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"Demissões voluntárias" na Petrobrás levam à perda de capital intelectural e da memória técnica

08 Julho Lido 1853 vezes

O anúncio feito pela Petrobrás na semana passada (2),  informando que deve reduzir em 22% seu atual quadro de funcionários

por meio de programa de desligamento voluntário (PDVs), pode estar levando a empresa para uma  espécie de escola primária do petróleo e gás. É o que muitos acreditam. O percentual também inclui os desligamentos via Programa de Aposentadoria Incentivada (PAI), voltado aos empregados aposentáveis até 31 de dezembro de 2023. Os dois programas vão atingir 10.082 funcionários. Isso vai significar a perda repentina dos funcionários mais graduados e mais experientes que, na verdade, é a grande memória técnica da companhia, o seu grande capital intelectual. Aparentemente não está havendo uma transição, mas uma ruptura. Para sequência da companhia, pode não ser um fator positivo. A resposta da empresa é tecnocrata:  “ as medidas são parte das ações de resiliência, com objetivo de maximizar a geração de valor para os acionistas”. Só o PDV, encerrado no último dia 30, teve 9.400 inscritos. Os demais programas atingiram 670 inscritos.

O presidente da Petrobrás, Roberto Castello Branco, diz que os PDVs contribuem para a redução permanente da estrutura de custos, o que ajudará a empresa a enfrentar com sucesso um cenário de preços mais baixos do petróleo no longo prazo. Mas aí há uma antítese na política que ele está impondo em Sede da Petrobrassua própria administração. O seu desejo é que a Petrobrás seja apenas uma empresa de exploração e produção. Se ele reconhece que os preços do único ativo que a companhia terá no futuro serão deprimidos, para onde a empresa está sendo levada? Parece ser apenas um rascunho de apenas uma Trading, muito distante do que a empresa já representou para o país. A Petrobrás acredita que a redução de custo com o pessoal nos próprios cinco anos seja  em torno de R$ 4 bilhões por ano.  O retorno adicional menos o desembolso, as indenizações serão de aproximadamente R$ 18 bilhões até 2025, diz a empresa. O que se planeja é a empresa com um quadro reduzido a pouco mais de 28 mil dos 86 mil atualmente. Só o PDV 2019 somou 9.405 inscritos, o que representa 94% do total de funcionários elegíveis ao programa, que somam 22% do atual quadro de empregados.

E aí está surgindo uma nova Petrobrás, mudando a sua cultura. Os novos contratados estão trazendo conceitos  mais privatistas, como quer o presidente Castello Branco. É esta visão que o presidente sempre defendeu e aposta como futuro da empresa. Enxuta e com mais mobilidade. Para competir. Mas, se esse for objetivo, há uma nova antítese. Se ele quer a empresa competindo e ao mesmo tempo focada na venda de sua produção de petróleo, irá competir com quem, se os preços da commodities são estabelecidos por um mercado internacional? A  indústria do petróleo tem seus segredos e não é um mercado para qualquer arco e flecha. Esses segredos e, principalmente, os conhecimentos, estão saindo pela porta da frente da companhia,  se transformando em consultorias até de outras petroleiras. Mesmo aposentadas, há muito conhecimento desperdiçado.
O Petronotícias ouviu algumas pessoas deste mercado que podem mostrar um balanço real dessa situação. De dentro e de fora da Petrobrás. A maior parte falou e se identificou. Outras preferiram que não tivesse seus nomes divulgados. Vamos saber, em primeiro lugar, a opinião do Ex-diretor de Exploração e Produção, Guilherme Estrela, considerado o principal líder pela descoberta do pré-sal. Nome importante e muito respeitado na história da companhia:

“Ponto importante este levantado pelo Petronotícias. Vou contar um fato: se descobriram submersas  na parte oriental do Mar Mediterrâneo, estátuas e escombros de cidades gregas e de outras civilizações antigas. Razão: quando as cidades eram conquistadas por impérios inimigos a primeira coisa que faziam era destruir tudo o que encontravam e que representava a história e a cultura do império derrotado. Quando eram cidades no litoral, jogavam no mar para apagar da memória povo tudo aquilo que lembrasse o império conquistado.

