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“Desinvestimento”, eufemismo para privatização, prejudica a Petrobrás

Data: 03/09/2015 
Fonte: Aepet
Autor: Felipe Coutinho

A Petrobrás apresentou recentemente a revisão do seu plano de negócios para o período  2015-20.  Das  revisões  se  destacam  a  redução dos  investimentos  em  37%,  a diminuição da projeção  da produção de petróleo em 2020 de 4,2 para 2,8 milhões de barris por dia e a venda de ativos na ordem de 57 bilhões de dólares, cerca de 20% do patrimônio  da  estatal,  até  2020.  O  foco  da  revisão  é  a  redução  do  endividamento,  da “alavancagem” no jargão financeiro. 

Este  artigo  trata  da  venda  de  ativos,  da  privatização  de  cerca  de  20%  da Petrobrás,  chamada  com  eufemismo  por  “desinvestimento”.  A  privatização  tem  sido justificada  pela  direção  da  companhia  e  por  “porta-vozes  do  mercado”  porque  a Petrobrás  teria  alcançado  limites  de  endividamento. Segundo  indicadores  que correlacionam a dívida com o fluxo de caixa e a dívida com o patrimônio, os interpretes do deus mercado teriam, de forma mediúnica, concluído que a companhia está no limite da “alavancagem”. 

No entanto, a realidade material revela fatos recentes que desmentem a suposta incapacidade ou limitação para o acesso a novos créditos. Em 2015, a Petrobrás captou 2,5  bilhões  de  dólares  em  títulos  de  100  anos,  operação  onde  havia  disponível  13 bilhões.  Com o Banco  de  Desenvolvimento  da  China  obteve  contrato  de  5  bi.  No mercado doméstico, 4,5 bilhões de reais com o Banco do Brasil, 2 bi com a Caixa, 3 bi com o Bradesco. Seja no mercado financeiro internacional, na relação estratégica com países soberanos, ou no mercado doméstico, dados empíricos contradizem a hipótese do limite do endividamento. 

É atribuído ao físico Albert Einstein o argumento “Nem tudo que conta se pode contar. Nem tudo o que se pode contar, conta”. O alerta é pertinente para indicadores contábeis e financeiros que apresentam um retrato,  uma revelação instantânea e estreita da realidade, e caso não sejam relativizados podem ser mal interpretados e comprometer o  futuro  de  uma  companhia  produtiva  e  estratégica.  O  indicador  que  correlaciona  a dívida  com  o  patrimônio,  por  exemplo,  não  considera os  ativos  do  pré-sal  a  serem desenvolvidos pela Petrobrás sob o regime de partilha. Trata-se de um critério contábil que deve ser ponderado em face ao potencial dessas reservas. 

A  privatização  é  inoportuna,  compromete  o  fluxo  de  caixa  futuro,  fragiliza  a integração  produtiva  submetendo  a  companhia  a  riscos  desnecessários,  e  expõe  o mercado interno aos seus competidores. A conjunturade queda dos preços do petróleo e de  recessão  da  economia  internacional  deprime  os  preços  dos  ativos  da  indústria  do petróleo. A situação é desfavorável para a alienação de ativos. 

A venda de ativos rentáveis prejudica a tendência dos indicadores contábeis ora utilizados para justificar a alienação. A receita operacional líquida da BR Distribuidora em 2014 foi de 98,5 bilhões de reais, enquanto o lucro líquido da Gaspetro alcançou 1,5 bi. As duas subsidiárias são citadas como possíveis ativos à venda. 

A  integração  produtiva  e  o  acesso  a  um  enorme  mercado,  com  potencial  de crescimento  e  praticamente  cativo,  são  vantagens  estratégicas  da  Petrobrás  que  são colocadas em risco pelo plano de privatização proposto. A integração reduz o risco às variações de preços relativos e o mercado brasileiro é um ativo não contabilizado pelos indicadores  financeiros.  Alienar  infraestrutura,  de gasodutos  por  exemplo,  é  entregar mercado e comprometer receita futura. 

A  Petrobrás  tem  potencial  de  crescimento,  descobriu as  maiores  reservas  de petróleo das últimas três décadas, possui tecnologia de ponta, tem acesso privilegiado a um mercado pujante. Além de ser uma empresa integrada, fator que minimiza os riscos. 

A companhia deve focar no crescimento, proporcional ao desenvolvimento e em apoio a economia nacional. Deve utilizar a renda petroleira para investir em infraestrutura para a  produção  de  renováveis,  vocação  do  Brasil,  país  tropical  e  continental,  e  assim  nos preparar para o futuro. Vender ativos para pagar dividendos no curto prazo e se acanhar diante  da  liderança  do  desenvolvimento  industrial  brasileiro  é  um  erro  grave,  com severas consequências para o futuro corporativo e nacional. 

O petróleo não é uma mercadoria comum, não é substituível, ponderadas as suas qualidades e quantidades. A Petrobrás não é uma empresa qualquer, vide seu peso na economia nacional e seu papel na garantia da segurança energética do país. O plano de negócios da companhia precisa estar subordinado, e  ser sustentado, por um projeto de desenvolvimento  nacional.  Privatizar  ativos  estratégicos  e  rentáveis  é  uma  ameaça  ao futuro da companhia e um entrave ao desenvolvimento econômico e social brasileiro. 

* Presidente da Associação de Engenheiros da Petrobrás (AEPET) 

http://www.aepet.org.br/

https://felipecoutinho21.wordpress.com/


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