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Os limites do poder chinês

20 Outubro Escrito por  Pepe Escobar Lido 512 vezes

face-homemTudo sobre a relação EUA-China depende do resultado das próximas eleições presidenciais americanas.

 

O Trump 2.0 essencialmente turbinaria a sua aposta na dissociação, visando espremer a China "maligna" numa frente de Guerra Híbrida múltipla, minar o excedente comercial chinês, cooptar grandes extensões da Ásia, insistindo sempre em caracterizar a China como a encarnação do mal.

A equipa Biden, ainda que não professe qualquer desejo de cair na armadilha de uma nova Guerra Fria, segundo a plataforma oficial dos Democratas, seria apenas ligeiramente menos conflituosa, ostensivamente "poupando" a "ordem baseada em regras", mas ao mesmo tempo mantendo as sanções impostas por Trump.
Muito poucos analistas chineses estão melhor posicionados para examinar o tabuleiro de xadrez geopolítico e geoeconómico do que Lanxin Xiang: perito em relações entre a China, EUA e Europa, professor de História e Relações Internacionais no IHEID de Genebra e director do Center for One Belt, One Road Studies de Xangai.

Xiang obteve o seu doutoramento no SAIS da [Universidade] Johns Hopkins e é tão respeitado nos EUA como na China. Durante um webinar recente, ele delineou uma análise que o Ocidente ignora por sua própria conta e risco.

Xiang tem-se concentrado no impulso da administração Trump para "redefinir um alvo externo": um processo que ele estigmatiza como, "arriscado, perigoso e altamente ideológico". Não por causa do Trump – que "não está interessado em questões ideológicas" – mas devido ao facto de que a "política da China ter sido sequestrada pelos verdadeiros Guerreiros Frios (Cold Warriors) ". O objectivo: "mudança de regime. Mas esse não era o plano original de Trump".

Xiang explode a lógica subjacente a estes Guerreiros Frios: "Cometemos um enorme erro nos últimos 40 anos". Isto é, insiste ele, "absurdo – lendo a História para trás e negando toda a história das relações EUA-China desde Nixon". E Xiang teme a "falta de estratégia global. Isto cria uma enorme incerteza estratégica – e leva a erros de cálculo".

Agravando o problema, "a China não está realmente segura quanto ao que os EUA querem fazer". Porque vai muito além da contenção – a qual Xiang define como "estratégia muito bem pensada por George Kennan, o pai da Guerra Fria". Xiang apenas detecta um padrão de "civilização ocidental contra uma cultura não caucasiana. Esta linguagem é muito perigosa. É uma reedição directa de Samuel Huntington e mostra muito pouco espaço para compromissos".

Em poucas palavras, este é o "modo americano de estatelar-se numa Guerra Fria".

Uma surpresa em Outubro?

Tudo isto está directamente relacionado com a grande preocupação de Xiang acerca de uma possível Surpresa de Outubro: "Poderia provavelmente ser sobre Formosa (Taiwan). Ou um enfrentamento (engagement) limitado no Mar do Sul da China". Ele enfatiza: "Os militares chineses estão terrivelmente preocupados. Outubro Surpresa como um enfrentamento militar não é impensável, porque Trump pode querer restabelecer uma presidência de guerra".

Para Xiang, "se Biden vencer, o perigo de uma Guerra Fria transformar-se em Guerra Quente será dramaticamente reduzido". Ele está muito consciente das mudanças no consenso bipartidário em Washington: "Historicamente, os republicanos não se preocupam acerca de direitos humanos e ideologia. Os chineses sempre preferiram tratar com republicanos. Não conseguem tratar com os democratas – direitos humanos, questões de valores. Agora a situação está revertida".

Xiang, a propósito, "convidou um conselheiro de topo de Biden para ir a Pequim. Muito pragmático. Não demasiado ideológico". Mas no caso de uma possível administração Trump 2.0, tudo poderia mudar: "O meu pressentimento é que ele estará totalmente descontraído, podendo mesmo reverter em 180 graus a política em relação à China. Eu não ficaria surpreendido. Ele voltaria a ser o melhor amigo de Xi Jinping".