Sabemos também a história mais recente da grande capital do Império Azteca – Tenochtitlán – conquistada pelos espanhóis no século XVI.  Hoje, Cidade do México. Os espanhóis derrubaram tudo, mas tudo mesmo que pudesse lembrar ao povo asteca escravizado o seu passado de glórias e civilização. Há décadas, a parte central da Cidade do México passa por uma gigantesca “exumação” que está a trazer à tona a grandiosidade da antiga capital imperial. Resumo desta ópera: se conquistares um império cujas marcas mais valiosas e por todos reconhecidas sejam para você uma ameaça à consolidação de sua vitória, não hesite em destruí-las, em apagá-las da memória de todos! É o caso desta horda de bárbaros que se apoderaram  da Petrobrás. E do Brasil.”
O empresário Nelson Romano, que já foi  Presidente da ABEMI, instituição que reúne grandes empresas privadas disse que:
“Devido o home office, não estou acompanhando de perto o processo e desconheço sua extensão, mas baseado em planos passados e da organização interna da Petrobrás, onde as pessoas fazem carreira em um estilo que lembra uma estrutura militar, sempre haverá pessoas aptas a substituir. Além disso, o controle do acervo técnico é excelente. Mais ainda com a empresa cada vez mais se tornando uma operadora no estilo privado, parte das atividades de engenharia por exemplo passará a se em ser feita por empresas especializadas. Enfim, numa visão pessoal do processo, não vejo riscos.”

A opinião que trazemos agora é de um ex- dirigente da companhia, recém aposentado,  com larga experiência em vários setores da empresa. Saiu como  Presidente da TAG, gasoduto estratégico, recentemente vendido, Rogério Mattos. O depoimento de Rogério   é  bastante consistente:
“ O PDV é um instrumento de RH para adequar o quadro da companhia às suas diversas metas de longo prazo. No caso da Petrobrás, as justificativas apresentadas seriam que:

a) a redução do quadro de empregados reduziria os custos fixos e, com isso, mais fôlego econômico para fazer frente à dívida da Cia;

b) adequar o quadro à redução das atividades da Petrobrás, decorrentes, principalmente, dos processos de alienação de ativos periféricos, de refinarias e de campos de E&P;

c) a irreversível mudança na matriz energética do mundo nos próximos 30 anos.

Todas essas justificativas se enquadram no viés ultraliberal do atual governo, que não vê valor em ter uma companhia nacional capaz de se gerir com autonomia interna a exploração e produção de petróleo e gás, a produção de derivados e o marketing e comercialização de derivados. Desta forma, o governo eleito divulga a ideia que todas essas atividades poderiam ser ainda mais eficientemente desempenhadas por empresas privadas, pois todos os produtos/derivados seriam commodities.

A contrapor tais argumentos, poderia se esgrimir que:

a) A Petrobrás tem reservas para mais de 12 anos de produção construída ao longo de muitos anos de esforços;

b) Descobriu a maior reserva de Petróleo nos últimos 15 anos;

c) A Companhia sempre atendeu à demanda do mercado sem falhas, mesmo nos períodos de crise;

d) Por muitos anos o petróleo e o gás serão ainda os principais insumos da matriz energética.

A Petrobrás convive há muitos anos com uma situação de hiato no desenvolvimento de suas equipes, fruto da falta de admissão de novos empregados desde meados da década de 80 do século passado até 2003. Assim, sempre foi uma grande preocupação dos gestores acelerar o treinamento dos novos concursados a partir de 2003, para fazer face às aposentadorias e às novas oportunidades de negócios em que a empresa resolveu investir. No caso do atual PDV, há uma clara descontinuidade na transmissão do conhecimento e da cultura da Petrobrás de ascensão por acúmulo de experiência e mérito.

