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A recolonização programada do Brasil

Data: 01/06/1999 
No coração da crise, a pilhagem A recolonização programada do Brasil

O assalto ao real em janeiro de 1999 foi o resultado de uma cuidadosa divisão de papéis entre o FMI e os "investidores" (também conhecidos como especuladores), aos quais o Fundo permitiu dar os retoques finais para o saque das reservas de moeda forte brasileiras. Agora, com os ativos públicos à venda a preços de liquidação, o capital estrangeiro pode chegar e arrematar tudo. Entretanto, há uma brava resistência da parte de todos os setores da sociedade – capaz de perturbar estes planos bem estruturados.
Por Michel Chossudovsky*

Sucumbindo a um último assalto especulativo, a Bolsa de São Paulo despencou no dia 13 de janeiro último, no que ficou conhecido no Brasil como a "quarta-feira negra". As caixas-fortes do Banco Central foram arrombadas. Isto encerrou a fase em que o real se arrastou atrás do dólar. O presidente do Banco Central, Gustavo Franco, foi substituído por um professor de economia – Francisco Lopes – que foi imediatamente enviado a Washington, junto com o ministro da fazenda, o irremovível Pedro Malan, para as "consultas" de alto nível ao Fundo Monetário Internacional e ao Departamento do Tesouro dos EUA.
As negociações que ocorreram durante o fim de semana constituíram-se apenas em um ensaio para a reunião matinal, ocorrida alguns dias mais tarde na sede da Reserva Federal em Nova York com os credores do Brasil. Entre os convidados a este almoço a portas fechadas estavam George Soros, patrono do fundo especulativo Quantum; William Rhodes, vice-presidente do Citicorp; Jon Corzine, do Banco Goldman Sachs e David Komansky, da Merrill Lynch (1). Uma reunião das mais cruciais da qual um dos convivas, o Sr. Rhodes, já foi um freqüentador habitual: ele já foi presidente do Club de New York, um comitê de banqueiros que representa 750 instituições financeiras de crédito e foi ele que negociou com o Sr. Fernando Henrique Cardoso, à época em que este era apenas ministro da fazenda (1993-94), a reestruturação da dívida externa e o lançamento do Plano Real (2). Um plano que resultou na explosão da dívida interna do país que passou de 60 bilhões de dólares em 1994 para 350 bilhões em 1998.
Durante esse tempo, para condicionar a opinião pública, foi sempre relembrada a ameaça de um eventual contágio da "gripe asiática". Os porta-vozes da comunidade financeira internacional apontaram, sem qualquer análise, o responsável por todo o mal: o recém-eleito governador do estado de Minas Gerais, Itamar Franco, ex-presidente da república, que havia declarado uma moratória de noventa dias, em relação aos pagamentos da dívida estadual com o governo federal (3). A ameaça de falta de pagamentos da dívida de alguns estados da federação foi considerada como tendo afetado seriamente a "credibilidade econômica" de Brasília.
O Congresso não escapou à critica. Sofre a acusação de não ter concedido, em dezembro de 1998, sua concordância incondicional com a terapêutica letal do FMI. O plano proposto impunha cortes líquidos de 28 bilhões de dólares do orçamento federal, traduzindo-se especialmente na redução salarial do funcionalismo público e na sua demissão, no desmantelamento de programas sociais, na "reforma" do sistema de previdência social, na venda de ativos públicos, no congelamento das transferências aos estados da federação e na utilização prioritária das receitas do estado, notadamente através do aumento de impostos para o pagamento do serviço da dívida externa (4).

Compressão brutal do nível de vida
Ao exigirem uma política monetária draconiana, as instituições de Washington agiram em estreito contato com Wall Street, visando minar a base industrial brasileira, de maneira a garantir o controle de seu mercado interno e acelerar o processo de privatização em andamento. Por influência do FMI, a taxa interbancária diária disparou, no início de fevereiro, para o astronômico nível de 39%. Em conseqüência, os empréstimos junto aos bancos comerciais passara

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