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A opção da Moratória

Data: 01/06/1999 
A Opção da Moratória Agora, até mesmo as concessões dramáticas feitas pelo governo aos especuladores podem ser insuficientes para frear a corrida contra o real. O país está diante de uma encruzilhada, e só a intervenção do movimento popular evitará o pior. Ou o sucesso das aventuras anteriores, ou a crença na lenda de infalibilidade que ele criou em torno de si mesmo, devem ter levado o presidente da República a acreditar que poderia acalmar os leões oferecendo-lhes mais sangue. Na terça-feira, quando o ataque especulativo contra o real já era nítido, o Palácio do Planalto tentou frear a fuga de dólares acenando aos especuladores com um pacote de novas concessões. O diário norte-americano Wall Street Journal assegurou que ao anunciar as medidas o ministro Pedro Malan agia para cumprir "promessas explícitas" feitas na semana anterior em Nova York, ao FMI. Foram, de fato, decisões incomuns. Para transferir mais alguns bilhões de dólares aos credores da dívida interna, o governo promoveu cortes profundos nas verbas de todos os ministérios. Para garantir que as decisões serão cumpridas, formou-se uma Comissão de Controle Fiscal, composta por três tecnocratas e com poderes sobre o Orçamento superiores aos do Congresso Nacional. José Serra, um dos ministros mais próximos a Fernando Henrique, não resistiu e se queixou publicamente. Um dos juízes do Supremo Tribunal Federal declarou a O Estado de São Paulo que as medidas são claramente inconstitucionais. Nada disso comoveu os credores. Horas depois, seus porta-vozes nos meios financeiros e na imprensa já atacavam a "timidez" das resoluções, batizadas de "pacotinho". Na manhã de ontem, os ataques verbais transformaram-se numa nova ofensiva contra a moeda: queda recorde das bolsas, disparada do dólar no paralelo, rebaixamento do Brasil por mais uma agência internacional de avaliação de riscos. Agora, ninguém tem mais dúvidas de que o real é a "bola da vez" no arrastão global dos mercados contra as moedas dos países pobres. Os fatos atropelam-se uns aos outros. Na noite de quinta, o Banco Central elevou as taxas de juros para o recorde de 49,75%, poucas horas depois de FHC afirmar em entrevista coletiva que uma nova alta "absolutamente não se justifica". Em outra coletiva, o ministro Pedro Malan garantiu que "quem investir em dólares, perderá dinheiro" – e o ganho, em um único dia, superou os 3%. Foram insistentes os boatos sobre uma possível demissão do ministro Malan. Depois de passar meses alardeando que os "fundamentos" da economia brasileira eram saudáveis, que o país estava imune à crise financeira internacional e que talvez pudesse até tirar proveito dela, o chefe do governo jogou a toalha, também na quinta. Como os mega-juros são apenas um remendo provisório, ele espera que a salvação venha "dos líderes mundiais (...) que estão representados basicamente no G7, sobretudo nos Estados Unidos". É outra esperança tola. A crise de fato é global, como este boletim tem insistido há cerca de um ano, quando os efeitos se espalharam da pequena Tailândia para todo o leste da Ásia. Mas os sofrimentos impostos desde então às populações de todos os países "contagiados" já deveriam ter servido de lição. Só um novo projeto, oposto ao neoliberalismo e a sua lógica de egoísmo extremo, será capaz de promover uma saída favorável aos direitos sociais, ao avanço da produção e do bem-estar, à própria idéia de que as sociedades são donas de seu destino e não podem entregá-lo aos mercados. Sim, porque o aspecto mais cruel das medidas que têm sido impostas às nações em crise é sua suposta inevitabilidade. Ao longo dos últimos meses, o aumento brutal do desemprego, a queda abrupta dos padrões de vida, a destruição das forças produtivas e a desnacionalização acelerada estão sendo apresentadas em toda parte como "naturais". As sociedades são convidadas a se manter passivas. Qualquer reação é vista como um fator de "instabilidade", capaz de "afastar os investidores". A docilidade diante da tragédia, e sobretudo a preservação dos interesses dos credores são apontadas como as únicas at

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