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Uma contribuição ao debate sobre o ensino de engenharia

Data: 10/09/2014 
Autor: Agamenon Oliveira

Qualquer proposta de mudança mais significativa no ensino de engenharia no sentido de adequá-lo a uma nova conjuntura na economia e nas relações sociais estará sempre marcada pela importância cada vez maior da inovação tecnológica e pela globalização. Neste contexto, uma visão crítica do modelo politécnico de ensino da engenharia nos parece ser um caminho promissor. O modelo politécnico francês aplicado no Brasil em uma conjuntura completamente diferente da francesa também é apresentado.

 

O contexto social, econômico e político no qual os engenheiros estão sendo chamados a atuar vem mudando qualitativamente, principalmente a partir dos anos 80. As novas tecnologias, a associação da informática às tecnologias da comunicação, as chamadas TIC’s, a biotecnologia e, principalmente, as nanociências e a nanotecnologia estão produzindo uma revolução tecnológica e transformando em profundidade o mundo do trabalho (Antunes, 1995).

 

Dessa forma, o mercado de trabalho para engenheiros tem acompanhado pari passo essas transformações, ampliando suas possibilidades de atuação para outros setores, como o de serviços e o sistema financeiro. Para os próximos anos, os setores industriais que englobam a extração e o refino de petróleo e gás no Brasil deverão ser os mais intensivos na absorção de engenheiros e profissionais afins, tendo mais que dobrado a participação desses profissionais no total da força de trabalho no período de 1986-2009. Este setor, com as novas reservas do pré-sal, seguirá expandindo sua demanda por engenheiros a taxas entre 13% e 19% ao ano. Admitindo-se um crescimento em torno de 4% ao ano entre 2011 e 2020, com uma expansão média de concluintes dos cursos de engenharia, cerca de 40% dos engenheiros do país serão requeridos pelo mercado de trabalho assalariado em 2020. Esses novos profissionais deverão ter uma formação significativamente diferente da que é atualmente ofertada pelas Escolas de Engenharia do país. Neste sentido, uma visão mais ampla e histórica do modelo politécnico se faz necessária para uma discussão em profundidade de suas debilidades e virtudes para o enfrentamento da nova conjuntura e das novas exigências na formação dos engenheiros.

 

 

A internacionalização da economia nas últimas décadas e o impacto das tecnologias na sociedade criaram não só um novo contexto, como também uma nova divisão internacional do trabalho e do conhecimento e, consequentemente, novas oportunidades para a engenharia dos países emergentes. No entanto, para que essas possibilidades se concretizem, os engenheiros devem enfrentar uma crescente complexidade e interdisciplinaridade de suas tarefas, requerendo novas aptidões e habilidades. É possível sintetizar este novo contexto enumerando suas principais características (Oliveira, 2007)

 

1- As desregulamentações dos mercados e até de algumas profissões, as privatizações e aberturas de mercado, o crescimento da importância dos setores financeiros e a maior insegurança e precarização dos vínculos de trabalho.

 

2- O papel das novas tecnologias, o aumento e a rapidez das telecomunicações e da capacidade de transmitir grande massa de dados a longa distancia e em tempo extremamente reduzido, as redes de comunicação e o aumento da importância da informática e, finalmente, o surgimento da nanotecnologia e da biotecnologia.

 

3- A busca por maiores aumentos de produtividade, levando a novas formas de organizar os processos de trabalho, a automatização dos processos  de fabricação e de projeto, diminuindo a necessidade dos engenheiros atuarem junto às máquinas ou ao “chão de fábrica”.

 

4- O aumento da necessidade de engenheiros no setor de serviços, com postos de trabalho mais próximos dos clientes e mais voltados a satisfazerem suas demandas e necessidades.

 

5- O aumento da consciência pública das limitações energéticas e de se preservar o meio ambiente e atender às questões colocadas pela ecologia. Isto tem indicado que a busca por novas formas de energia é uma área bastante promissora da engenharia. Além disto, o estudo da reciclagem dos materiais e das pesquisas de impacto ambiental terá maior importância.

 

6- O aumento do peso dos direitos do consumidor na fabricação dos produtos e no fornecimento de serviços.

