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O norueguês vem dar conselhos para o nosso petróleo: “não façam o que fazemos!”

Data: 12/09/2016 
Fonte: Tijolaço Autor: Fernando Brito

A Folha publica uma entrevista com  o presidente da  petroleira norueguesa Statoil, Eldar Saetre,  que passou a semana no Brasil para engrossar o coro das multinacionais do setor por mudanças nas regras para exploração de petróleo no país.

 

Diz o senhor Saetre, muito zeloso dos interesses da estatal da Noruega, como já deixa claro o nome da empresa, que  “para atrair empresas estrangeiras como a Statoil, é muito importante ser mais flexível com relação ao papel da Petrobras. Porque também gostamos de operar [a exploração dos campos], de ter a oportunidade de usar nossa tecnologia e nossas competências para criar valor para o país”.

 

Os noruegueses, claro, estão defendendo seus interesses – e já abocanharam um dos mais promissores campos do pré-sal, o de Carcará, na Bacia de Santos. Mas você quer saber como eles fazem lá com o petróleo deles, nas águas do Mar do Norte.

 

Exatamente como faz – ao menos até agora – a nossa Lei de Partilha. Aliás, é mais dura: ao menos 50% de participação estatal, obrigatória. A gestão das reservas é controlada pela estatal Petoro – equivalente à nossa Pré-Sal Petróleo – e grande parte é operada pela Statoil. Os recursos vão, lá como no modelo brasileiro (moldado à semelhança do norueguês), para um fundo.

 

Aliás, a economia norueguesa é fortemente estatizada: pertencem ao governo 37% de todas as ações de empresas do país negociadas em bolsa, como registra o ótimo correspondente do Estadão, Jamil Chade.

 

Independente apenas desde 1905, a Noruega rejeitou em duas votações nos últimos 40 anos a ideia de fazer parte da União Europeia.


Mas o modelo norueguês também tem outro componente: a forte presença do Estado em praticamente todos os campos da economia. Segundo especialistas, essa tendência começou depois da 2.ª Guerra Mundial, quando o governo nacionalizou empresas ligadas à Alemanha. Assim, o Estado ficou com 44% das ações da Norsk Hydro, tem participação de 37% na Bolsa de Valores de Oslo e em dezenas de empresas.


O capitalismo de Estado fez com que economistas ironizassem a situação chinesa. Uma piada contada entre analistas aponta que, no fundo, o modelo desenvolvido pelo Partido Comunista Chinês nos últimos dez anos não passa de uma cópia do modelo norueguês existente há meio século


Imaginem se aqui o governo controlasse quase 40% das empresas, o que diriam? Bem, no mínimo que viveríamos num comunismo opressivo.

Foi esse modelo que tirou a Noruega da condição de um dos países mais pobres da Europa e elevou-a à condição de maior Produto Interno Bruto per capita do mundo: acima de US$ 100 mil, o dobro do dos EUA.

 

Óbvio que, como se trata de uma nação de pequeníssima população – tem seis milhões de habitantes, o mesmo que a cidade do Rio de Janeiro – os efeitos são mais rápidos e a gestão da economia mais simples. E, sobretudo, tem uma escala de mercado interno muito pequena, que torna dispensável – enquanto para nós é vital – a industrialização pesada e a produção interna de bens.

 

Mesmo assim, no início da exploração de petróleo estabeleceram políticas ultraprotecionistas de conteúdo local. Depois, com um parque de fornecedores estabelecido e tecnologicamente capaz, abrandaram-nas.

 

Volto ao petróleo: o senhor  Eldar Saetre não é cínico ao ponto de dizer que dividir a operação da extração de óleo aqui seriam bom se isso não fosse feito lá.

 

É, mas vejam como: é o Estado norueguês, através da Petoro,  quem define quanto será extraído por poço, para evitar a predação das reservas (nos períodos de baixo preço, uma multi poderia tirar mais das reservas mais taxadas proporcionalmente e preservar outras, suas próprias ou de baixa taxação) e a Statoil tem o direito de fiscalizar todas as plataformas, definir normas operacionais e acompanhar o ritmo de extração.

 

Só tem um probleminha: o petróleo do Mar do Norte está acabando. Hoje, é apenas um terço do que era no auge, no ano 2000. E o que restou está em poços de menor produção e, portanto, custo mais alto.

 

O contrário do nosso pré-sal, que está apenas começando. Em oito anos, com  menos de 2% dos poços existentes no Mar do Norte, já retiramos de lá praticamente a quantidade de óleo que hoje extraem.

 

É por isso que os noruegueses estão mandando executivos para onde haja petróleo em quantidade. Mandaram um para cá, atrás de Temer e outro para o México.

 

Estão topando tudo para não secarem junto com seu petróleo. Inclusive, e principalmente, compra megajazidas, com custo de exploração 70% menores do que têm por lá, a preço de banana.

 

Estão defendendo o país com quem se identificam, a Noruega.

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