Data:
06/06/2012
Fonte:
Revista Brasil Energia
Autor: Claudia Siqueira
Um funcionário no CA da Petrobras
Silvio Sinedino Pinheiro é o primeiro representante dos funcionários a ter assento no colegiado da maior empresa do país
Por Claudia Siqueira
Ocupando desde março uma das cadeiras do Conselho de Administração da Petrobras, Silvio Sinedino Pinheiro é o primeiro representante dos funcionários a ter assento no colegiado da maior empresa do país. Ele foi eleito com apenas 800 votos de diferença sobre o segundo colocado, num processo que mobilizou 22% dos funcionários da Petrobras.
Nesta entrevista à Brasil Energia, Sinedino se mostra insatisfeito com a falta de tempo dado às discussões de temas relevantes da empresa no CA. Ele conta detalhes dos bastidores de sua primeira reunião e adianta que não pretende se reeleger. “Acho que a pessoa dá a sua contribuição e passa a bola.”
BE) O que significa um trabalhador no Conselho de Administração da Petrobras?
SS) Ter um trabalhador no Conselho de Administração é novidade aqui, mas na Alemanha, por exemplo, até as empresas privadas já têm isso. Se não me engano, na Volkswagen é meio a meio. Aqui chama atenção, mas lá normal. Na verdade, é uma luta de muitos anos para conseguir essa “vaguinha” no conselho da Petrobras, e queremos ver se dá resultado, mostrar que isso vale a pena. Tem de fazer alguma diferença ter um trabalhador no CA da Petrobras.
BE) Como foi a eleição para o CA?
SS) Foi corrido demais, desde o início do processo, passando pela inscrição das chapas, até a eleição. Achamos que poderia ter sido feito com mais calma, mais tranquilidade. Sou ruim para guardar datas, mas diria que entre a inscrição e o início da eleição foi um mês, se tanto. Houve um grande problema, pois tivemos muitos candidatos ao posto. Qualquer funcionário pôde se inscrever. Ao todo, foram 135 candidatos no primeiro turno. Houve problema também porque a Petrobras não liberou o correio eletrônico dos funcionários. Então, as pessoas que não tinham apoio de sindicatos e associações não tinham como se comunicar, como fazer suas campanhas. Isso criou um transtorno grande, uma revolta dos candidatos individuais, sem vinculações. Para o segundo turno fomos eu e o Antonio de Moraes, coordenador da FUP. A FUP tem os endereços eletrônicos de todos os petroleiros, então, fez uma campanha maciça no primeiro e no segundo turnos. Isso também gerou muita revolta.
BE) Quando o sr. falou em um mês, isso inclui primeiro e segundo turnos?
SS) Sim, o segundo turno foi uma semana depois do primeiro. A propaganda do segundo turno entrou carnaval adentro.
BE) E como o sr. conseguiu superar a força da FUP?
SS) Não foi fácil, mas conseguimos. Primeiro, eu não era um candidato isolado, tinha o apoio do Sindipetro-RJ. No segundo turno, tive o apoio da Aepet (Associação dos Engenheiros da Petrobras), do Sindipetro-RJ e da FNP (Federação Nacional dos Petroleiros), que faz frente de oposição à FUP. No primeiro turno havia 12 sócios da Aepet concorrendo e, então, a associação resolveu que não apoiaria nenhum candidato explicitamente, mesmo que ele viesse a defender o estatuto da entidade, que é basicamente de defesa da soberania nacional, monopólio do petróleo e a defesa do corpo técnico. Todos os candidatos defendiam isso e, na realidade, não apoiamos ninguém. Acho que um dos motivos para nossa eleição foi justamente a FUP. Hoje existe um descontentamento muito grande da categoria com a FUP.
BE) A que o sr. atribui esse descontentamento?
