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"Grande Reset", agenda neofascista e malthusiana

17 Dezembro Escrito por  Geraldo Luís Lino Lido 701 vezes

face-homem De fato, uma "reinicialização" das grandes!

Nos últimos meses, em meio à ansiedade e à tsunami de problemas gerados pela pandemia de Covid-19, a expressão "Grande Reset" (Great Reset, em inglês) passou a receber grande destaque nas discussões sobre as mudanças imprescindíveis para o período pós-pandemia. Criada pelo fundador e presidente do Fórum Econômico Mundial (WEF), Klaus Schwab, ela se refere ao que seu autor considera a necessidade de uma "grande reinicialização do capitalismo", para a qual a pandemia representaria uma oportunidade imperdível. Baseada em conceitos sedutores, não obstante, quando analisada de perto, a proposta revela-se como a mais audaciosa iniciativa das altas oligarquias globais para a implementação de uma agenda totalitária, cujo rótulo mais adequado não pode ser outro que o de um "governo mundial" oficioso. Como de hábito, o diabo reside nos detalhes.

A proposta de Schwab foi divulgada pela primeira vez em um artigo publicado por ele no sítio do WEF, em 3 de junho. A dimensão da pretensão fica exposta no seguinte parágrafo:

Para conseguir um melhor resultado, o mundo deve agir conjunta e rapidamente, para renovar todos os aspectos das nossas sociedades e economias, desde a educação aos contratos sociais e condições de trabalho. Todos os países, dos EUA à China, devem participar, e cada indústria, do petróleo e gás à tecnologia, deve ser transformada. Em suma, nós precisamos de uma "Grande Reinicialização" do capitalismo.

Antes de prosseguir, esclareçamos que, no restante deste texto, usaremos a forma que vem sendo mais usada em português, com o devido desconto às impropriedades linguísticas - "o Grande Reset", com pronome masculino.

Nas próprias palavras de Schwab, a agenda do "Grande Reset" tem três componentes principais:

(...) O primeiro orientaria o mercado para resultados mais justos. Para este fim, os governos deveriam melhorar a coordenação (por exemplo, em políticas tributárias, regulatórias e fiscais), melhorar os acordos comerciais e criar as condições para uma "economia das partes interessadas" [stakeholder economy, no original]. Em um momento de bases tributárias decrescentes e dívidas públicas em escalada, os governos têm um poderoso incentivo para seguir esse curso de ação. Ademais, os governos deveriam implementar reformas longamente necessárias, que promovam resultados mais equitativos. Dependendo do país, ela podem incluir mudanças na taxação de riquezas, retirada dos subsídios aos combustíveis fósseis e novas regras governando a propriedade intelectual, o comércio e a competição.

O segundo componente de uma agenda do Grande Reset asseguraria que os investimentos promovam objetivos compartilhados, tais como igualdade e sustentabilidade. Aqui, os programas de gastos de grande escala que muitos governos estão implementando representam uma grande oportunidade para o progresso. A Comissão Europeia, por exemplo, revelou planos para um fundo de recuperação de € 750 bilhões (US$ 826 bilhões). Os EUA, China e Japão também têm ambiciosos planos de estímulo econômico. Em vez de usar esses fundos, bem como investimentos de entidades privadas e fundos de pensão, para tapar os buracos do antigo sistema, nós deveríamos usá-los para criar um novo, que seja mais resiliente, equitativo e sustentável a longo prazo. Isto significa, por exemplo, construir infraestrutura urbana "verde" e criar incentivos para que as indústrias melhorem os seus desempenhos nas métricas ambiental, social e de governança (ESG).

A terceira e última prioridade de uma agenda do Grande Reset é dominar as inovações da Quarta Revolução industrial para apoiar o bem público, especialmente, enfrentando os desafios de saúde e sociais. Durante a crise da Covid-19, empresas, universidades e outros uniram forças para desenvolver métodos de diagnóstico, terapêuticas e possíveis vacinas; estabelecer centros de testagem; criar mecanismos para rastrear infecções; e implementar telemedicina. Imaginem o que poderia ser possível se esforços concertados similares forem feitos em cada setor.

No mesmo dia, o "Grande Reset" foi anunciado como tema de uma reunião paralela à próxima reunião do WEF (ou Fórum de Davos, como é mais conhecido), em janeiro de 2021, pelo próprio Schwab e três convidados ilustres: Sua Alteza Real Charles, príncipe de Gales e herdeiro do trono do Reino Unido; o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres; e a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva. O quarteto denota a importância atribuída ao tema pelos altos círculos do Establishment "globalista".

