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EUA contra Novas Rotas da Seda: "Localizar e Destruir"

11 Dezembro Escrito por  Pepe Escobar Lido 796 vezes

face-homem Atlanticistas desesperados com declínio do "sistema de diplomacia de aliança"

Sete anos depois de lançadas pelo presidente Xi Jinping, primeiro em Astana, depois em Jakarta, as Novas Rotas da Seda, ou Iniciativa Cinturão e Estrada, ICE [ing. Belt and Road Initiative (ICE)] continuam a enlouquecer sempre mais a oligarquia plutocrática norte-americana.

A paranoia que nunca arrefece em torno da "ameaça" chinesa muito tem a ver com a via de escape que Pequim oferece a um Sul Global permanentemente em dívida com a exploração puxada por FMI/Banco Mundial.

Sob a velha ordem, elites político-militares eram rotineiramente subornadas, em troca de acesso ilimitado garantido às corporações, aos recursos de cada nação, combinado a esquemas de privatização à moda suruba e descarada 'austeridade' ("ajuste estrutural").

Assim foi ao longo de décadas, até que a ICE tornou-se o novo jogo na cidade, em termos de construção de infraestrutura – oferecendo uma alternativa à via imperial.

O modelo chinês permite todas as modalidades de taxas paralelas, vendas, aluguéis, arrendamentos – e lucros. Significa que governos locais encontram fontes extra de renda – com um importante corolário: livram-se dos diktats neoliberais barra-pesadíssima de FMI/Banco Mundial. Eis o que vive no coração do afamado "ganha-ganha" chinês.

Mais que isso, o principal foco estratégico geral da ICE sobre o desenvolvimento de infraestrutura não só na Eurásia, mas também na África, implica grande mudança no jogo geopolítico. A ICE está posicionando vastas áreas do Sul Global para que se tornem completamente independentes da armadilha da dívida imposta pelo Ocidente. Para muitas e muitas nações, é questão de interesse nacional. Nesse sentido, a Iniciativa Cinturão e Estrada, ICE, deve ser vista como verdadeiro mecanismo pós-colonial.

A ICE tem tudo a ver, de fato, com simplicidade à Sun Tzu aplicada à geoeconomia. Nunca interrompa o inimigo, quando estiver cometendo um erro – nesse caso, quando escraviza o Sul Global, pela dívida perpétua. E então usar as próprias armas – nesse caso, "ajuda financeira" – para desestabilizar qualquer destaque.

Pé na estrada com os mongóis

Nada do que acima se lê, é claro, conseguirá serenar o vulcão alucinado, que continuará a cuspir fogo em dilúvio diário, 24 horas/dia, de alertas vermelhos para 'declarar' que a ICE seria "mal definida, gravemente mal gerida e em processo de fracasso visível". "Visível", claro, só para os excepcionalistas.

Como se podia prever, o vulcão alucinado nutre-se de um mix tóxico de arrogância e ignorância crassa da história e da cultura da China.

Xue Li, diretor do Departamento de Estratégia Internacional no Instituto de Economia e Política, da Academia Chinesa de Ciências Sociais, mostrou como "depois que foi proposta a Iniciativa Cinturão e Estrada em 2013, a diplomacia da China mudou: de manter perfil discreto, para se tornar mais proativa nos assuntos globais. Mas a política de 'parceria, não de aliança' não mudou, e é improvável que mude no futuro. O fato indiscutível é que o sistema de diplomacia de aliança preferido por países ocidentais é escolha de poucos países do mundo; e muitos países escolhem diplomacia não alinhada. Além do mais, a vasta maioria desses países estão desenvolvendo países na Ásia, na África e na América Latina."

Os atlanticistas estão desesperados, porque "o sistema de diplomacia de aliança" está em declínio. A ampla maioria do Sul Global está sendo reconfigurada como um Movimento de Não Alinhados, MNA [ing. Non-Aligned Movement, NAM] – como se Pequim tivesse encontrado um modo de reviver o Espírito de Bandung em 1955.

Especialistas chineses gostam de citar um manual imperial do século 13, segundo o qual mudanças políticas devem "ser benéficas para o povo". Se as mudanças beneficiam funcionários corruptos, o resultado é luan ("caos"). Daí a ênfase chinesa no século 21, em política pragmática, não em ideologia.

Se se examinam comparativamente paralelos bem informados das dinastias Tang e Ming, é de fato a dinastia Yuan que oferece introdução fascinante aos feitos internos da ICE.

Assim sendo, embarquemos em rápida viagem ao passado, até o século 13, quando o imenso império de Genghis Khan foi substituído por quatro khanatos.

Tivemos o Khanato do Grande Khan – que se converteu na dinastia Yuan – que governou China, Mongólia, Tibete, Coreia e Manchúria.

Tivemos o Ilkhanato, fundado por Hulagu (conquistador de Bagdá) que governou Irã, Iraque, Azerbaijão, Turcomenistão, partes da Anatólia e o Cáucaso.

Tivemos a Horda Dourada, que governou estepe eurasiana do noroeste, do leste da Hungria até a Sibéria, e a maioria dos principados russos.

E tivemos o Khanato Chaghadaid (do nome do segundo filho de Genghis Khan) que governou a Ásia Central, de Xinjiang ao leste até o Uzbequistão, até que Tamerlane ascendeu ao poder em 1370.

Essa era assistiu a forte aceleração do comércio ao longo das Rotas da Seda Mongóis.