SS) O problema é que desde que o ex-presidente Lula assumiu o governo, uma série de sindicalistas assumiu posições de gerência na Petrobras, e a FUP passou a ser um braço sindical do governo e da empresa. E houve um evento muito infeliz para a candidatura do Moraes, que foi a posse da presidente (Graça Foster). Tanto o Sérgio Gabrielli, que estava saindo, quanto a Graça, que estava assumindo, assim como a presidente Dilma Rousseff, todos citaram o Moraes em seus discursos, falando “nosso amigo Antonio de Moraes, da FUP”. Isso foi um tiro no pé. O pessoal entendeu que queria um representante dos trabalhadores, e não mais um “amiguinho” da direção da Petrobras e do governo. Isso pegou muito mal para eles.
BE) E o sr. ganhou com uma diferença de quantos votos?
SS) De 800 votos mais ou menos, em 13 mil votos ao todo.
BE) A diferença foi apertada.
SS) Não é muito mesmo. A participação na eleição foi baixa. O colégio eleitoral dessa eleição é de 58 mil. No primeiro turno votaram 16 mil, e no segundo, 13 mil e poucos.
BE) A que o sr. atribui esse desinteresse pela eleição?
SS) Primeiro, porque foi a primeira eleição desse tipo e, segundo porque ela foi voluntária, votou quem quis. O pessoal não fez muita fé, não achou que isso fosse fazer muita diferença. Essa é uma das responsabilidades desse primeiro mandato: mostrar que isso faz diferença. Uma das medidas do sucesso do meu mandato será o aumento da participação na próxima eleição. Se o quorum for pequeno na próxima eleição, então o pessoal realmente achou que não fez diferença e vai largar para lá.
BE) E dá para fazer diferença de fato?
SS) Não tenho a menor ilusão de que vamos democratizar a direção da Petrobras com a nossa ida para o conselho, somos um voto em dez. Há nove conselheiros indicados pelo governo e eu. Mas queremos mostrar que isso vai começar a dar transparência ao Conselho de Administração. O que for discutido lá deixa de ser uma caixa preta e, de alguma maneira,, vai ser mostrado para a categoria.
BE) Qual é o seu objetivo?
SS) Levar a visão dos trabalhadores para dentro do Conselho de Administração da Petrobras, que hoje não existe. Hoje estão representados o governo e dois acionistas minoritários, mas que teoricamente são também eleitos pelo governo. Os acionistas estrangeiros, inclusive, estão muito chateados com essa eleição dos representantes dos minoritários, que hoje são o Jorge Gerdau Johannpeter e o Josué Christiano Gomes da Silva, filho do ex-presidente José Alencar. Quem os elege são os votos do BNDESPar, da Petros e da Previ. Então, não podemos chamar isso de acionista minoritário. É tudo governo, quem manda nesses fundos é o governo. Posso dizer isso porque estou dentro da Petros, e quem manda lá é o governo. Os acionistas minoritários não se sentem representados. Tem nove conselheiros lá defendendo o governo e seus arranjos e eventualmente alguma participação do capital privado, do Gerdau e do Josué. Os acionistas minoritários não se sentem representados por essas pessoas. Na primeira assembleia da qual participei, em abril, houve uma tentativa de eleger um representante dos minoritários, mas não conseguiram isso. Acho que eles vão se organizar e vão acabar conseguindo eleger um representante que não seja eleito com esses votos controlados pelo governo.
BE) Mas há como fazer isso?
SS) Claro, desde que eles se organizem. Há acionistas privados com bastante votos. Eles podem ter condições de se organizar, de repente têm condições de eleger até dois conselheiros.
BE) Como será dar transparência a isso, como o sr pretende fazer?
SS) Não sou eu, eu não sou representante de mim mesmo. Represento minha categoria, e essa é uma das minhas preocupações principais: não perder o contato com a categoria. Inclusive, durante a campanha, criamos um fórum de acompanhamento e aconselhamento do mandato, que vai se reunir periodicamente para recebermos informações, sugestões de pontos de pautas e críticas à nossa própria atuação no conselho, para não perdermos esse vínculo. Queremos levar pontos para dentro que não estão sendo discutidos.
