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Leonel Brizola: historiador subversivo e dialético

09 Dezembro Escrito por  Gilberto Felisberto Vasconcellos Lido 697 vezes

face-homem A falta de memória histórica é um melancólico sinal de povo idiotizado

A AEPET publicou o meu ensaio "Leonel Brizola a História o Historiador", cuja resenha teve por título o seguinte: "Aquele que não se vendeu ao império", de autoria de Sylvio Massa de Campos.

Inspirando-me nessa lúcida resenha, faço aqui algumas considerações sobre o historiador idôneo que não falseou a história do Brasil até 2004, ano de sua morte. Em meu livro procurei mostrar o nexo entre história e historiador em se tratando de Leonel Brizola. Antes de tudo uma questão de signo: a ambição de permanecer na posteridade por meio da oralidade e ou da escrita. Sabemos que ninguém, os pósteros, ouviu a voz de Marx e Engels porque dela não há registro sonoro. Esses dois intelectuais comunistas revolucionários escreveram milhares de páginas. Serão para sempre lembrados e estudados.
Em sua longa vida Leonel Brizola mais falou do que escreveu. Destarte, não quis escrever as suas memórias. Por que não o fez? Recusou escrevê-las não obstante os amigos o pedirem. Ficou famosa uma resposta sua: memórias, não; vou escrever umas cartas para o seo Guaragna.

O gauchão João Carlos Guaragna, entendido em rádio amador, trabalhou nos Correios em Porto Alegre. Foi ele o primeiro a sacar que havia em Brasília uma conspiração golpista para não deixar João Goulart assumir a presidência da república. Não é um disparate conjecturar que se houvesse televisão em 1961 não teríamos a Campanha da Legalidade, combatida por Orlando Geisel e a sua maneira por Tancredo Neves.

Haveria muita coisa a evocar de seus dias idos e vividos. Leonel Brizola de propósito não escreveu memória. É intrigante em um historiador como ele, insólito historiador porque também protagonizou a história. Cuidava sobremaneira em transmitir o fio da história, condição essencial à emancipação popular. Trata-se, em outras palavras, da transmissão oral da política.

O caudilho da Pátria Grande dizia que vinha de longe. Vinha de longe na história do Brasil desde 1945, antes mesmo de findar a Segunda Guerra Mundial. Por ter vivido e muito observado sabia que a mentalidade capitalista tem horror da história. A burguesia não tolera a história. O que passou, passou. É inútil refletir sobre as águas passadas. Para o burguês, houve história, mas não haverá mais. Foi isso o que Marx afirmou em 1848, ano em que foi publicado o Manifesto do Partido Comunista.

Ágrafo de pai e mãe, Jair Bolsonaro quer hoje abolir a disciplina de história nas escolas. Visitando Buenos Aires, Ortega y Gasset informou que os países novos precisavam conhecer o passado mais do que os países velhos. É que os países novos nasceram sobre o jugo da dominação colonial que reprime a reminiscência. Colônia amnésica. O imperialismo valendo-se do poder da televisão, almeja perpetuar a ausência de memória do povo brasileiro. A memória tem de ser solapada todos os dias. É esse o propósito da televisão. A telenovela corroeu o significado do golpe de 1964 e Jair Bolsonaro chegou ao poder, a despeito dos histéricos salamaleques da patota Globo News, cuja alma é profundamente bolsonara. Paulo Guedes e Henrique Meirelles dançam a mesma valsa do Banco de Boston que deu grana para o governador Ademar de Barros comprar armas em 1964 a fim de derrubar João Goulart.

O irlandês James Joyce tinha razão ao acusar a história de pesadelo. Não devemos olvidar que a Dublim de Ulisses era uma cidade ocupada pelo colonialismo britânico. Quando o presidente Lula resolveu, sabe lá com quais botões, convidar Henrique Meirelles para integrar o seu governo, Leonel Brizola sem pestanejar rompeu de vez com o PT por causa desse deletério tabuleiro imperialista. Atenção: esse enigmático personagem anti-brizolista dará as cartas no governo de João Dória.

