Colunas
Colunista Valter Xéu

Fidel: uma homenagem póstuma e um dia inesquecível

Data: 06/12/2016 
Fonte: Pátria Latina Autor: Valter Xéu

Fidel, hasta_siempre         

Hasta la Vista Comandante!

Tomba o mito, vive a lenda,

Brilha o Socialismo!

 

 

Direto de Havana - Participando das cerimônias fúnebres em homenagem ao Comandante Fidel Castro a convite do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba e do Conselho de Estado, em ato que durou mais de cinco horas na Praça da Revolução onde aproximadamente dois milhões de pessoas se fizeram presentes.

 

Além de chefes de estados de países dos cinco continentes, tive a honra de ser o único jornalista brasileiro convidado e conviver nas quase cinco horas com os chefes de governos de países como a China, Grécia, Venezuela, África do Sul, Equador, Bolívia, Argélia e outros além dos conterrâneos Frei Betto, Marília Guimarães e José Serra (cruz credo!) que veio representando o governo brasileiro, mas não ficou no espaço reservados aos chefes de Estado e convidados especiais.

 

Na tribuna, centenas de cadeiras personalizadas foram reservadas aos convidados e de repente lá estava eu sentado ao lado dos atores estadunidense muito amigo de Cuba, Danny Glover, que me disse ser casado com uma brasileira, e James Coutns Early, além de Frei Beto e Ignácio Ramonet, diretor e editor de Le Monde Diplomatique, ambos muitíssimos amigos de Fidel e assim como o comandante, também colunistas do Pátria Latina.

 

As homenagens póstumas à Fidel foram uma coisa arrepiante e emocionante. Uma praça, com mais de dois milhões de pessoas, a gritar Fidel! Fidel! Fidel é para jamais ser esquecida.

 

Terminado o evento retornamos ao hotel e fui jantar com Danny Glover e James onde emendamos um papo no restaurante do hotel que se prolongou ate às 02 e tantas da madrugada de quarta-feira onde estou escrevendo esse texto.

 

Dia 15 de dezembro os dois retornam com as esposas e depois aqui ficarão por trinta dias realizando palestras para jovens sobre socialismo etc. Fui convidado pelos dois para me fazer presente. O convite é tentador mas, caso eu retorne agora, acredito que coloco em risco de extinção a viagem programada para março de 2017 com meus amigos jornalistas e não jornalistas. Então, é bem provável que eu não apareça.

 

Durante o dia me encontrei com alguns amigos cubanos como Jorge Ferreira, que foi do Comitê Central e Conselheiro da Embaixada de Cuba no Brasil, figura conhecida e querida de muitos brasileiros. Também estive com Jorge Lezcano e sua esposa Maida, ele que foi secretario de Fidel por dez anos, começou sua vida política muito jovem ao lado de Che, depois comandou cinco milhões e meio de milicianos, foi secretario do partido, deputado à Assembleia Nacional do Poder Popular e indicado embaixador de Cuba no Brasil quando, por diversas vezes, o levei a Bahia, tendo no nosso estado inúmeros amigos como o jornalista Antônio José Laranjeira e a sua esposa Kika, que ofereceram um coquetel a Lezcano em uma das visitas que fez a Feira de Santana. 

 

TUDO NORMAL

 

Apesar da morte de Fidel, não vi uma Cuba diferente das que sempre vi em outras viagens para cá.

 

As crianças pelas ruas, em uniforme escolar, caminhando para escolas, coisa bem diferente do nosso pais, onde o perigo nos empreita em cada esquina ou cruzamento, onde não escapam crianças e adultos; as lojas abertas cheia de turistas, mas dava para ver, no semblante de cada cubano, um misto de dor e perda de algo muito importante. Sorriam para nós, mas era um sorriso diferente e que deixava transparecer seu sentimento por Fidel, como bem frisou Candida Concepcion Hernandez, engenheira de alimentos, e que, nas horas vagas, trabalha com o irmão em uma lojinha na Rua Obispo a quem perguntei o que representava Fidel para os cubanos. “Tudo! Nos deu dignidade e força para resistir às pressões exercidas pelos Estados Unidos e que tanto mal fez ao nosso pais e ao nosso povo. Resistimos com Fidel, Raul e outros comandantes da revolução e vamos agora dar continuidade, com muito mais força, nessa luta, pois antes tínhamos Fidel para lutar por nos e agora são os fideis que existem dentro de cada um de nos que continuará essa luta de todos em defesa de todos, sempre iluminado pelo nosso farol que chama-se Fidel”. Disse Concepcion Hernandez, 29 anos.

 

A EMOÇÃO DA REPÓRTER

 

Entre a multidão que comparecia diariamente à Praça da Revolução, sob o olhar das esculturas de ferro do rosto de Che e de Camillo, em prédios situados em frente ao monumento dedicado a José Marti, uma repórter viu na fila, com seus familiares, uma criança de aproximadamente cinco anos com o nome “Fidel” escrito na testa. Ela perguntou à menina porque ela pintou daquela maneira ao que respondeu “pintei na minha testa, pois não posso rasgar o meu coração para escrever o nome de Fidel dentro dele”. A repórter parou emocionada e não consegui perguntar mais nada à criança e, quem assistia pela TV, também se contagiou com a cena.