BE) A ideia é levar informações do conselho para os funcionários e dos funcionários para o CA?
SS) A proposta é dar essa transparência, sim, dizer como as coisas são discutidas lá, como são votadas. É lógico que tudo na medida do possível. Estamos no CA e sabemos que há informações sigilosas, que mexem com a Bolsa de Valores, então, temos de ter cuidado. Temos essa responsabilidade, mas na medida do possível vamos dar transparência.
BE) Não é uma tarefa árdua compor os interesses dos funcionários com os da companhia?
SS)A Petrobras não é uma empresa qualquer, ela não foi criada em gabinete, ela foi criada no meio da rua, a partir da luta “O petróleo é nosso”, entre as décadas de 40 e 50. Morreu gente na campanha. É uma campanha única. Uma outra campanha que pode chegar perto é a “Diretas Já”. A criação da Petrobras mobilizou a população e todos os partidos políticos de direita, esquerda, militares, comunistas.... A Petrobras foi criada popularmente, com uma visão social de desenvolver e tomar conta de um recurso estratégico que é o petróleo e desenvolver o país. Então a Petrobras tem essa responsabilidade social, ela não é uma mera geradora de lucro para os acionistas, tem um componente social muito forte de desenvolvimento do país.
BE) Isso se traduz em ritmo diferente?
SS) Sim. Por exemplo, não achamos que tem que desenvolver o pré-sal no ritmo dos interesses dos importadores de óleo. Os EUA tomam óleo de canudinho. Se explorarmos o pré-sal na medida da necessidade dos importadores, vamos esgotá-lo em 13 ou 15 anos. Isso não é o interesse do Brasil, mesmo porque a indústria nacional não tem condição de oferecer equipamento para explorar nessa velocidade. Dessa forma, vamos ter de importar todos os equipamentos. E essa exportação maciça de óleo vai trazer o problema da doença holandesa, ou seja, vai encher isso aqui de dólar e desindustrializar o país. Temos de ter muito cuidado. O pré-sal é uma dádiva, mas tem de ser explorado no ritmo do interesse da população brasileira, do desenvolvimento nacional. Temos de explorá-lo dando condição para que a indústria nacional possa produzir os equipamentos necessários. Assim desenvolvemos o país com um todo, não somente a área de petróleo, mas também criando uma indústria forte na área naval e de equipamentos, inclusive para poder exportar isso.
BE) E qual seria o prazo razoável, em sua opinião?
SS) Não sei dizer, sei que com certeza não é no ritmo que os importadores de petróleo gostariam. Até porque o petróleo é finito e estamos em fase de queda, segundo especialistas já passamos do pico da produção e hoje o petróleo está a US$ 120 o barril. Daqui a dez, 15 anos, o barril pode estar uns US$ 300. Então vamos exportar o nosso por US$ 120, para daqui a 20 anos importar por US$ 300? Vamos com calma nisso aí. Claro que o mundo não vai acabar quando o petróleo acabar. Nem o petróleo vai acabar, porque na medida em que vai ficando mais caro, viabiliza outros tipos de energia, logo vai existir petróleo durante muito tempo. Exatamente por isso, achamos que temos de ir com calma no pré-sal.
BE) O ritmo atual é razoável, em sua opinião?
SS) Acho que está um pouco açodado, mas na realidade o ritmo já caiu. A Petrobras não vem conseguindo atingir as metas de produção que aqueles planos quinquenais vinham propondo. As metas agora vão ficar mais modestas.
BE) Continuar pensando no país, após a quebra do monopólio, não é uma tarefa complicada, tendo em vista a abertura do setor?