A mencionada descontinuidade ocorre porque as gerências, mormente as intermediárias, não transitaram integralmente pela curva de aprendizado, tanto tecnicamente quanto gerencialmente. O desenvolvimento com sustentabilidade de uma companhia não pode bbtbtbtbfuncionar bem com todas as gerências em evolução, com cada uma delas em um ponto na curva de aprendizado, pois dessa forma, o resultado seria análogo ao da seleção natural, a qual não tem um norte a atingir. As gerências têm de operar com estabilidade e com ajustes constantes, pois quem tem de estar na curva de aprendizado são os empregados e não as gerências. Assim, considero que o processo atual da Petrobrás é de ruptura e não de transição. Considero ainda uma ruptura, porque há o empenho em desmontar a cultura de desenvolvimento e crescimento autônomo da Petrobrás e do Brasil, marco naqueles que estão ou estiveram na Companhia por mais de 30 anos, e substituí-la por uma outra cultura de homogeneização, voltada primordialmente à rentabilidade de seus acionistas.”

Um outro experiente empresário do setor de óleo e gás e energia, não vê o movimento da Petrobrás como uma ruptura. Ele prefere falar sem que o seu nome apareça: “Vejo como orientação de diminuir os recursos humanos. É uma adaptação. Com a venda de muitos ativos, a companhia vai ficar com muita gente sem missão. Por isso a preferência do desligamento de quem já pode se aposentar e outras que estão perto de se aposentar. Com a venda das refinarias, os que saírem, podem ser reaproveitados pelos novos proprietários. Esse movimento faz sentido porque é a adaptação de um novo cenário.”

Deyvid Bacelar, coordenador Geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP), acredita que esse movimento “Representa uma ruptura na gestão de pessoas, no RH da Petrobrás. Nós tínhamos um política de retenção de talentos e agora nós temos um processo de perda desse capital intelectual e da memória técnica dos talentos que nós temos na Petrobrás. Só para ter uma ideia, os PDVs de 2014, 2016 e 2019 colocaram para fora da companhia 17.600 pessoas. Dados do final do ano passado. Isso demonstra que há essa perda de capital intelectual, que esses trabalhadores adquiriram  é justamente o percentual de pessoas que está há mais tempo de casa que estão saindo. Em 2012, tivemos um percentual significativo de pessoas saindo com mais tempo de Petrobrás, 41% tinha mais de 20 anos de empresa. E em 2019 esse número cai para apenas 21 %. Em 2012, 52% tinha menos de dez anos de casa. Em 2019 ele cai para 25% devido ao fato de não termos mais concursos públicos sendo realizados. Você não tem uma reposição de pessoas e tem planos de demissão, entre aspas, voltarem. Estão colocando para fora quase 30 mil pessoas.

Nós temos ainda na empresa, cerca de  30%, o que daria pouco mais de 14 mil pessoas, com mais de 50 anos de idade. Algumas dessas  com um bom tempo de casa ainda. E em todas essas, sem exceção, podem sair nos próximos PDVs e até nesse plano da aposentadoria incentivada abertas.  Planos para pessoas  aposentáveis ou não. Pessoas que estão áreas que estão sendo privatizadas. Até esse restante das pessoas com maior experiência poderão sair agora. Aí alcançaria os números que o Castello Branco tem divulgado, que seriam 30 mil trabalhadores. Isso é algo criminoso em relação  ao capital intelectual, a memória técnica que a Petrobrás tem. Nós perderemos esse pessoal devido a esses planos, entre aspas, voluntário. Por que entre aspas? Porque nós temos áreas sendo vendidas, pessoas sendo  compulsoriamente transferidas, alguns com suas famílias instaladas, pessoas que já trabalham nessas regiões, filhos nas escolas. Sim, há uma ruptura que há nos recursos humanos  da empresa, na gestão da empresa, onde ao invés de se reter talentos, há um movimento contrário, que trarão um impacto nas áreas de desenvolvimento, de novas tecnologias e de conhecimento técnico da própria empresa.”

Luciano Seixas, geólogo aposentado da Petrobrás, muito atuante na Associação dos Engenheiros da companhia, um profissional de grande experiência e credibilidade, traz a sua opinião: “O programa de redução de pessoal é uma consequência da venda de ativos. E esse é o objetivo: vender totalmente os drfrrfrfrffrativos da companhia. A promessa do Castello Branco é diminuir a empresa. Primeiro, ele vendeu os dutos, depois a distribuição e por aí vai. O Castello Branco chegou a dizer que a Petrobrás era uma empresa limpa, mas está vendendo os ativos mais novos formados por energia limpa.