 

O Jornal Granma, de domingo (27), traz em sua capa uma gravura de um exército cujos soldados tem todos o rosto de Fidel. Isso retrata muito bem o que representa para todos cubanos, de agora por diante, serem todos Fidel e que cada um deles tem a responsabilidade em levar adiante o ideário do líder, Comandante eterno da revolução cubana.

 

Uma praça, com aproximadamente dois milhões de pessoas, gritando o nome do seu amado líder que se foi, é algo arrepiante. Ao lado de Danny Glover, sempre que a praça se manifestava com palavras como “Viva Fidel! Tu serás eterno em nossos corações! Hasta Siempre Comandante!”, trocávamos olhares e não falávamos nada, como se impressionados ou extasiados estivéssemos assistindo toda aquela manifestação do povo.

 

Já no hotel, após o ato que começou às 18 horas e se prolongou ate as 23, conversamos bastante sobre o que vimos e o que sentimos.

 

CUBA SEM FIDEL

 

Certa vez eu e um grupo de amigos perguntamos a Fidel como seria Cuba sem ele ao que respondeu. “Todos nós passamos. Passou Jose Marti, Cespedes, os Irmãos Maceo e todos eles estão vivos entre os cubanos e assim será Fidel, pois existem milhões deles por toda Cuba”.

 

É lógico que com o desaparecimento físico de Fidel, muitos acreditam que haverá mudanças em Cuba, que o país vai se jogar nos braços dos Estados Unidos etc.

 

Quem espera isso continuará sempre esperando e estará completamente enganado com a realidade cubana. Depois de mais de meio século sofrendo um dos mais brutais bloqueios da humanidade, o povo cubano soube resistir às investidas do império e todos conhecem bastante o sofrimento e o estrago que isso causou à Ilha nesse mais de meio século.

 

Nenhum cubano esquece isso, mesmo os que vão tentar a vida em Miami que esta bem pertinho daqui.

 

RAUL NÃO QUER A REELEIÇÃO

 

Depois de dois mandatos exercendo a presidência, Raul afirmou que com o vencimento deste mandato presidencial, agora em 2018, não será candidato à reeleição, mesmo que se eleja deputado o que com certeza acontecerá.

 

O presidente em Cuba tem que ser eleito deputado para a Assembleia Nacional do Poder Popular que escolhe, pela via indireta, o Presidente da Republica como acontece nas eleições no sistema parlamentarista, onde o primeiro ministro é eleito pelo congresso.

 

O voto é distrital e tanto Fidel como Raul, sempre foram eleitos pela província de Santiago de Cuba onde os dois nasceram.

 

O voto não é obrigatório e cerca de 95 por cento dos eleitores comparecem para votar.

 

Em Cuba ninguém pode ser candidato de si próprio, para ser candidato, tem que ser apresentado por uma associação de moradores, sindicato e não precisa ser filiado ao Partido Comunista.

 

Eleito, o candidato, seja ele vereador, deputado distrital ou deputado nacional tem que comparecer, a cada 90 dias, ao seu reduto eleitoral e prestar contas ao povo do seu trabalho e, caso os eleitores não estejam satisfeitos, eles tem o poder de cassar o mandato e eleger outro, isso sem nenhuma interferência de qualquer tipo de órgão, como a justiça eleitoral que sustentamos no Brasil. Aqui a vontade do povo é soberana, cassou está cassado, e não existe qualquer tipo de recursos que o cassado possa recorrer.

 

Isso tem um nome e que não vou citar aqui, deixando aos leitores interpretar que tipo de nome tem isso.

 

VISITA DE OBAMA

 

O mundo acha que com a vinda de Obama à Ilha, muita coisa mudou e que acabou o bloqueio o que é um engano total, apesar da mídia internacional exaltar a visita e não mais o bloqueio. Este continua ativo e forte e muito dano traz para a população do país que teve que se militarizar para enfrentar possíveis intervenções, assim como acontece com a Coreia do Norte, onde por causas das intervenções japonesa e americanas, que se viu obrigado a investir maciçamente nas suas forças armadas para a defesa do país e também acontece com Cuba.

 

Muitos falam de Cuba sem ao mínimo se dar o direito de conhecer sua historia. Creditam as dificuldades por que passam os cubanos a desacertos do governo, esquecendo que o bloqueio imposto pelo país, que se apresenta como a maior democracia do planeta, não seja o causador de tantos males, isso sem falar nos que aqui vem com uma ideia fixa na cabeça, que é encontrar algo fora do normal e assim desancar o regime e sem entrar fundo na questão do isolamento comercial provocado pelo bloqueio, onde qualquer navio que aporte em Cuba, além de pagar multa pesada ao tesouro estadunidense, fica proibido por seis meses de navegar em águas norte americanas.