SS) A Petrobras foi muito prejudicada nesse processo. A empresa tinha uma das maiores taxas de acerto em perfuração de poços no mundo. Por quê? Tínhamos toda a área para descobrir, por que iríamos em áreas de mais incerteza se podíamos ir em áreas de mais certeza? Perfurávamos com muita mais certeza e deixávamos as áreas mais incertas para depois. Com a abertura isso mudou. Agora a Petrobras adquire um bloco no leilão da ANP e tem um compromisso de fazer perfuração. Se ela escolheu o bloco por avaliar a possibilidade de haver algo ali mas durante o estudo sísmico, mais adiante, achar que não vale a pena perfurar, já era, ela tem o compromisso, mesmo que ache que não tem óleo. Isso é ineficiente para a Petrobras. Para mim, não houve e nem há nenhuma necessidade de abrir o mercado de petróleo.
BE) Mas a Petrobras cresceu durante o período de abertura.
SS) Mas a Petrobras não cresceu por causa disso. Querem fazer uma relação de causa e efeito, mas isso não tem qualquer ligação. Dizem que o pré-sal foi descoberto por causa da quebra do monopólio, mas não foi por isso. O pré-sal já vem sendo estudado há muito tempo, mas essas coisas têm um prazo de maturidade. Coincidiu que foi descoberto agora, mas não foi porque foi quebrado o monopólio. Ele teria sido descoberto de qualquer maneira.
BE) Mas teria sido em outro tempo.
SS) Não necessariamente. Isso já vinha sendo estudado há bastante tempo, mas são estudos demorados.
BE) Conciliar papel social em um mercado aberto não é tarefa hercúlea e perigosa à saúde financeira da empresa?
SS) Na realidade a Petrobras continua quase com o monopólio. As empresas não bancam vir pra cá sozinhas. Elas adoram fazer parcerias com a Petrobras. Claro, porque ela conhece a geologia como eles não conhecem, estamos aqui há 50 anos. Essas empresas são muito competentes, não vou colocar a competência desses grupos em questionamento, mas conhecemos o Brasil mais do que eles. Quem tem petróleo tem recurso. Como diz o professor (Carlos) Lessa, é melhor ter reserva em óleo do que ter reserva em dólar, que é papel pintado. O óleo tem valor real, estratégico, geopolítico. O país tem de se valer disso.
BE) O que representa esse assento no CA? Isso veio tardiamente?
SS) A história tem um ritmo. As coisas acontecem quando têm de acontecer Levamos muito tempo e conseguimos agora. Vamos conseguir avançar? Isso vai depender muito do resultado a ser alcançados nesse posto. Se daqui a um ano meu mandato for avaliado e se ver que não fez a menor diferença ter ou não um trabalhador no CA, isso vai cair no descaso. Mas se mostrarmos diferença, isso vai valorizar o mandato e inclusive pode pressionar para termos um trabalhador lá. A gente dependia dessa lei para ter essa representação? Não. Os fundos de pensão Previ e Petros não são dos trabalhadores? Então por que não poderiam usar os seus votos para eleger um trabalhador para o conselho? Inclusive numa outra situação: por que a lei que criou essa vaga proíbe que a gente discuta qualquer tema ligada a recursos humanos, inclusive fundos de pensão? Somos contra isso e vamos tentar mexer nisso no Congresso, é um problema de lei.
BE) De fato, como representar os funcionários da companhia se na questão essencial para eles o sr. não poderá ter voto?
SS) O interesse dos funcionários da Petrobras não está apenas relacionado a recursos humanos, não é apenas o nosso umbigo. Enquanto cidadãos, temos um interesse estratégico na Petrobras, que é exatamente essa visão social. Estamos aqui defendendo que a Petrobras tenha essa visão social. Isso é estratégico para os funcionários. De mais a mais, por exemplo, na reunião de abril, fiquei muito surpreso, porque as reuniões são muito corridas, são curtas, com muitos assuntos. Não é algo feito com calma.
BE) Quantas pautas foram apreciadas nessa reunião?
