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Dia Internacional da Mulher: oito poesias sobre 8 de março

Data: 06/03/2015 
Fonte: www.vermelho.org.br Autor: Site Vermelho

Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, compartilhamos seleção do colaborador do caderno Prosa, Poesia e Arte do site Vermelho, Claudio Daniel, que escolheu oito poetas para abordar a questão da mulher com sensibilidade, determinação e força. 

 

 

 

Micheliny Verunschk

 

Em memória das mulheres mortas

no campo de algodão

cantemos a semente inviolada.

Em memória de Verônica adormecida

em sua infância eterna

cantemos a casa indestrutível.

Em memória de mim

e de minha irmã

e de minha prima 

e de minha amiga

que tombamos

entre o ranger dos ossos

e o assobio dos tiros

cantemos ainda.

Cantemos a memória

e a nossa antiga avó

pega a laço.

Cantemos a memória

e as unhas extirpadas

no quarto de despejo

da velha ditadura.

Cantemos a memória

essa cadela

que

[22 balas

11 perfurações à faca

àcido no rosto

carne infibulada]

não morre

não morre nunca.

 

Micheliny Verunschk, poeta e historiadora, nasceu em Recife (PE), em 1971. Publicou os livros de poesia Geografia Íntima do Deserto, O Observador e o Nada e A cartografia da noite.

 

 

 

Priscila Merizzio

 

jaz ali uma centelha lasciva

estuprada pelo cara mais velho

e jogada à necrópole das meninas

que trocaram a candura por rugas

 

 

* * *

 

meu vizinho me olha com uma luneta

aceno por trás das petúnias

 

palavras esparsas

na BR-116

funestos vacilos

 

eu barganharia perdão

e você saberia, finalmente:

carnavais fabricam nébulas

 

a férula de Eros tolhe nossa sinastria

 

(Poemas do livro Minimoabismo)

 

 

Priscila Merizzio nasceu em Curitiba (PR). Publicou poemas em blogues, sites e revistas de literatura na internet, entre elas Germina, Cronópios, Mallarmargens e Zunái. É autora do livro de poesia Minimoabismo (Ed. Patuá, 2014).

 

 

 

Nina Rizzi

 

e danço um tango com você 

 

eu li nas tls do mundo que mazombos e mazombas

acham bem normal um estupro, que as mina tão se entregando

assim facim facim

e eu lembro que os afegãos estupram mulheres de burca

porque elas exageram no kajal e rímel

eu ouço que uma menina de 8 dá rindo o que eu não dou chorando.

 

tenho vontade de vomitar enquanto olho o vão do metrô que nunca vai chegar.

não sai nos jornais, inúmeras gentes - essas mulherzinhas também -

se jogam ali todos os dias.

eu não vomito. hoje é aniversário da maria e quero enfeitar seu corpo

de flores, de cheiros e uivos.

 

toda vez que penso na maria tenho vontade de chorar.

eu perdoo o mito da superioridade de kipling. perdoo o esquerdismo do ggm.

eu perdoo o oportunismo dos poetas do meu tempo.

você, peço licença ao seu pai exú, te perdoo não.

não engulo a sua arte e te mataria por isso,

sr. polanski, sr. brando, sr. aleijadinho.

 

penso nas normalidades desses senhores

 

ela se insinua

é pelo cinema, é por amor

por deus, deixe - viver a vida

 

ora, uma maria assim tão dada

uma maria assim tão nua

uma maria assim com virgindade tão apertada

 

uma maria como todas as outras, pronta pra violação.

 

maria, seus olhos imensos duas amêndoas me comovem.

sei que não sei dar amor a quem me estende a mão

eu amo o feio e a deformação

mas olha, você me olha

e eu só quero encher seu corpo das flores mais lindas

 

eu te amo maria

seu território também é meu

seu silêncio também é meu

amo você todos olhos moles, todas as marias violadas,

anônimas.

