Rio de Janeiro,
Coluna do Associado

Foi-se um Gigante Brasileiro

Data: 19/08/2010 
Autor: Edson Monteiro

Tristeza nacional é o que me soa a alma diante da despedida a esse baluarte que, com voz calma e pausada, mas dotada de uma convicção contagiante, mostrava-nos a vergonha da insensatez do capital e da fragilidade cívica de um povo exposto ao que lhe exigem, há séculos, os dominadores de sempre.

Ainda outro dia, apoiando-se em meus ombros — como faziam os colegas adolescentes de minha juventude — ele, bastante debilitado, fez o trajeto entre o Clube de Engenharia e a AEPET. A cada três ou quatro passos, ofegante, pedia para parar e me dizia que a idade não perdoa... Depois, voltando a caminhar, reagia à minha sugestão de recolher-se por uns dias: `Nada disso, companheiro, a luta é inglória, mas irrecusável`.

Heitor Pereira [foto] merece a reverência nacional. Foi um gigante que tudo fez à frente de sua AEPET para torná-la, definitivamente, trincheira da verdade a favor da Nação. Sua partida deixa uma lacuna de difícil preenchimento, na AEPET, que presidia, no Clube de Engenharia, onde se fazia presente e atuante no Conselho Diretor, e em todos os segmentos da sociedade civil brasileira que viam nele um brasileiro comprometido com o interesse do povo.

Como amigo e admirador de seu denodo, curvo-me diante do inevitável, sentindo a dor da perda e augurando que os seus caminhos futuros — se, de fato, existem para que por eles prossigamos eternamente — sejam repletos da esperança que ele demonstrou sentir quando, confrontando-se com a realidade dura de uma alienação cultural e cívica, insistia na tentativa de esclarecer, abrir os olhos, confiante em que a sociedade brasileira venceria os obstáculos impostos pela colonização teimosa e de variados matizes que a agride, roubando-lhe os bens naturais e limitando os seus direitos. Heitor, com toda simplicidade, confiava que a informação isenta lastreada na consciência cultural — como meio e não como galardão — era o único tributo a pagar para o resgate à liberdade. Sua passagem pela presidência da AEPET é prova inconteste disso.

Se nada me fosse perguntado sobre sua luta, por desnecessário, eu ainda ousaria lembrar um de seus últimos feitos. Foi Heitor Pereira um dos que denunciaram, em primeira mão, o absurdo do edital que excluía a Petrobrás — na 8ª rodada dos leilões da ANP — de concorrer aos blocos promissores do hoje conhecido pré-sal: um desvio inconstitucional, que escondia intenções que amarguravam o gigante. Sua voz ecoou e o leilão foi suspenso.

Quais, dentre nós, nos postaremos em sua trincheira de luta, no mínimo para honrar sua memória? Oxalá sejamos muitos, para o bem da Nação e um futuro digno de seu povo. Adeus, gigante!

Edson Monteiro é engenheiro e escritor.

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