Rio de Janeiro,
Notícias

A desintegração da Petrobrás

Data: 03/10/2016 
Autor: Paulo César Ribeiro Lima

A criação da Petrobrás como executora do monopólio estatal a partir de 1953, com a aprovação da Lei nº 2004, representa o principal marco do setor petrolífero nacional. O período de monopólio foi uma fase marcante na história do País pelo fato de a Petrobrás ter nascido do debate democrático, atendendo aos anseios da sociedade brasileira.


Nesse período, a Petrobrás foi implantada, expandida, integrada e verticalizada “do poço ao posto”, com grande sucesso. Até o início da década de 1980, apesar de ter uma produção de petróleo abaixo da sua demanda, o Brasil se orgulhava de ter uma capacidade de refino superior às necessidades do País. Foi construído o parque brasileiro de refino, constituído por 14 refinarias, sendo 12 pertencentes à Petrobrás. Além disso, foram feitos grandes investimentos em petroquímica, fertilizantes, gasodutos, oleodutos e terminais.

 

Desde a sua criação, a história da Petrobrás foi marcada por dificuldades, mas também por perseverança e sucesso. Ao iniciar suas atividades, a empresa dependia, quase que exclusivamente, da importação de materiais, equipamentos, serviços e recursos humanos especializados. No entanto, essas dificuldades serviriam como desafio.


A Petrobrás acabou sendo polo indutor da formação de mão de obra qualificada e de desenvolvimento de produtos e serviços no território nacional, tornando-se, dessa maneira, verdadeiro epicentro de progresso tecnológico e produtivo no Brasil. A indústria petrolífera brasileira acabou sendo grande impulsora de um projeto de desenvolvimento nacional que tinha como elemento central as políticas setoriais de substituição de importações e o enfrentamento à industrialização tardia do País.


Constitucionalmente, a Petrobrás manteve-se como executora do monopólio estatal do petróleo nas atividades de exploração, produção, refino, transporte e comércio exterior até a promulgação da Emenda Constitucional nº 9, de 1995, que alterou o art. 177 da Carta Magna, e da Lei nº 9.478, de 6 de agosto de 1997. A partir desse novo marco legal, a União passou a poder contratar outras empresas.


O fim do monopólio da Petrobrás não representou o fim da estatal. O estabelecimento da concorrência a partir do regime de concessão não inibiu as atividades da integrada e competente estatal, construída ao longo do período do monopólio. Foi a competência técnica e operacional da Petrobrás que levou à descoberta da província do Pré-Sal em 2006. O principal evento do setor petrolífero mundial das últimas décadas. A exploração e produção de petróleo em águas profundas talvez seja a única área na qual o Brasil detenha a liderança tecnológica mundial.


Com a descoberta do Pré-Sal, foi introduzido, em 2010, o regime de partilha de produção, nos termos da Lei nº 12.351, e criada uma nova empresa estatal denominada Pré-Sal Petróleo S.A. – PPSA. Essa empresa pública, criada por meio da Lei 12.304, de 2 de agosto de 2010, tem como principal objetivo gerir os contratos de partilha de produção.


Assim como 1953, o ano de 2016 pode ser considerado um novo marco histórico. Em setembro desse ano, foi apresentado o Plano de Negócios e Gestão – PNG 2017-2021. O primeiro plano sob a presidência do Sr. Pedro Parente.


Durante a divulgação do PNG 2017-2021, o Presidente da Petrobrás foi enfático quanto à necessidade de reduzir a relação dívida líquida/EBITDA, chamada de alavancagem, de 5,3 para 2,5. Para se obter essa redução, até 2018, prevê-se um grande corte nos investimentos, enormes amortizações e um questionável plano de desinvestimento.


O PNG 2017-2021 prevê que a Petrobrás terá uma fonte de recursos de US$ 179 bilhões de 2017 a 2021, assim distribuída:

− geração de caixa operacional, após dividendos: US$ 158 bilhões;

− parcerias e desinvestimentos: US$ 19 bilhões;

− uso do caixa: US$ 2 bilhões.

Essa fonte de recursos terá os seguintes usos:

− investimentos: US$ 74 bilhões;

− amortizações: US$ 73 bilhões;

− despesas financeiras: US$ 35 bilhões.

As parcerias e desinvestimentos no total de US$ 19 bilhões representam a venda de ativos, alguns estratégicos para a Petrobras, em um momento em que os baixos preços do petróleo desvalorizam os ativos do setor.