 

Nina Rizzi, paulista radicada em Fortaleza/CE. É escritora, historiadora e arte-educadora. Tem textos e poemas publicados em antologias, revistas e em várias páginas da internet, entre elas, Germina e Zunái. Publicou os livros de poesia Tambores pra N’zinga e A duração do deserto.

 

 

 

Greta Benitez

 

Finíssima

 

A mulher gigante chega à cidade

no centro tropeça em prédios

quase cai

mas arruma a fivela da sandália

sentada sobre o Edifício Itália.

Com o tédio de sua beleza iluminada

logo pela manhã

enrola seu interminável cachecol 

acende um cigarro no sol

e lixa as unhas no Copan.

Por seus passos a cidade estremece

quando anoitece 

sem que ninguém veja

espia por trás da igreja

a noite acesa na Praça Roosevelt.

A cidade cuida dela

para que nada maltrate seu imenso coração

já que uma lágrima apenas

causaria uma inundação.

Finíssima:

champagne e ternura

um olhar que vai além. 

Assim ela cuida da cidade também.

 

Greta Benitez (Curitiba-PR) é poeta, colaborou em diversos sites e revistas literárias e publicou os livros de poesia Rosas Embutidas (1999), Café Expresso Blackbird (2006) e Canção antique (2014).

 

 

 

Mar Becker

 

Perséfone

 

I

 

penso na mulher que é inacessível como uma estrela de sal. um cálice, uma chaga em backing vocals no cair das horas. penso na mulher que pensa na palavra

 

e a palavra se faz aos poucos nas bocas das demais mulheres. com a matéria das flores sonâmbulas e do marfim.

 

 

II

 

 

sonho ou assédio

lunar,

 

meninas que se desgarram de si mesmas,

 

meninas que flutuam como abajures mortuários em torno das bonecas. depois se abaixam para beijá-las na testa e imantar seus corpinhos de pano com relâmpagos.

 

*

 

meninas que não falam, magras,

inacessíveis,

 

tantas meninas, e são altas, e cheiram a algodão e lágrimas.

 

nos cabelos um nevoeiro de teias de aranha. na pele os sinais em sete eclipses: lua ilícita, lisérgica. a sombra no púbis, no ânus, nos covis das axilas. uma única e mesma noite atravessa os séculos pela boca das mães até a boca das meninas,

 

e das meninas às bonecas,

 

num processo difícil de perpetuação

da fome.

 

 

Mar Becker (Passo Fundo–RS) é poeta. Publicou a plaquete Perséfone pelo selo Poesia Viva, editado pelo Centro Cultural São Paulo, e colaborou em diversos sites e revistas eletrônicas de poesia, entre elas Zunái, Cronópios, Germina e Mallarmargens.

 

 

 

Andréa Catrópa

 

a cabeça doce

de sua mãe tem cabelos

nas ventas e pensa

em receitas

saudáveis ou açucaradas e jamais

resolve essa contradição 

complementar, é fato

entre doce salgado, o que pode o que deve,

o que quer ou não

a cabeça de sua mãe 

doce pretende ser também

saudável mas quando lhe ataca 

a dor

de cabeça fica fraca

doida obsessiva

(assoma-se sua vontade

Insubordinada)

ela pensa em cristalizar-se na calda

fumegante que borbulha no tacho

como uma forma edulcorada

de suicídio ela pensa em perseguir

com sua colher de pau 

alguns meninos

meninas malvadas

promete anota em seu caderno

secreto de receitas pensamentos

fazer litros de cicuta amarga

tornar-se doce mãe terrorista cozinheira

que persegue escroques 

na falta de herois que o façam

ela fode e pare e nutre

todo um berçário 

que crescerá em sua escola

 

Andréa Catrópa (São Paulo – SP) é poeta e doutora em Letras pela Universidade de São Paulo. Publicou o livro de poesia Mergulho às avessas. 