Tal como está, o problema é "um diplomata chefe que se comporta como um chefe propagandista, tirando partido de um presidente errático".

E é por isso que Xiang não descarta sequer uma invasão de Formosa pelas tropas chinesas. Ele joga com o cenário de um governo taiwanês a anunciar, "Somos independentes" juntamente com uma visita do secretário de Estado: "Isto provocaria uma acção militar limitada e poderia transformar-se numa escalada". Pense acerca de Sarajevo. Isto preocupa-me. Se Formosa declarar a independência, os chineses invadem-na em menos de 24 horas".

Como Pequim calcula mal

Ao contrário da maior parte dos académicos chineses, Xiang é agradavelmente franco acerca das próprias deficiências de Pequim: "Várias coisas deveriam ter sido melhor controladas. Como abandonar o conselho original de Deng Xiaoping de que a China deveria aguardar o momento propício e manter um perfil baixo. Deng, na sua última vontade, havia estabelecido uma linha temporal para isso, pelo menos 50 anos".

O problema é que "a velocidade do desenvolvimento económico da China levou a cálculos impetuosos e prematuros. E a uma estratégia não bem pensada. A diplomacia "Guerreiro lobo" ( Wolf warrior) é uma postura – e uma linguagem – extremamente confiante. A China começou a inquietar os EUA – e mesmo os europeus. Isto foi um erro de cálculo geoestratégico".

E isto nos leva ao que Xiang caracteriza como "a extensão excessiva do poder chinês: geopolítica e geoconómica". Ele gosta de citar Paul Kennedy: "Qualquer grande superpotência, se demasiado estendida (overstretched), torna-se vulnerável".

Xiang chega ao ponto de afirmar que a Belt and Road Initiative (BRI) – cujo conceito ele louva entusiasticamente – pode estar demasiado estendida: "Pensavam que se tratava de um projecto puramente económico. Mas com tamanho alcance global?"

Assim, será a BRI um caso de extensão excessiva ou uma fonte de desestabilização? Xiang observa como, "os chineses nunca estão realmente interessados nas políticas internas de outros países. Não estão interessados em exportar um modelo. Os chineses não têm um modelo real. Um modelo tem de ser maduro – com uma estrutura. A menos que se esteja a falar de exportação da cultura tradicional chinesa".

O problema, mais uma vez, é que a China pensou que era possível "infiltrar-se em áreas geográficas às quais os EUA nunca prestaram demasiada atenção, África, Ásia Central, sem necessariamente provocar um revés geopolítico. Mas isso é ingenuidade".

Xiang gosta de recordar aos analistas ocidentais que, "o modelo de investimento em infraestruturas foi inventado pelos europeus". Os caminhos-de-ferro. O Trans-Siberiano. Canais, como no Panamá. Por detrás destes projectos houve sempre uma competição colonial. Nós perseguimos projectos semelhantes – sem colonialismo".

Ainda assim, "os planeadores chineses enterraram a cabeça na areia. Eles nunca usam essa palavra – geopolítica". Daí as suas constantes piadas com os decisores políticos chineses: "Pode não gostar da geopolítica, mas a geopolítica gosta de si".

Pergunte a Confúcio

O aspecto crucial da "situação pós-pandémica", segundo Xiang, é esquecer "essa coisa de guerreiro-lobo". A China pode ser capaz de relançar a economia antes de qualquer outro. De desenvolver uma vacina realmente eficaz. A China não deveria politizar isto. Deveria mostrar um valor universal sobre ela, perseguir o multilateralismo para ajudar o mundo e melhorar a sua imagem".

Sobre política interna, Xiang é categórico em que "durante a última década a atmosfera interna, sobre questões de minorias, liberdade de expressão, tem estado a enrijecer numa medida em que não ajuda a imagem da China como uma potência global".

