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O Consenso de Washington

Data: 01/06/1999 
ARTIGOS O CONSENSO DE WASHINGTON Palestra proferida pelo professor José Luís Fiori (UFRJ) Local: Centro Cultural Banco do Brasil Data: 04 de setembro de 1996 Patrocínio: Federação Brasileira de Associações de Engenheiros - FEBRAE Quando fui convidado para falar sobre O Consenso de Washington e aceitei, foi porque percebi logo que, na hora do convite, o interesse era o de se falar sobre uma época e não propriamente sobre o consenso ou o que seja o consenso, o que não quer dizer que eu não vou dizer a vocês o que entendo do consenso. Afinal, do que se trata? Com certeza, não é uma coisa complicada. Eu escrevi alguns artigos onde aparecia essa expressão e houve um momento em que um amigo me disse assim: Fiori, se você não se cuidar, você vai ficar sendo conhecido por José Luís Consenso de Washington Fiori. Aí, eu disse: não falo mais desse assunto. Até porque a expressão não é minha, enfim... Pretendo, aqui, abordar três temas: Consenso de Washington, Construção da matriz neoliberal e Políticas para a América Latina. Devo, aqui, fazer o lamentável papel do contraponto. Durante uma semana, nesse seminário, vocês ouviram falar de desenvolvimento, revolução, socialismos frustrados ou não, guerrilhas, atos heróicos, enfim, de um continente que, durante 40 anos, sonhou com o crescimento econômico e com a igualdade social, e coube a mim, porque é o que se esconde atrás dessa expressão tão simples e tão misteriosa: Consenso de Washington, mas, venho falar de uma época onde a América Latina deixou de se preocupar com a igualdade, deixou de se preocupar com o crescimento, deixou de ser herói. Então, para efeito didático de nossa conversa eu vou dividi-la em três tópicos: o Consenso de Washington, a Construção da matriz neoliberal e Como é que esse negócio chega na América Latina. E, sempre que possível, tentarei ir pautando o desenvolvimento desses temas na forma de perguntas e respostas, porque eu acho que facilita a compreensão e facilita conversas posteriores. O que é, afinal, esse Consenso de Washington? Para quem não o conhece (quem o conhece me desculpe por reapresentá-lo), em primeiro lugar, deixemos claro que não se trata de nenhum tipo de maçonaria, nenhum tipo de conspiração internacional, porque várias pessoas já disseram pela imprensa (ou acusaram a quem usou a expressão) de ter uma visão conspiratória da história, como se esse consenso fosse uma macroorganização clandestina que gerisse ou manejasse os instrumentos de poder mundial. Não, não é nenhuma maçonaria nem é nenhuma conspiração, não é o resultado de um pacto e também não é resultado de reuniões de organizações formais de nenhum organismo de poder internacional ou mesmo nacional norte-americano. Então, o que é? Trata-se de uma expressão quase acadêmica porque foi cunhada por um acadêmico, foi cunhada por um economista, o Sr. John Williamson, um economista menor, sem grande expressão. Em 1989,o International Institute for Economy, funciona em Washington, que faz parte de uma rede – são centros de "pensação" - onde há intelectuais pensando na perspectiva do poder - não vou usar a serviço do poder porque vai parecer que estou acusando os caras de vendidos - não, eles estão ali pensando, a médio e longo prazos, a perspectiva de poder do país deles, de ser comum. E, evidentemente, como Washington é a capital do livre império que restou nesse mundo, é óbvio que exista uma rede que reúne cérebros de altíssima qualidade; esses institutos recebem também, permanentemente, a visita de políticos, de intelectuais e autoridades que circulam pelo mundo, que vão àqueles institutos para atualizar suas cabeças, informar-se sobre os últimos dados e, eventualmente, passar algumas informações mais atualizadas sobre as suas províncias imperiais. Mas, não digo com maldade. Sempre foi assim, em todos os impérios e é assim nessa situação imperial que estamos vivendo. Pois bem, esse instituto do Sr. John Williamson promoveu, em 1989, uma reunião cujo objetivo era discutir as reformas necessárias para que a Am

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