 

 

 

Andréia Carvalho

 

atrás de cada olho esterilizado 

 

o corpo lúteo rendado 

para o velorio das teias

em overdose lunar

 

os folículos, as púrpuras constelações,

despedem-se do respeitável público

antes púlpito

 

as trompas são serpentes 

enjoadas do éden

loucas de lua

e hóstias cruas

 

no silvo do espelho pituitário: a partenogênese

da virgem circense

volátil e viril

 

quem disse que o anjo estrógeno

ainda será o rei paterno?

nesta roda de nascimentos

eunucos

seus olhos de anunciação

são terríveis conta-gotas

uma nuvem de gafanhotos

anticolisão

 

quantos ovos carbonizados

serão ainda necessários

para que o sol descanse

andrógino e sem coroa

no império dos venenos

luteinizantes?

 

hormônios em êxtase de ocasos,

digo-vos: o aplauso do cosmos

arrebenta o tímpano

do manto niquelado

e canta:

o manso salvador não nascerá

humano

de meu parto eloquente

 

ele sibila / cobra / criptonita

 

adeus

 

Andréia Carvalho (Curitiba-PR) publicou os livros de poesia A cortesã do infinito transparente (2011), Camafeu Escarlate (2012) e Grimório de Gavita (2014), todos publicados pela Lumme Editor. É editora de arte da Zunái, Revista de Poesia e Debates, e uma das editoras de Mallarmargens.

 

 

 

Adriana Zapparoli

 

Segundo ato

 

frustrado-gris em quarta-feira nublada.

a ambiência era fétida, rota de drogados e adictos, e mijo entalhado nos muros..

ela: "- estou em são paulo...."

ele - (silêncio) e pensava... sua essência de pacto com mutismo ... melhor não dizer nada. não disse. nada disse. e pensava - que diabos é isso agora!

ela "- beijo, bom dia. " (seguindo o que previa porque o que ela gostava, mesmo, era de promover leves taquicardias)

ele: ' - beijo, bom dia..."

 

então, ela viu o cinza, ainda mais cinza, tão predominante na estação da luz. mesmo aquela hora do dia a sua essência era de rotas, fatos, hiatos e campinas.

 

* * *

 

são 5 segundos para abafar toda semente no cio. são 5 segundos, em um segundo, para afiar a moleira no fio. são cinco segundos para estripar da foice o cabelo em cútis e o seu arrepio (tão) óbice-cúmplice... são 5 segundos para não surgir com o mesmo olhar de um pássaro imbecil. são 5 segundos para pingar a língua em fastio-febril e o estado cálice-ápice em calafrio, 

 

 

são os cuspes ... os seus. por um estado "mutis" em dia gris. 

 

 

* * *

é besouro tec-tec castanho escuro. é pirilampo em escroto diminuto. é caminho oblíquo em colisão de inseto confuso; é cudelume em rota de fuga, e passado sem volta e sem contrafuga... porque em estradas estão inclusos os vaga-lumes, manchas apagadas e cantos protusos. há avessos difusos. há mentiras obscenas, noctiluzes reclusos em copos de sisos, de cerveja em antidepressivos e em fumo. são insetos de luz, sem órgãos ...

 

pagãos bioluminescentes

 

 

luciferina oxidada em oxigênio, em cortina de fumaça. 

 

e não temos muito tempo, nem tons, nem abusos - luzecus então,

 

não se atrase, amor ... não se atrase.

 

Adriana Zapparoli (Campinas–SP) é escritora e tradutora. Publicou os livros de poesia A Flor da Abissínia (versão bilíngue) em 2007, Cocatriz em 2008, Violeta de Sofia em 2009, Tílias e Tulipas (versão bilíngue) em 2010, O Leão de Nemeia em 2011, Flor de Lírio (versão bilíngue) em 2012, Flor de Lótus em 2013, a tradução poética para Mosaico Fluido em 2014, todos publicados pela Lumme Editor (Bauru-S.P). Em 2012 publicou a plaquete poética Lontra Corola Libido editada pelo Centro Cultural São Paulo.

 

Do Portal Vermelho

 

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