3 milhão de testes na última semana de abril e espera entrega mais 11,7 milhões até setembro.

De qualquer modo, em 12 de maio, o Brasil havia processado apenas 482.743 testes. Dos 10 países com maior número de mortes por Covid-19, apenas a Holanda havia testado menos pessoas que o Brasil, tendo um décimo da população brasileira.

Fonte: GGN

Última modificação em Quarta, 27 Maio 2020 10:42
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