 

A institucionalização do modelo politécnico no Brasil se dá em um contexto sociocultural e político completamente diverso daquele da França no final do século XVIII. Pela Lei de 4 de dezembro de 1810, o príncipe regente Dom João VI criou a Academia Real Militar, substituindo a Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, e este seria o berço da engenharia brasileira e da futura Escola Politécnica. A Academia passou a funcionar em 23 de abril de 1811, com 72 alunos. Somente em 1874 é que a Escola Central passou a se chamar Escola Politécnica e foram criados cursos de engenharia de minas e engenharia industrial, funcionando ao lado do já existente de engenharia civil. Somente com a Escola Politécnica haveria a separação definitiva entre o curso de engenharia civil do ensino militar (Oliveira, 2007).

 

Voltando ao ensino da Academia Real Militar, o curso completo era de sete anos, para os quais haveria onze professores titulares, denominados lentes, e cinco professores substitutos. O primeiro ano era uma espécie de preparatório, para suprir a quase inexistência do ensino secundário. O segundo, terceiro e quarto anos eram de disciplinas básicas de nível superior e, finalmente, nos três últimos anos estavam as disciplinas aplicadas militares e de engenharia. Segundo ainda o plano dos fundadores da Academia, estava previsto um oitavo ano e se destinava ao estudo da história militar, o que não chegou a se concretizar.

 

A Escola Politécnica passou a conceder os títulos de bacharel e doutor em ciências físicas e naturais, independente dos cursos de engenharia.

 

Com o desenvolvimento industrial ocorrido no Brasil durante o século XIX, muitas academias foram feitas nos cursos da Escola Politécnica. Além do curso de engenharia civil já existente foram criadas as especialidades de engenheiro geógrafo, de minas, de artes e manufatura, mecânico, industrial e eletricista.

 

O objetivo era formar engenheiros politécnicos com múltiplos conhecimentos técnicos para atender à diversidade de processos industriais e tecnológicos.

 

É interessante observar que, por ocasião do retorno ao antigo nome de Escola Politécnica, em 1999, o documento intitulado “o nome da Escola Politécnica”, encaminhado à Congregação para ser discutido pelo colegiado superior fundamenta um conjunto de mudanças ao afirmar:

 

“Novas exigências como proteção ambiental, normas de segurança mais rígidas, imposição de normas e padrões de qualidade e aumentos de competitividade, fruto da internacionalização da economia, impõem a busca de novas soluções e de reformulação dos padrões e referencias da ciência na pratica cotidiana da engenharia, mas ainda existem questões em aberto, principalmente relativas à apropriação de novos campos de conhecimento, das questões gerenciais e das relações humanas, em especial as de natureza política”.

 

A citação acima coincide em grande parte com as preocupações expostas nos itens precedentes no sentido de criar uma maior sintonia entre a formação dos engenheiros e as profundas mudanças ocorridas nas últimas décadas no cenário nacional e internacional.

 

A alteração foi aprovada em 4 de agosto de 1999 até que finalmente em 18 de outubro de 2004, pela portaria ministerial 3239 do Ministério da Educação, a nova designação de Escola Politécnica da UFRJ foi definitivamente aprovada.

 

Atualmente, a Escola Politécnica forma engenheiros em 12 diferentes habilitações: civil, naval, ambiental, petróleo, metalurgia, materiais, produção, mecânica, elétrica, controle e informação e computação.

 

O objetivo central deste artigo foi confrontar o modelo politécnico de ensino de engenharia com uma nova conjuntura na qual os engenheiros serão chamados a atuar. Dessa forma será possível identificar um conjunto de questões a serem trabalhadas e problemas a serem superados para adequar a formação dos engenheiros a este novo contexto.

 

 

É fundamental enfatizar que operar esta “adequação” não significa a submissão da formação dos engenheiros, muito menos da Universidade, aos ditames do mercado. Muito pelo contrário, a Universidade deve ser o lugar privilegiado para discussão das estratégias não somente de ensino, mas também de mudanças mais gerais da sociedade. A Universidade deverá sempre ser uma espécie de farol a iluminar o caminho para o futuro e atuar tendo isso como um dos seus objetivos mais nobres.

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