A lógica é privatizar a empresa. O primeiro passo foi a venda de ativos no midstream. Assim, ele cria um excesso de pessoal, porque os novos donos não ficarão com os empregados antigos. As pessoas vem sendo tentadas a ser cooptadas para assumir o novo modelo. E quem não assume inteiramente ou não se manifesta fica na lista de demissíveis. A companhia faz um terrorismo que vai demitir e depois propõe a demissão voluntária. As pessoas que estão com a corda no pescoço, naturalmente, aderem à demissão. Lógico que uma parte quer ser demitido, como os mais velhos e mais experientes. Depois, uma outra parte que não está satisfeita, também adere. Os aterrorizados aderem porque podem ter uma coisa pior mais tarde.

Com essas vendas de ativos de distribuição, a Petrobrás também vende ativos de pré-sal. Começou com o Pedro Parente, que vendeu Carcará. Depois, entrou o Castello Branco e vendeu um bocado de ativos do pós-sal e do pré-sal. Na atividade de exploração, em alguns replancampos, é normal você ter a primeira fase de produção com energia natural do reservatório e a segunda fase com EOR (Enhanced oil recovery), aumentando o fator de recuperação do óleo. Mas o que ele fez? Os ativos todos do pós-sal da Bacia de Campos foram vendidos. Ou seja, a Petrobrás está perdendo a cultura em EOR.

Quando você reduz o pessoal, você coloca profissionais bons e treinados com dúvidas na carreira. Aí faz uma política de cooptação de pessoal e outros, por idade, saem e ficam disponíveis para demissão. Como mais gente gerava mais recursos para cuidar da AMS [Assistência Multidisciplinar de Saúde]. Com mais funcionários, era preciso RH e uma infraestrutura para cuidar desse pessoal da linha de frente. Com as vendas, a Petrobrás diminui as atividades do pessoal de terra e sobra muita gente técnica. Depois, transfere essa gente técnica para o pré-sal e faz o terrorismo e doutrinação dentro da empresa.

Além disso, a Petrobrás tem obrigação de ter AMS para aposentado. O compromisso da empresa é um salário e a garantia de, FPSO_Cidade_de_Caraguatatuba_MV27quando você se aposentar, não ter que contratar um assistência médica particular. O que o Castello Branco está tentando fazer agora é apartar esses vínculos da empresa para poder torná-la enxuta e pronta para ser vendida.

A Petrobrás é ímpar e imbatível porque tem projetos bons e de alta produtividade no pré-sal. O preço dela para venda de petróleo é acrescido do preço de internação mais preço de importação. E sabemos que em petróleo, cabotagem é o que custa mais. As empresas estrangeiras grandes como a Exxon e a Shell tem ativos disponíveis no shale dos Estados Unidos e trazem esse óleo para o Brasil. Como os custos base do Brasil incluem esses preços de internação e de importação, a Petrobrás está perdendo o mercado no Brasil e propiciando a chegada de petróleo e de derivados de outros países.

Como outros países preferem exportar derivados, sobra petróleo que a Petrobrás produz. Esse petróleo, por sua vez, é exportado pela Petrobrás e deixa de refinar aqui no país. Tudo isso é um programa preparado para privatização da empresa e com forte política. Isso é uma política que vem acontecendo desde o Pedro Parente ou um pouco antes.

Depois que vender os ativos de midstream, vai vender os ativos no upstream, como já fez em alguns casos – Maromba, Papa-Terra, Lapa e outros. Ou seja, com o preço de petróleo baixo, ele vai se justificar e depois vender por um preço baixo. É a próxima etapa daqui a um ou dois anos. A ideia é vender os ativos e depois acabar com a Petrobrás. Isso eu não tenho dúvida. Ou então vão torná-la em uma empresa tão pequena que vai ser desprezível em termos de construção nacional.”

Fonte: Petronotícias

Última modificação em Quarta, 08 Julho 2020 08:48
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