A falta de memória histórica é um melancólico sinal de povo idiotizado que leva bordoada de tudo quanto é lado. Recordo-me que Lula foi várias vezes advertido por Leonel Brizola: a história do Brasil, meu caro, não começou no ABC paulista. Há muito mais coisas entre o sindicato e a sacristia da igreja católica. Lamentavelmente para si e para o país, Lula acreditou, ouvindo o sociólogo Francisco Weffort e o cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, que era o novo operário ex nihilo sem vínculo algum com o operariado de antanho. Eu sou o novo do novo. Eu sou o metalúrgico fodão. Caiu na conversa mole dos professores colonizados da USP, dos clérigos udenistas e da imprensa burguesa, Estadão e Folha de São Paulo. Não assimilou coisa alguma da experiência histórica de Leonel Brizola.

Era justamente isso o que queriam de Lula a FIESP e os generais norte-americanizados que golpearam João Goulart em 1964. Leonel Brizola acentuou de maneira nítida o menoscabo pela história que levaria mais tarde Lula à cadeia. O grande lance teórico de Leonel Brizola em 1945 foi ter percebido que a história não poderia ser reduzida a um mero conflito entre o capitalismo fascista da Itália e Alemanha e o capitalismo liberal da Inglaterra e Estados Unidos. Ao invés de olhar para as proezas de Churchill, Stalin e Roosevelt, Leonel Brizola ficou atento em Getúlio Vargas, o ditador sanguinário segundo a UDN e o partidão.

Leonel Brizola, ainda que não se declarasse marxista, tinha o anti-imperialismo em sua certidão de nascimento na política. Nesse aspecto diferenciou-se de Getúlio Vargas e João Goulart.

O triste paradoxo é que seu partido catecista, pragmático e oportunista, enterrou Leonel Brizola justamente por ter sido inimigo do imperialismo. Isso, segundo os novos dirigentes malandros do PDT, não daria voto, não elegeria ninguém, era suicídio político. Repete-se a mesma perfídia em relação à Rede Globo que foi perdoada por ter conspirado a favor do golpe de 64. Se Leonel Brizola fosse conivente aos interesses do doutor Roberto Marinho, teria sido eleito presidente da república. Ele teria errado ao denunciar a Globo como anti-povo e anti-nação.

Hoje a necrose bolsonara, com a sua volúpia evangélica de contar os cadáveres, vangloria-se de sua posição anti-Globo, como se isso fosse igual à atitude de Leonel Brizola, para quem a Rede Globo é um agente das perdas internacionais. Não se esqueça, gentil leitor, que Jair Bolsonaro foi engendrado pelo programa de auditório católico da TV Globo. Para além da aparência: Bolsonaro e Globo tudo a ver. A televisão, não só a TV Record do bispo Macedo, tem o maior xodó pelo vende-pátria Paulo Guedes. A julgar pela metodologia do historiador Leonel Brizola, a nata da TV Globo é de cabo a rabo Jair Bolsonaro.

A Rede Globo que votou em Geraldo Alckimin e votará em John Dorian, não acredita que o endolarado Henrique Meirelles seja antípoda do tabaréu mal vestido Paulo Guedes. Ambos representam os interesses das corporations. Não há a menor dúvida que, se vivo fosse, Leonel Brizola discursaria lá na praça Tiradentes que sem FHC não haveria jamais Jair Bolsonaro.

A verdade é que Leonel Brizola foi, como se dizia antigamente, um subversivo e dialético historiador. Em A história da Irlanda Engels dizia que a historiografia mais bem paga é a que melhor falsifica a história para atender os desejos e propósitos da burguesia. Não é preciso dizer mais nada, nem me foi perguntado.

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