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    A vida após o Capitalismo

    Data: 23/02/2011 
    Fonte: Project Syndicate
    Autor: Robert Skidelsky

    Professor Robert Skidelsky

     

    Londres – Em 1995 publiquei um livro chamado O Mundo Após o Comunismo ( The World  After Communism ).  Hoje eu penso se haverá um mundo após o capitalismo.

     

    A questão não é conseqüência da pior crise econômica desde 1930.  O Capitalismo sempre viveu crises, e sempre viverá enfrentando-as. Contudo, ele vem do sentimento de que a Civilização Ocidental está crescentemente insatisfeita amparada em um sistema de incentivos que são essenciais para a acumulação da riqueza, mais mina a capacidade de desfruta-la.  O Capitalismo pode estar próximo de exaurir sua capacidade de criar uma vida melhor – pelo menos nos paises mais ricos.

    Por “melhor”, quero dizer eticamente, não materialmente.  Ganhos materiais continuarão, não obstante evidências mostrarem que elas não satisfazem mais as pessoas. Minha insatisfação é com a qualidade da civilização na qual a produção e o consumo de bens desnecessários tornou-se a principal ocupação das pessoas.

    Isto não é para denegrir o capitalismo. Isto foi, e é, um sistema soberbo para superar a escassez.  Em organizar a produção com eficiência, e dirigi-la no objetivo do bem estar ao contrario do poder, ele tirou  uma grande parcela da população do mundo para fora da  linha de pobreza.

    O que aconteceu a este sistema quando a escassez evolui para a fartura?   Ele deve continuar em produzir mais do mesmo, estimulando alegrias, excitação e apetites com novas quinquilharias.  Quanto tempo isto poderá durar?  Passaremos o século vindouro chafurdando em trivialidades?

    A maior parte do século passado, a alternativa ao capitalismo foi o socialismo. Mas o socialismo na sua forma clássica fracassou – como tinha que fracassar.  A produção estatal é inferior a produção privada por diversas razões, não apenas por destruir a oportunidade de escolha e variedade. E, desde o colapso do comunismo, não há uma alternativa valida ao capitalismo.  Alem do capitalismo, parece, alongar-se a visão do..... capitalismo.

    Sempre houve uma grande questão moral acerca do capitalismo, a qual pode ser deixada de lado visto o capitalismo ser tão bem sucedido em gerar riqueza.  Hoje, quando já quase temos toda a riqueza de que necessitamos, estamos certos em pensar se custo do capitalismo vale o que ele impôs.

    Adam Smith, por exemplo, reconheceu que a divisão do trabalho imporia as pessoas o embrutecimento visto tirar-lhes fora de suas especializações.  Embora, reconhecesse que era um preço a pagar – possivelmente compensado pela educação – que valha pagar, visto a expansão do mercado aumentaria o crescimento da riqueza.   Isto o tornou um defensor fervoroso do livre comércio.

    Os apostolos do comércio livre hoje apresentam o caso como quase da mesma forma como Adam Smith, ignorando o fato de que a riqueza expandiu-se enormemente desde os dias de Adam Smith.Tipicamente, eles admitem que os custos do trabalho livre, mais alegam que  os programas de                                                                re-treinamento e re-capacitarão  prepararão os trabalhadores em novos empregos“de maior valor “.             

     Isto significa afirmar que mesmo em paises ricos ( ou regiões ) não necessitam mais os benefícios do comércio livre, eles devem continuar a sofrer seus custos.

     Defensores do atual sistema alegam: nós deixamos estas decisões para os indivíduos fazerem por eles mesmos. Caso as pessoas desejem sair  deste ciclo cruel, elas estão livres para faze-lo.  E um número crescente o faz de fato.  A democracia, também, significa

    a liberdade em colocar o capitalismo para fora do escritório.

    A resposta é poderosa, porém é ingênua. As pessoas não optam pelo isolamento.  Suas escolhas são moldadas pela cultura dominante em suas sociedades.  Realmente uma pressão constante ao consumo não leva a nenhum reflexo em preferências?  Nós banimos a pornografia e restringimos a violência na TV, acreditando que elas influenciavam negativamente as pessoas, embora acreditemos que a publicidade ao consumo de produtos afeta apenas a demanda e sua distribuição, mas o total?

    Defensores do capitalismo algumas vezes argúem que o espírito de adquirir é tão profundamente arraigado na natureza que nada pode elimina-lo.  Contudo, a natureza humana é cheia de paixões conflitantes bem como de possibilidades.   Sempre foi função da cultura ( inclusive da religião ) encorajar algumas e desestimular outras.

    Não obstante, o “ espírito do capitalismo “ adentrou os negócios humanos bem mais tarde na história.  Antes dele, os mercados de compra e venda eram balizados por restrições de ordem legal e moral.  Uma pessoa que devotasse sua vida a ganhar dinheiro não era tida como um modelo de moralidade.  Ganância, avareza e inveja estavam entre os pecados capitais  a usura ( ganhar dinheiro pelo dinheiro ) era uma ofensa a Deus.

    Somente no século dezoito foi que a ganância tornou-se moralmente respeitável. Atualmente é  oconsiderada um Prometeu saudável transformar a riqueza em dinheiro e coloca-lo para fazer mais dinheiro, pois ao faze-lo o individuo esta beneficiando a humanidade.

    Isto inspirou o modo de vida americano ( American way of life ), onde o dinheiro  fala mais alto.  O fim do capitalismo significa  simplesmente o fim da urgência em prestar atenção a ele. As pessoas começarão a desfrutar aquilo que elas possuem, ao invés de sempre quererem mais. Pode-se imaginar uma sociedade de proprietários privados da riqueza, cujo objetivo principal é desfrutar vidas saudável, ao invés de transformar sua riqueza em “capital”.

    Serviços financeiros encolherão, porque os ricos nem sempre quererão tornar-se mais ricos.  Quanto mais e mais pessoas sentirem-se satisfeitas, devemos esperar que o espírito do lucro perca sua aprovação social.  O Capitalismo já terá concluído seu trabalho, e a motivação do lucro estará na galeria das coisas passadas.

    O descrédito da ganância ocorre somente naqueles paises cujos cidadões têm mais do que necessitam.  E mesmo lá, muitas pessoas ainda tem menos do que necessitam.  As evidências sugerem que as economias estarão mais estáveis e os cidadões mais felizes se a riqueza e os ganhos forem melhor distribuídos.  As justificativas econômicas para maiores desigualdades de ganhos – a necessidade a estimular as pessoas a serem mais produtivas – colapsem quando o crescimento cessar de ser tão importante.

    Talvez o socialismo não seja uma alternativa ao capitalismo, mais seu herdeiro.  Ele herdará a terra não por retirar dos ricos suas propriedades, mas prover motivos e incentivos por comportamentos que estão desconectados com futura acumulação de riqueza.

       

    Robert Skidelsky é membro da Casa dos Lordes, é Professor Eméritus of Political Economy at Warwick University, autor de uma biografia premiada do economista John Maynard Keynes e membro da Moscow School of Political Studies.             

         



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