 

Cidadãos da pseudo maior democracia do planeta são penalizados com multas e até mesmo prisões, caso venham a Cuba sem se entender antes com órgão do seu país. Isso tem levado gente famosa nos "states", como a classe artística, a desafiar as leis e aqui comparecer, mas o medo da repercussão internacional termina por abortar qualquer tipo de penalização, o mesmo, no entanto, não acontece com empresas; até mesmo de outros países, como um banco francês que foi multado em alguns bilhões de dólares por manter transações financeiras com Cuba e, caso não pague a multa, ficará impedido de fazer qualquer tipo de negócios nos Estados Unidos ou com empresas norte americanas em qualquer parte do mundo.

 

Tudo isso é um fator complicador para Cuba, que, mesmo assim, consegue segundo a UNICEF, ter uma das mais baixas taxas de mortalidade infantil do mundo, uma saúde e educação de ponta e uma expectativa de vida maior que a brasileira, apesar de uns imbecis, que aqui chegam, no retorno bradar que conheceu um cubano cuja família só se alimentava diariamente com um único pão, deixando de observar que não existem crianças pedintes e vendendo chiclete e amendoim nos cruzamentos, mendicância pelas ruas, coisa comum em nossas "calles" brasileiras.

 

Mas essas figuras que aportam em Cuba não desembarcam no país querendo saber dos avanços cubanos. Seus olhos vêm somente para ver o que não funciona e entra em desespero quando conhecem um engenheiro dirigindo um táxi por exemplo. Aqui, bem diferente do nosso país, quase todo mundo tem nível superior e não existe aquela empáfia natural do brasileiro que possui um diploma. Engenheiros, médicos, advogados, professores, todos são iguais e não se sentem diminuídos ao realizar, nas horas vagas, outro serviço como taxistas etc.

 

Na nossa cultura isso é desmoralizante, pois o diploma eleva a pessoa a um nível superior, tipo uma casta um pouco acima de tudo e de todos.

 

INVASÃO TURÍSTICA

 

Quem esta habituado a visitar Cuba, como eu, fica com a nítida impressão de que o mundo todo esta vindo para cá e isso faz com que os hotéis estejam sempre lotados e quem aqui chega, sem hospedagem reservada, terá grandes dificuldades onde encontrar uma vaga.

 

Os Estados Unidos com suas ameaças e bravatas, bem que tentou invadir Cuba desde a chegada de Fidel ao poder, mas essa proeza coube aos chineses. Eles estão por todo o canto da cidade.

 

Enquanto os canadenses continuam na liderança, onde só no ano passado um milhão e 400 mil visitaram Cuba, vindo em voos fretados diariamente de Montreal, Quebec e Vancouver, lotando os hotéis de Varadero, onde ficam por uma semana e retornam ao seu país.

 

Com os chineses é diferente. Nada de praia e sim as ruas de Havana, onde os encontramos, com uma garrafinha de agua mineral, nos dias calorento, e uma maquina fotográfica ou com um “pau” na mão para "selfie" com o celular, registrando tudo, não se hospedam nos grandes hotéis, dando preferência aos de duas ou no máximo três estrelas e compram de tudo que esteja com o nome "Cuba" ou "Che".

 

CADÊ ELES?

 

Uma coisa que gosto de ver, quando visito algum país, são os produtos brasileiros exportados, sejam eles gêneros alimentícios, utensílios domésticos e até mesmo autos.

 

Em Cuba eu adorava ver escrito nos ônibus à frase “construído no Brasil” com carrocerias da Marco Polo ou da Buscar, com motor Volvo, montado no Brasil e depois em uma empresa cubano-brasileira instalada aqui.

 

De repente esses ônibus que tanto existiam durante o governo Lula, desapareceram no período Dilma e entraram os chineses da marca Yutong, demonstrando que não são somente os turistas que estão chegando mais os negócios também. Os Yutong, por fora ate que tem um design bonito, mas, por dentro, o espaço entre as cadeiras é muito parecido com os aviões do Constantino - a Gol, que tem as aeronaves mais desconfortáveis do país. Ee assim são os ônibus de fabricação chinesa que parece serem construídos para os patrícios, que geralmente são de baixa estatura e não gordos ou barrigudos como nós latinos.

 

Em aviões que voam para Cuba, a horda chinesa de turistas e empresários, e aqui desembarcam aos montes, é comum dentro do avião os encontrarmos trabalhando em seus computadores enquanto a maiorias dos não chineses se divertem com jogos, filmes e bebidas, eles parecem enfiar a cara nos computadores analisando planilhas e mais planilhas.

 

Os produtos brasileiros já não são visto com a frequência de antes, onde até o biscoito Triunfo eram exportados para cá. É sabido, que vários mercados ocupados por produtos brasileiros deram lugar a de outros países, por descuido ou desleixo das autoridades e empresários brasileiros, que deram as costas a mercados como Cuba, Irã, a todo Oriente Médio e alguns países africanos. 

 

*Valter Xéu é editor e diretor de Pátria Latina e Irã News