Compare-se, por exemplo, com "pontos de vista desfavoráveis à China" num inquérito efectuado em países do Ocidente industrializado que incluía apenas dois asiáticos: Japão e Coreia do Sul.

E isso nos leva ao The Quest for Legitimacy in Chinese Politics de Xiang – indiscutivelmente o mais importante estudo contemporâneo de um académico chinês capaz de explicar e colmatar a divisão política Leste-Oeste.

Este livro é um feito tão importante que as suas principais análises conceptuais serão objecto de um artigo posterior.

A tese principal de Xiang é que "a legitimidade na filosofia política de tradição chinesa é uma questão dinâmica. Transplantar valores políticos ocidentais para o sistema chinês não funciona".

No entanto, como o conceito chinês de legitimidade é dinâmico, Xiang enfatiza, "o governo chinês está a enfrentar uma crise de legitimidade". Ele refere-se à campanha anti-corrupção dos últimos quatro anos: "A corrupção oficial generalizada, que é um efeito colateral do desenvolvimento económico, traz à tona o lado mau do sistema. Crédito a Xi Jinping, o qual compreendeu que se permitirmos que isto continue, o PCC perderá toda a legitimidade".

Xiang enfatiza que, na China, "a legitimidade está baseda no conceito de moralidade – desde Confúcio. Os comunistas não podem escapar a esta lógica".

Ninguém antes de Xi ousou enfrentar a corrupção. Ele teve a coragem de a erradicar, prendeu centenas de generais corruptos. Alguns até tentaram dois ou três golpes de Estado".

Ao mesmo tempo, Xiang está inflexivelmente contra o "endurecimento da atmosfera" na China em termos de liberdade de expressão. Ele menciona o exemplo de Singapura sob Lee Kuan Yew, um "sistema autoritário iluminado". O problema é que "a China não tem um estado de direito (no rule of law). No entanto, há muitos aspectos legais. Singapura é uma pequena cidade-estado. Como Hong Kong. Eles simplesmente tomaram o sistema legal britânico. Está a funcionar muito bem para aquela dimensão".

E isso leva Xiang a citar Aristóteles: "A democracia nunca pode funcionar em países maiores. Em cidades-estado, ela funciona". E, armados com Aristóteles, entramos em Hong Kong: "Hong Kong tinha um Estado de direito – mas nunca uma democracia. O governo era directamente nomeado por Londres. Foi assim que Hong Kong realmente funcionou – como um dínamo económico. Economistas neoliberais consideram Hong Kong como um modelo. Trata-se de um arranjo político único. A política dos magnatas (Tycoon). Sem democracia – ainda que o governo colonial não dominasse com uma aparência autoritária. A economia de mercado era a rédea solta. Hong Kong era dominada pelo Jockey Club, HSBC, Jardine Matheson, tendo o governo colonial como coordenador. Eles nunca se preocuparam com o povo na base".

Xiang observa como, "o homem mais rico de Hong Kong paga apenas 15% de imposto sobre o rendimento. A China quiz manter esse padrão, com um governo colonial nomeado por Pequim. Ainda com a política dos magnatas. Mas agora há uma nova geração. Nasceram pessoas após o handover [NR] – que nada sabem sobre a história colonial. A elite chinesa dominante desde 1997 não prestou atenção às bases e negligenciou o sentimento da geração mais jovem. Durante um ano inteiro os chineses nada fizeram. A lei e a ordem entraram em colapso. Esta é a razão porque os chineses do continente decidiram intervir. É disso que trata a nova lei de segurança".

E quanto ao outro actor "maligno" preferido na Beltway – a Rússia? "Putin adoraria ter uma vitória do Trump. Também os chineses, até há três meses atrás. A Guerra Fria foi um grande triângulo estratégico. Depois de Nixon ter ido à China, os EUA sentaram-se no meio a manipular Moscovo e Pequim. Agora tudo isso mudou".

Fonte: Resistir.info

Última modificação em Terça, 20 Outubro 2020 09:16
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