SS) Foram de oito a dez, e o presidente do conselho é o ministro (da Fazenda) Guido Mantega, que é super apressado, cheio de outros compromissos. Ele chegou muito atrasado nessa reunião. Nesse tempo em que ele não estava foi ótimo, porque tive tempo de conversar informalmente com os outros conselheiros que estavam lá. É assim que vamos tentar colocar nossas pautas de RH, informalmente, conversando, passando material. Essa vai ser nossa abordagem: comer pelas beiradas.
BE) Por que o sr. é contrário à essa exclusão dos temas de RH?
SS) Não concordamos com o fato de não podermos participar dessa discussão, porque quem mais entende do assunto são os trabalhadores. Não vamos sugerir um aumento de 500%, que seria ridículo e mesmo que eu propusesse isso seria nove votos a um e acabou. Mas queremos levar à discussão, não é o voto, não estou preocupado com isso, mas sim com levar as questões dos trabalhadores. O nosso plano de cargos e salários está destruído. Já não era bom quando foi feito, há uns quatro cinco anos. A Petrobras tomou uma série de medidas na área de recursos humanos, e o plano, que já era ruim, foi destruído. A Petrobras chegou a um ponto em que os engenheiros que entravam não estavam ganhando o piso exigido pelo Crea. O absurdo da questão é a discussão se a Petrobras paga ou não o piso da categoria. Para uma empresa do porte da Petrobras, isso tinha de ser indiscutível. Estávamos perdendo muitos funcionários, eles entravam, faziam um curso e saiam. Então a Petrobras acelerou a carreira deles. Agora, nos últimos cinco ou seis anos a empresa deu uns cinco a seis níveis nas carreiras para tentar tirar os caras do salário baixo, independente do mérito das pessoas. Mas isso destruiu o plano de cargos e salários, porque o pessoal de baixo subiu e se juntou com o pessoal de cima, o que se tornou uma situação crítica.
BE) A intenção é brigar para que o sr. possa ter acesso a essa discussão?
SS) Sem dúvida. Vamos tentar nesses papos paralelos com o conselho, sensibilizando os membros para essa questão dos trabalhadores e passando material para eles tomarem conhecimento. A outra abordagem é junto ao Congresso, para alterar essa lei. Será que quando se discute a indústria naval o sr. Jorge Gerdau Johannpeter, que pode vender o aço, não participa dessa votação? Se não participa está errado, porque ele é o cara que mais entende de aço, por que ele não pode participar?
BE)Além de ser corrida, quais foram suas outras impressões da primeira reunião?
SS) Isso foi o que eu achei pior.
BE) Mas normalmente as reuniões são longas, não?
SS) A reunião estava marcada para as 10 horas, depois passou para meio-dia, com previsão de término às 15h30. No final das contas, começou por volta de 14h30 e acabou às 17h30. Acho muito pouco tempo. As reuniões deveriam merecer pelo menos um dia. É muita coisa para ser discutida.
BE) E temas relevantes, na grande maioria.
SS) Pelo que vi, o que acaba passando é a posição da direção executiva, que alimenta o conselho com as informações. Aquilo que é aprovado pela direção é mais ou menos o que é trazido para o CA. Posso estar sendo leviano, pois assisti apenas a uma reunião (quando esta entrevista foi feita), mas acho que acaba prevalecendo a decisão da diretoria. Porque não há tempo para discutir questões complexas. Não é só chegar lá, bater o martelo e sair. Tem temas que merecem uma discussão mais aprofundada.
BE) Entre os temas econômicos, qual é a sua grande preocupação?