Na ocasião, Schwab ressaltou o grande peso do componente ambiental na agenda do "Reset":

Nós só temos um planeta e sabemos que as mudanças climáticas poderão ser o próximo desastre global, com consequências ainda mais dramáticas para a humanidade. Nós temos que descarbonizar a economia, na curta janela ainda remanescente [referência a 2030, ano limite eleito pelos alarmistas climáticos para a adoção de uma draconiana agenda de reduções de usos dos combustíveis fósseis – n.e.] e colocar, uma vez mais, os nossos pensamentos e comportamentos em harmonia com a natureza (WEF, 03/06/2020).

Por sua vez, Sua Alteza Real acrescentou:

Para assegurar o nosso futuro e prosperar, nós precisamos evoluir o nosso modelo econômico e colocar as pessoas e o planeta no coração da criação de valores globais. Se há uma lição crítica a ser aprendida dessa crise, é que precisamos colocar a natureza no coração de como operamos. Nós, simplesmente, não podemos perder mais tempo.

Guterres foi na mesma linha:

O "Grande Reset" é um bem-vindo reconhecimento de que essa tragédia humana deve ser um chamado de alerta. Nós devemos construir economias e sociedades mais iguais, inclusivas e sustentáveis, que sejam mais resilientes diante de epidemias, mudanças climáticas e os muitos outros desafios globais que enfrentamos.

Para promover suas ideias, menos de um mês depois, Schwab lançou o livro Covid-19: The Great Reset, escrito em parceria com o economista e historiador Thierry Malleret, cujo "timing" denota que a proposta já estava sendo trabalhada no WEF, provavelmente, desde os primeiros meses da pandemia.

À primeira leitura, a pauta do "Reset" pode até parecer razoável, mesmo sem se perder de vista o fato de que o WEF é o templo por excelência da "globalização" deflagrada a partir da década de 1970, com a crescente "financeirização" da economia mundial. Curiosamente, a entidade foi fundada em 1971, o mesmo ano em que o presidente Richard Nixon aniquilou os acordos monetários de Bretton Woods, abrindo caminho para o predomínio da alta finança, cujo resultado mais visível é um crescente aprofundamento das desigualdades mundiais, dentro da maioria dos países e entre eles.

Todavia, um gráfico apresentado no próprio artigo ("mapa de transformação") denota toda a extensão da agenda proposta por Schwab, a qual afeta praticamente todos os aspectos da vida humana (ver abaixo).

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The Great Reset Transformation Map


De fato, uma "reinicialização" das grandes!

Para facilitar a sua aceitação mundial, o "Grande Reset" está sendo amplamente colorido de "verde" e apresentado como uma crucial contribuição do capitalismo hiperfinanceiro para a proteção do meio ambiente global, pauta que já vinha sendo implementada antes da pandemia, mas está sendo acelerada com a incorporação à "agenda Reset". Um elemento-chave da agenda é a reestruturação das finanças globais em torno dos conceitos de "sustentabilidade" e "carbono líquido zero", que passariam a ser os novos parâmetros de avaliação de toda sorte de atividades econômicas, investimentos, financiamentos etc., de maneira análoga ao que é feito com os títulos de dívida soberana e corporativa. Evidentemente, tal processo ficaria sob o controle e supervisão de uma elite oligárquica e tecnocrática não eleita, encastelada em entidades privadas supranacionais e apoiadas pelo vasto exército de ONGs que integra o aparato ambientalista-indigenista internacional.

Outro fator crucial é a crescente digitalização das atividades econômicas, com a consequente redução da força de trabalho humana, e financeiras, reforçada pela difusão dos meios de pagamento digitais, os quais substituiriam gradativamente o papel-moeda e facilitariam ainda mais a circulação internacional de dinheiro, inclusive, ilícito.

Reduzido à sua essência básica, o "Grande Reset" é uma construção de caráter neofascista e malthusiano, com o objetivo de subordinar os Estados nacionais aos interesses das megacorporações transnacionais, evidentemente, sob o controle destas últimas, ou melhor, dos fundos de gestão de ativos que as controlam (p.ex., BlackRock, Vanguard etc.). Ao mesmo tempo em que limita as aspirações de desenvolvimento dos mais de 150 países que não integram o bloco das economias avançadas, subordinando-as a um surrado conceito ideológico de "escassez de recursos", que o enfrentamento da própria pandemia se encarregou de desmoralizar, na maioria dos países.

Apesar de Schwab pregar que todos os países deveriam aderir à sua agenda de "salvação global", parece evidente que as potências que estão reconfigurando o eixo eurasiático como o novo centro de gravidade geoeconômico do planeta, com destaque para a China e a Rússia e novas articulações, como a recém-criada Parceria Regional Econômica Abrangente (RCEP), têm agendas próprias e mais consentâneas com os requisitos de um reinício legítimo e sem aspas para a humanidade como um todo. O confronto entre ambas as concepções implica em que o futuro imediato será tudo, menos tedioso.

Geraldo Luís Lino, Diretor do Movimento de Solidariedade Ibero-americana (www.msiainforma.org)  

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