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A crise brasileira sob o ponto de vista da imprensa independente europeia:

Data: 25/03/2015 
Fonte: Le Monde
Autor: Paulo A. Paranaguá

Reproduzimos matéria do jornal francês Le Monde, que enfatiza a necessidade de combater a corrupção. O artigo, do jornalista Paulo A. Paranaguá, trata também das consequências econômicas e políticas da crise, mas não toca no problema da ganância  internacional 

 

Compreendendo o escândalo Petrobras que abala o Brasil

Le Monde, 9 de março de 2015

 

Brasil é abalado por um escândalo de proporções sem precedentes, que afeta, por sua vez, agentes econômicos e personalidades pertencentes à coalizão de centro-esquerda, que governa com a presidente Dilma Rousseff. A luta contra a corrupção é agora uma prioridade na agenda do gigante sul-americano e de outros países da região.

 

O que é o escândalo Petrobras?

 

É uma questão de corrupção política, revelada em março de 2014, e que afeta tanto a empresa de petróleo controlada pelo Estado, a Petrobras, e os gigantes brasileiros da construção. Esses dois setores estão trabalhando juntos em grandes projetos de infra-estrutura, em especial aqueles relacionados às novas reservas de petróleo descobertas em águas profundas no sul do Brasil.

 

As empresas de construção formaram um cartel para compartilhar esses mercados e para o superfaturamento. Em troca de subornos supostamente pagos aos partidos da coalizão de centro-esquerda de governo, no poder desde a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010). O peculato e os subornos têm o objetivo principal de financiar as campanhas eleitorais, sem excluir alguns líderes empresariais e políticos que foram servidos ao longo do caminho.

 

Quais são as empresas envolvidas?

 

Além da Petrobras, todas as grandes empresas de construção estão sendo investigadas: OAS, Odebrecht, Camargo Correia Mendes Junior, Queiroz Galvão, Iesa, Engevix, UTC / Constran. Algumas são multinacionais presentes em vários continentes. Os CEOs e altos funcionários foram presos como resultado da investigação. Curiosamente, a Odebrecht, número um da construção, foi esquecida, dado que este grupo obteve lucrativos contratos sem licitação em Cuba, Venezuela e na África, através dos bons ofícios do ex-presidente Lula.

 

Quais os partidos que se beneficiaram do esquema de financiamento oculto?

 

A pesquisa revelou, em especial, o envolvimento do Partido dos Trabalhadores (PT, esquerda), de Lula e da presidente Dilma Rousseff; o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB, centro), o principal aliado do governo do PT no Senado e na Câmara dos Deputados; o Partido Progressista (PP, direita), do ex-governador de São Paulo, Paulo Maluf.

 

Dilma Rousseff está envolvida?

 

A presidente não foi citada pela Procuradoria-Geral da República entre as pessoas suspeitas. No entanto, grande parte da opinião pública acredita que ela é "responsável" se não "culpada". Por quê? Porque ela era a ministra da Energia, ministério ao qual é ligada a Petrobras e depois foi chefe de gabinete do presidente Lula na época. Como tal, ela também presidiu o Conselho de Administração da Petrobras. Em suma, para muitos, "ela não podia não saber."

 

Durante o seu primeiro mandato, Dilma Rousseff tinha construído uma reputação de incorruptível, exonerando logo ministros suspeitos de desonestidade. No entanto, ela hesitou por um longo tempo antes de pedir que Graça Foster deixasse seu cargo à frente da Petrobras, visto que ela foi desestabilizada pela extensão do escândalo.

 

A investigação é imparcial?


A separação de poderes é real no Brasil, ao contrário de outros países latino-americanos. O caso foi conduzido em conjunto por um simples juiz provincial, Sergio Moro, baseado em Curitiba, e pela Polícia Federal, um corpo de elite que tem sido testado em outros casos de alta relevância. Uma comissão parlamentar também está trabalhando sobre o escândalo.

 

Os juízes queriam que o procedimento não se arrastasse por muito tempo, como o escândalo do Mensalão, revelado pela imprensa em 2004. As condenações pelo Supremo Tribunal Federal só ocorreram em 2012. A título de comparação, o Mensalão movimentou 100 milhões de reais (30 milhões de Euros), enquanto que no caso Petrobras-BTP já se fala em, pelo menos, 3 bilhões de reais, ou até três vezes de acordo com fontes.

 

Qual será o impacto político e econômico do escândalo?


O procedimento judicial deverá durar pelo menos um ano. O governo de coalizão está desestabilizado, apesar de o segundo mandato de Dilma Rousseff ter se iniciado em 1º de Janeiro deste ano. A maioria parlamentar está sob tensão. Um parecer exasperado exige cabeças. As consequências políticas são imprevisíveis.

 

No entanto, o impacto econômico já é evidente, num momento em que a economia está quase em recessão. Os investimentos foram suspensos e as falências não estão descartadas.

 

Paulo A. Paranaguá

Jornalista do Le Monde


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