SS) Uma delas é não deixar a Petrobras ser sufocada pelo congelamento dos preços dos combustíveis. Isso é um absurdo, energeticamente falando. Você vai nas capitais do país e todas estão congestionadas, com trânsito infernal e carros levando uma pessoa. A gasolina é muito barata, isso incentiva o desperdício de energia, e para piorar compra-se um carro hoje a perder de vista. Isso é uma visão equivocada, isso é um desperdício. O petróleo é algo nobre para ser usado para passeio. O governo tinha de investir em transporte público. Quando você vê a taxa de crescimento do metrô na China e a compara com a do Brasil, é ridículo. Não há incentivo a isso aqui, e as cidades ficam insuportáveis, porque o Brasil está fabricando 3,5 milhões de automóveis por ano. As ruas não crescem.
BE) Há outros temas?
SS) O ritmo da exploração do pré-sal dentro do interesse da sociedade brasileira. Não falo isso só como petroleiro, eu me sinto de alguma maneira também um pouco representante da sociedade. Outro tema importante para nós são os campos maduros. Há muito tempo eles são a bola da vez, inclusive dos políticos do Nordeste, defendendo que isso é muito pequeno para ser explorado pela Petrobras, para deixar isso. Mas achamos que não, porque isso é um problema sério. Se a Petrobras se retira, a primeira coisa: os empregos desaparecem. Porque os caras vão querer explorar os campos lá o mais rápido possível, da maneira mais atabalhoada, com custo mais barato. A atuação social será nenhuma, zero. Eles estão preocupados é com o lucro deles. Então nossa preocupação é que os campos maduros não sejam entregues. Eles ainda dão lucro para a Petrobras, e existe uma atuação social nessas áreas, onde a população é muito pobre. Além disso, são um laboratório vivo para desenvolver técnicas secundárias e terciárias de recuperação de petróleo. Podemos experimentar lá, já desenvolvemos várias técnicas nessas áreas.
BE) Mas não há áreas com porte incompatível com o atual tamanho da Petrobras?
SS) Somos defensores do monopólio do petróleo. Então, não tem nem o que falar.
BE) Mas como casar isso com os interesses dos acionistas privados?
SS) Não achamos que é antagônico. Eventualmente os acionistas privados podem ser prejudicados, sim. Se a Petrobras tem essa atuação social, lógico que ela vai dar menos lucro do que se tivesse visando só lucro. Mas as pessoas são livres para comprar as ações da Petrobras ou não. Aliás, o preço das ações está muito abaixo do que achamos que deveria ser.
BE) A que o sr. atribui isso?
SS) Ao descontentamento com a política de desenvolvimento da Petrobras, com sua geração de lucro. Acho que os acionistas não estão muito satisfeitos. Inclusive com a própria interferência do governo no preço do combustível. Isso também afasta. Mas acionista que compra ação da Petrobras tem que entender que é uma estatal. Não dá pra querer o comportamento de uma empresa privada.
BE) Mas o governo só tem 48% do capital total, isso é ser estatal?
SS) Claro, sem dúvida nenhuma. Apesar de ter só 48% do total, o governo tem o controle e exerce isso. Por exemplo, controlando o preço do combustível. Achamos que não é a forma mais adequada, mas é a forma pela qual o governo está se manifestando, e é um direito dele. Ele é dono da empresa, é uma estatal. Então alguém compra a ação, e querer que seja igual à Exxon, à Shell, não vai ser, são empresas que têm outro critério.
BE) O sr. é membro do Conselho Fiscal da Petros há cerca de três anos. Que diferenças existem entre os dois conselhos?
SS) Dá para fazer uma comparação bem clara, apesar de eu não ser do conselho deliberativo da Petros. No conselho da Petros, para pautar um assunto você precisa ter a maioria do conselho. Como são três eleitos e três indicados pela Petrobras, que é a principal patrocinadora do fundo no conselho, o desempate é deles, e só é pautado o que eles querem. O conselho da Petrobras é mais democrático. Na Petros, podemos estar há anos com pontos importantes, mas eles não deixam colocá-los na pauta.
BE) No CA da Petrobras o sr. pode levar pautas, desde que não ligadas à área de RH.