Todos esses governos controlados por mongóis privilegiaram o comércio local e o comércio internacional. Essa opção traduziu-se num boom em mercados, taxas, lucros – e prestígio. Os khanatos competiam pelas melhores mentes comerciais. Estabeleceram a infraestrutura necessária para viagens transcontinentais (Iniciativa Cinturão e Estrada no século13, que tal?!). E abriram o caminho para múltiplas trocas trans-civilizacionais, Leste-Oeste.

Quando os mongóis conquistaram o Song, no sul da China, conseguiram expandir o comércio terrestre das Rotas da Seda também para Rotas Marítimas da Seda. A dinastia Yuan controlava então poderosos portos do sul da China. Assim, quando havia qualquer tipo de turbulência em terra, o comércio mudava-se para os mares.

Os eixos chaves atravessavam o Oceano Índico entre o sul da China e a Índia, e entre a Índia e o Golfo Persa ou o Mar Vermelho.

As cargas viajavam por terra para Irã, Iraque, Anatólia e Europa; por mar, pelo Egito e o Mediterrâneo, até a Europa; e de Áden, ao leste da África.

Também havia em operação uma rota marítima de comércio de escravos entre portos da Horda Dourada no Mar Negro e Egito – controlada por mercadores muçulmanos, italianos e bizantinos. Pelos portos do Mar Negro transitavam mercadorias de luxo que chegavam do Oriente, por terra. E durante as épocas das perigosas monções, caravanas viajavam por terra, da costa da Índia.

Essa atividade comercial frenética foi uma proto-ICE, que alcançou o ápice nos anos 1320s e 1330s, até o colapso da dinastia Yuan em 1368, em paralelo com a Peste Negra na Europa e Oriente Médio. O ponto chave: todas as rotas terrestres e marítimas eram interligadas. Os planificadores da Iniciativa Cinturão e Estrada no século 21 contam com o benefício de uma longa memória histórica.

"Nada mudará fundamentalmente"

Compare-se agora essa riqueza de comércio e intercâmbio cultural, e a paranoia pedestre, provinciana, anti-ICE e sobretudo anti-China, nos EUA. O que se tem é o Departamento de Estado comandado pelo já quase defenestrado Mike "Mentimos, Traímos, Roubamos" Pompeo e aquela miserável cantilena sobre um "desafio chinês". A Marinha dos EUA recomissiona a Primeira Frota para Perth, pensando provavelmente em "ter 'um pé' no Indo-Pacífico" e assim manter a "dominação marítima numa era de grande disputa de poder".

Mais ameaçadora, aqui se lê um sumário da gigantesca (4.517 páginas, $740,5 bilhões) Lei da Autorização da Defesa Nacional (ing. National Defense Authorization Act, NDAA) para 2021, que acaba de ser aprovada na Câmara de Representantes por 335 votos a 78 (Trump ameaçou vetar).

Trata-se de financiar o Pentágono ano que vem – a ser supervisionado em teoria pelo novo 'general Raytheon', Lloyd Austin, último "general em comando" dos EUA no Iraque, que dirigiu o CENTCOM de 2013 a 2016 e em seguida aposentou-se num sumarento arranjo de porta giratória, na diretoria da Raytheon e, crucialmente decisivo, é também diretor da super poluidora de ar, água e solos, a ultratóxica Nucor.

Austin é o figurante de comédia de porta giratória que apoiou a guerra contra o Iraque, a destruição da Líbia e supervisionou o treinamento de "rebeldes moderados" sírios – codinome 'al-Qaeda reciclada' – ,que mataram incontáveis civis sírios.

A lei NDAA, como seria de prever, é carregada de "ferramentas para deter a China". Dentre as quais se destacam:

1. Uma dita "Iniciativa de Contenção no Pacífico" [ing. Pacific Deterrence Initiative, PDI], expressão-código para contenção da China no Indo-Pacífico, com reforço a cobrar do 'Quarteto' [ing. Quad].

2. Massivas operações de contrainteligência.

3. Ofensiva contra "diplomacia da dívida". É nonsense: os acordos da ICE são voluntários, construídos por relações de ganha-ganha e abertos a renegociação. Nações do Sul Global privilegiam esses acordos porque os empréstimos têm juros baixos e prazos longos.

4. Restruturação das cadeias globais de suprimento que levam aos EUA. Quanto a isso... boa sorte. Sanções contra a China permanecerão.

5. Pressões para forçar nações a não usarem 5G da Huawei.

6. Reforçar Hong Kong e Taiwan como Cavalos de Troia para desestabilizar a China.

O diretor da Inteligência Nacional John Ratcliffe já deu o tom: "Pequim planeja dominar os EUA e o resto do planeta economicamente, militarmente e tecnologicamente". Tremam de medo do Partido Comunista Chinês, do mal, "a maior ameaça à democracia e à liberdade em todo o mundo, desde a 2ª Guerra Mundial".

Isso aí: Xi é o neo-Hitler.

Assim sendo, nada mudará fundamentalmente depois de janeiro 2021 – como Biden-Harris prometeu [singular, porque compõe a mesma entidade] oficialmente: será Guerra Híbrida contra a China, tudo outra vez, distribuída por todo o espectro, como Pequim compreendeu muito bem.

E daí? A produção industrial da China continuará a crescer, ao mesmo tempo em que os EUA continuarão em declínio. Cientistas chineses conseguirão novos avanços, tipo a computação fotônica – que completou 2,6 bilhões de anos de computação em 4 minutos. E o espírito da dinastia Yuan do século 13 continuará a inspirar a Iniciativa Cinturão e Estrada.

Traduzido por: Coletivo Vila Mandinga

Fonte: Paraíso Brasil

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