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O Futuro da Petrobras

Data: 03/02/2017 
Autor: Eugênio Miguel Mancini Scheleder

O mundo está mudando e a velocidade das mudanças é cada vez maior. O motor dessa transformação é a inovação tecnológica e o setor de energia não será exceção. No caso da indústria do petróleo, as transformações deverão ser muito mais profundas do que poderíamos imaginar.  

 

É difícil prever como os preços do petróleo vão evoluir, mas, muitos analistas acreditam que teremos um longo período de preços mais baixos. No curto prazo, parece que o mercado será regulado pela disputa de market share entre os países da OPEP e os produtores de óleo de xisto norteamericanos. No futuro mais distante, no entanto, é previsível uma progressiva redução da demanda, em face de pressões ambientais, da competição com as energias limpas e o gás natural, na geração de eletricidade, e da introdução do veículo elétrico no mercado.

 

As taxas de elevação das temperaturas do Ártico foram duas vezes maiores que as das temperaturas globais nos últimos anos. O mundo começa a levar a sério a ameaça das mudanças climáticas e o acordo de Paris, que acompanhará os cortes de emissões dos países signatários, entrou em vigor em outubro. Os custos, em escala industrial, da energia solar e de outras fontes “limpas”, caíram para níveis que as tornam as fontes de eletricidade mais baratas em muitos locais. No ano que passou, o mundo instalou mais energia solar do que à base de combustíveis fósseis.

 

. A indústria automobilística evolui para a produção de veículos elétricos e os principais fabricantes lançarão sua produção dentro dos próximos 5 anos. Hoje, os VEs representam 1% da frota automotiva mundial, porém, com muitas opções para escolher e a nova geração de VEs com autonomia para 200 milhas, a demanda deverá aumentar. Nos EUA, o primeiro VE de 200 milhas em carga única, o General Motor's Bolt, foi lançado em dezembro e será seguido, neste ano, pelo modelo 3 da Tesla. Os preços vão cair, fruto da evolução tecnológica e da competição entre os modelos que serão lançados no mercado.

 

            As companhias petrolíferas estão mais conscientes das mudanças que virão e buscam novos modelos de negócios para integrar e diversificar suas atividades. Em novembro, dez das maiores petroleiras do mundo anunciaram um fundo de US$1 bilhão para investir em tecnologias de captura de carbono e eficiência energética. A Exxon Mobil e a Shell também têm portfólios de investimentos que utilizam células de combustível para capturar as emissões das usinas.  Já a Total decidiu investir na integração vertical de suas atividades, do poço ao posto, visando adicionar maior valor aos seus produtos. Petroquímicos e fertilizantes são, também, opções de agregação de valor ao petróleo, num mercado que se tornará extremamente desvantajoso para os produtores não convencionais.

 

Este é o futuro no qual a Petrobras estará inserida. É sabido que a empresa colocou ativos à venda, para equacionar o seu endividamento, prevendo desinvestimentos no valor de US$19 bilhões até 2018. Que ativos alienar é um tema estratégico e, seguindo o exemplo das congêneres, a seleção deveria ser feita com o cuidado de (i) manter a integração vertical, do poço ao posto, para valorizar os produtos e garantir o acesso ao mercado, (ii) preservar as atividades que permitem adicionar valor ao petróleo e (iii) defender a participação da Petrobras no mercado brasileiro de combustíveis.

 

As vendas anunciadas até o momento desprezam essa questão estratégica. A alienação de sistemas de escoamento e de distribuição desestruturam o principal negócio da Petrobras, que é o abastecimento do mercado nacional, maior gerador de receita para a empresa. O abandono das áreas de petroquímica e fertilizantes reduz a capacidade de agregar valor ao petróleo e a saída do setor de biocombustíveis diminui o market share da companhia nos mercados de gasolina e diesel.

 

A intenção de transformar a Petrobras numa empresa de O&G, focada no pré-sal, é um equívoco estratégico monumental. No cenário futuro aqui desenhado, a petroleira que se dedicar apenas à extração de petróleo em águas ultraprofundas estará condenada à extinção.

 

*Eugenio Miguel Mancini Scheleder é engenheiro aposentado da Petrobras. Também ocupou cargos de direção nos ministérios de Minas e Energia e do Planejamento, de 1991 a 2005. Atualmente, exerce a função de Mediador Extrajudicial, capacitado pela Câmara de Conciliação, Mediação e Arbitragem – CCMA/RJ.

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