SS) Posso levar também de RH, só não tenho voto e nem acesso à discussão. Com o voto não me preocupo, o problema é argumentação. Isso é o que acho absurdo na lei. Não poder votar no meu próprio aumento está certo, mas não poder discuti-lo... não vejo sentido. É a mesma situação que falei do Gerdau antes. Acho que ele pode participar, pois tem a visão do produtor de aço, pode colocar isso, afinal de contas, será um voto em dez. Se ele conseguir convencer todo mundo a votar com ele, ótimo. O que não pode é ele só, tomar a decisão de acordo com os seus interesses. Assim como não estou pedindo isso para mim. Mas acho que é válido que o Gerdau vá discutir o aço, quem entende mais do que ele? Trazer um conhecimento que o conselho não tem. É isso que queremos fazer.
BE) Como foi sua integração com os conselheiros? Como ganhar a confiança dos membros sendo um sindicalista?
SS) Com seriedade de atuação. Mostrar que não estamos para brincar, para fazer gracinha, simplesmente marcar posição, que estamos ali pelo desenvolvimento da Petrobras. Não sou conselheiro dos trabalhadores, sou da Petrobras, e o desenvolvimento da companhia é responsabilidade de todos os conselheiros. Só que entendendo que esse desenvolvimento passa pelo atendimento de algumas reivindicações dos trabalhadores, especialmente na área de meio ambiente, de conservação e segurança de plataformas. Em segurança temos tido muitos problemas, volta e meia morre gente, e achamos isso inadmissível. É interessante ir o aeroporto de Macaé e ver a tensão que é o embarque e o desembarque, é muito estranho. As pessoas não se sentem nada seguras. No ano passado 13 plataformas foram interditadas, e sabemos que as plataformas têm problemas de manutenção, já são velhas. São pontos que pretendemos botar na pauta do conselho.
BE) Mas, afinal, tirando o tempo, a reunião foi o que o sr. esperava?
SS) Tive boa impressão dos conselheiros, mas não tive boa impressão da reunião. O tempo em que ficamos conversando foi muito legal, a troca de opiniões... O Gerdau mesmo é um homem que entende muito da economia nacional. É claro que tem uma visão capitalista da economia, mas é muito competente. O papo foi muito bom. Mas a reunião me frustrou. A tirar pelas reuniões do conselho da Petros, debatemos os temas com muito mais profundidade. Fomos prejudicados porque recebemos a pauta da reunião apenas dois dias antes. O regimento diz sete dias, mas soube que nunca acontece assim, e isso é algo que pretendia discutir na reunião. Pretendia fazer isso já nessa primeira reunião, mas foi tudo tão corrido, não deu para falar quase nada.
BE) O seu mandato é de quanto tempo?
SS) De um ano, como de todos os conselheiros.
BE) Mas normalmente os mandatos são renovados.
SS) Sim, mas esse não é o meu caso. Posso ser renovado, mas não quero. Sou contra reeleição. Acho que a pessoa dá a sua contribuição e passa a bola.
BE) Mas um ano não é muito pouco para o sr. fazer a desejada “diferença”?
SS) É, mas sou otimista. Acho que a gente vai fazer diferença, pelo menos mostrar que há espaço para fazer diferença. E o próximo toca isso.
BE)Haverá nova eleição para escolher seu substituto?
SS) Sim, mesmo que quisesse me reeleger, tem que ter eleição.
BE) E quando deve ser deflagrado o novo processo?
SS) Imagino que a Petrobras não vai repetir a correria dessa vez, não há necessidade.
BE) O sr. se sente confortável e seguro para deliberar sobre grandes projetos da Petrobras?
SS) O que acontece na Petrobras é que os funcionários sabem o que acontece na empresa. Sempre tem alguém da Petrobras que entende do assunto que será discutido no conselho. Então vamos tentar buscar essas pessoas para discutir esses assuntos que elas sabem e levá-los para o conselho.
BE) Então o sr. não vai trabalhar sozinho, vai buscar quem conhece o tema a ser discutido.