Usos e fontes de recursos

A privatização da BR Distribuidora e da Nova Transportadora do Sudeste – NTS, além da venda de Carcará, significa abrir mão de ativos rentáveis e estratégicos para a Petrobáas e para o País.

Não há necessidade de se vender esses e outros ativos. Em vez de se gerar recursos de US$ 19 bilhões com vendas, esses recursos deveriam ser oriundos da redução das amortizações e despesas financeiras, que totalizam o injustificável valor de US$ 102 bilhões.


O total de amortizações e despesas financeiras deveria ser reduzido de US$ 102 bilhões para US$ 82 bilhões, sendo preservados os ativos da Petrobrás, principalmente aqueles considerados estratégicos.


O custo de rolagem da dívida de 8,6% ao ano decorrente dessa redução de US$ 19 bilhões nas amortizações e despesas financeiras, apesar de alto, é menor que a rentabilidade de ativos estratégicos como a BR Distribuidora e a NTS. Ativos esses que foram construídos com esforço e competência ao longo da história da Petrobras.


Não se tem notícia da venda de gasodutos e da perda do controle acionário de empresas distribuidoras de grandes grupos como a Shell, Total, BP e ExxonMobil.As distribuidoras são fundamentais para as petrolíferas mundiais tanto do ponto de vista financeiro quanto estratégico. É a partir das distribuidoras que as empresas mostram sua marca para o público.


Também grande é a redução nos investimentos da Petrobrás. O PNG 2017-2021 prevê investimentos de apenas US$ 74 bilhões. No período de 2010 a 2014, a Petrobras investiu US$ 209 bilhões. Ou seja, o investimento previsto no PNG 2017-2021 é quase três vezes menor que o ocorrido de 2010 a 2014. Os investimentos da Petrobrás deveriam, de fato, ser reduzidos, mas não nessa proporção.


Além de baixos, o PNG 2017-2021 mostra uma concentração dos investimentos na área de exploração e produção. Dos US$ 74 bilhões a serem investidos, 82% serão destinados à essa área. Os investimentos em refino serão principalmente para continuidade operacional. Registre-se, ainda, que as áreas de petroquímica, energia elétrica, fertilizantes e biocombustíveis praticamente não existem no novo plano da Petrobrás.


Registre-se que a ANP já previa um grande aumento na dependência de importações de combustíveis nos próximos anos. As importações totais do Brasil poderiam chegar, em 2025, a 1 milhão de barris de derivados por dia. O quadro de grande dependência de derivados importados se consolida com o PNG 2017-2021.


O novo plano da Petrobrás indica uma visão financeira e de curto prazo, que sinaliza para a criação de uma empresa de exploração e produção, com foco nas áreas já descobertas do Pré-Sal, e a privatização ou venda de participação de ativos estratégicos.


A própria “Petrobrás do Pré-Sal” que está sendo gestada no PNG 2017-2021 também pode vir a ser privatizada, uma vez que a empresa já garantiu os direitos relativos às principais áreas do Pré-Sal e que os sistemas de produção já estarão instalados. Dessa forma, as extraordinárias jazidas do Pré-Sal e respectivas instalações podem ser, no futuro, transferidas para outras empresas.


A empresa estatal integrada, com participação estratégica em todo o território nacional, proprietária e operadora de oleodutos, gasodutos, terminais, refinarias, fábricas de fertilizantes, unidades petroquímicas, plantas de biocombustíveis e termelétricas está sob risco.


O novo plano da Petrobrás não se mostra “estratégico” para o Brasil. Ele sinaliza para o fim do principal projeto nacional, criado em 1953, por iniciativa do então Presidente Getúlio Vargas, que contou com o apoio de quase todas as correntes políticas e ideológicas.


A existência da Petrobrás deve ter como base o interesse público, não os interesses do mercado. Se erros foram cometidos, eles devem ser corrigidos. Erros passados não devem servir de pretexto para a desintegração da Petrobrás.

 

Conteúdo Relacionado

Não há conteúdo relacionado.

Tags

Não há tags relacionadas
Av. Nilo Peçanha, 50 - Grupo 2409
Centro - Rio de Janeiro-RJ CEP: 20020-100
Telefone: 21 2277-3750 - Fax 21 2533-2134
Compartilhe
AEPET - Associação dos Engenheiros da Petrobrás Desenvolvido por Arte Digital Internet