SS) É, não sei de tudo. O que entendo é pouco, então vou buscar a visão do pessoal que entende. Não só a visão da diretoria para esse assunto, mas a de quem está fazendo.
BE) O clima na reunião é bom?
SS) Eu não gostei muito.
BE) A presidente da Petrobras, Graça Foster, participa ativamente da reunião?
SS)Demais. Ela participa direto, é da personalidade dela, ela entrou em tudo.
BE) E por que você não gostou do clima?
SS) Porque estou acostumado a discutir as coisas. Não estou acostumado a passar rodo. Faltou discussão, pelo menos dessa vez. Não sei há quanto tempo esses pontos estavam na pauta, se eles já vinham discutindo. Mas senti falta de mais detalhes. Por exemplo, a apresentação de um tema a ser apreciado está prevista para ser feita em 1 hora e 20 minutos, com o atraso passou para meia hora. É realmente complicado.
BE) Os nomes dos novos diretores foram aprovados por unanimidade?
SS) Não, me abstive tanto no diretor de Abastecimento (José Carlos Cosenza) quanto no de Engenharia (então Richard Olm). Não os conheço, não vou votar neles.
BE) O sr. se absteve de algum outro voto?
SS) Eu me abstive em mais uns dois assuntos. Um deles foi a recondução do chefe da Ouvidoria, Paulo Otto von Sperling. Temos muita reclamação da ouvidoria. Sei que o papel do ouvidor não é executivo, mas tem que ter conseqüência. Muita gente reclama que ele só ouve.
BE) O fato de o sr. ser um representante dos funcionários provocou alguma saia-justa durante a reunião?
SS) Eu me sinto muito a vontade lá, muito confortável. Eles todos ali têm alguma dependência. Não tenho nenhuma, de ninguém. Tenho compromisso apenas com quem me elegeu. Eles têm compromisso com o governo. A gente nota, por exemplo, que as pessoas da Petrobras não estão satisfeitas com esse congelamento de preços impostos aos combustíveis. Eles sabem que isso é prejudicial para a empresa. A Petrobras paga para importar, pega o combustível e vende mais barato. Eles não podem falar isso, eu posso. Eu sou uma pessoa à vontade, não sou arrogante, muito pelo contrário, sou humilde, mas não abaixo a cabeça. Sou uma pessoa altiva, modéstia a parte. E tenho garantia de voto. Estou tranquilo lá, não me impressiono com a Graça, com a braveza dela, com nada.
BE) Ela foi brava?
SS) Comigo não, mas foi brava com os subordinados. Eu vi que ela traz as pessoas ali num canto chorado, como se diz em alguns lugares do país. Até entendo a preocupação dela.
BE) O sr. já tinha tido contato anterior com ela?
SS) Não, foi a segunda vez em que estive com ela. Antes foi na posse, porque sou presidente da Aepet e fui convidado. E depois tive mais uma reunião com ela, para falar de um tema que não foi discutido no Conselho de Administração, que foi limado no final por falta de tempo. Pedi para conversar com ela mais dez minutos e conversei.
BE) E qual era o ponto?
SS) A greve do Comperj. Conversei com ela porque um diretor teria colocado há umas semanas que o problema da greve era das construtoras (a declaração foi dada pelo então diretor de Abastecimento, Paulo Roberto Costa). Não concordo com isso, porque a obra que está atrasando é da Petrobras. Esse tipo de coisa cria um constrangimento para ter um aditivo. “A obra está atrasada, então precisamos de um aditivo.” Isso conspira contra o interesse da companhia. É do interesse dela que não tenha essa greve, então a companhia tem de intervir de alguma maneira.
BE) E ela foi receptiva?
SS) Foi. Ela é executiva, entendeu? Eu pedi dez minutos, falei dez minutos.
BE) Ela é executiva e o Silvio, é o quê?
SS) O Silvio é um ativista (risos).