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Colunista Cloviomar Cararine Pereira

Petrobrás não precisa vender ativos nem demitir

Data: 29/04/2016 
Autor: Cloviomar Cararine Pereira

Quando uma empresa faz a publicação de suas demonstrações financeiras e operacionais, tem por finalidade apresentar sua posição em determinada data, de forma estática, como uma fotografia. À primeira vista uma imagem pode não apresentar todos os elementos necessários para entendermos a verdadeira situação daquele acontecimento que aparece na imagem. É preciso um olhar mais apurado e cuidadoso. Analisando a demonstração financeira da Petrobrás, ou seja, sua foto em dezembro de 2015, podemos observar pontos positivos e negativos.

 

Destaques positivos:

 

•         Aumentou sua produção de petróleo e gás natural, no Brasil, em 6%, chegando ao recorde diário de produção no pré-sal de 1.173 mil boe em 14/12/2015;

 

•         Apresentou crescimento no Lucro Bruto de 23%, chegando ao resultado de R$ 98,6 bilhões. Em 2014, foi de R$ 80,4 bilhões. Esse indicador mostra quanto a empresa ganha com suas atividades e mostra a diferença entre seu faturamento e despesas para fazer seus produtos;

 

•         Seu lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortizações (EBITDA) cresceu 25%, fechando em R$ 73,8 bilhões. Em 2014 tinha apresentado o resultado de R$ 59,1 bilhões. Isso se deveu a maiores preços de diesel e gasolina e redução dos gastos com participações governamentais (royalties e participações especiais). Esse indicador é muito utilizado para mostrar quanto uma empresa teve de geração operacional de caixa;

 

•         Terminou o ano com saldo em caixa de R$ 100 bilhões, aumento de 46% frente ao ano anterior. Isso mostra que é uma empresa que consegue, mesmo pagando altos valores em dívida e investimentos, gerar caixa para o próximo ano;

 

•         Reduziu em 5% seu endividamento líquido, em dólar, chegando a US$ 100,4 bilhões (R$ 391,9 bilhões) e aumentou o prazo médio da dívida de 6,1 anos no final de 2014, para 7,14 anos no final de 2015.

 

Por outro lado, outros indicadores não apresentaram bons resultados, como:

 

•         Reduziu em 6% a quantidade de petróleo refinado (carga processada) no país, chegando a uma média de 1,976 milhões barris/dia. Em 2014 essa média era de 2,106 milhões barris/dia. Isso foi proporcionado pela redução na demanda de derivados no mercado interno de 9%;

 

•         Reduziu em 5% sua receita com vendas, chegando a R$ 321,6 bilhões. Em 2014 foi registrado R$ 337,3 bilhões. Isso pode ser explicado tanto pela redução do consumo de derivados no mercado interno, quanto por menores preços nas exportações de petróleo e derivados;

 

•         Por fim, apresentou prejuízo de R$ 34,8 bilhões. Em 2014 também havia apresentado prejuízo de R$ 21,6 bilhões. Novamente a empresa realizou um impairment de ativos e investimentos, além de ter registrado despesas com juros e perdas cambiais.

 

Há ainda vários outros indicadores que poderiam ser listados aqui, mas cabe agora aprofundarmos o debate sobre 3 temas que estão na pauta de discussão do movimento sindical petroleiro e que interessam diretamente aos trabalhadores desta empresa: os motivos para o segundo ano de prejuízos; a situação da dívida e a necessidade de venda de ativos; a redução do número de trabalhadores.

 

Por que a Petrobrás apresentou prejuízos pelo segundo ano consecutivo?

 

A partir de 2014, após as investigações da Operação Lava-jato chegarem a irregularidades cometidas por empreiteiras e fornecedores da Petrobrás, temos presenciado uma situação de perda de confiança da empresa frente a sociedade brasileira e internacional. Na tentativa de reverter esta situação, várias mudanças aconteceram, principalmente em relação a seu Conselho de Administração e sua Diretoria Executiva. Esta nova direção, envolvida pela pressão de seus acionistas e preocupada em retomar a confiança que a empresa perdeu frente ao “mercado”, corre o risco de passar para a sociedade uma ideia que a empresa está quebrada, que não é lucrativa, quando na verdade sua situação é outra. 

 

A Petrobrás realiza anualmente testes de recuperabilidade de seus ativos, avaliando-os principalmente quando não há indicativos de recuperação do seu valor contábil. Essa avaliação é conhecida no mercado como impairment e, para cada um dos ativos, pode apresentar perdas ou ganhos após esse processo. 

 

Nos últimos anos, percebemos que o crescimento das perdas com os impairments, principalmente em 2014 e 2015, fez com que seus resultados operacional e líquido apresentaram grandes prejuízos.

 

Lucro bruto, impairment, lucro operacional e lucro líquido da Petrobrás entre 2010 e 2015

Valores nominais, em R$ bilhões

Ano    Lucro Bruto      Impairment       Lucro Operacional    Lucro Líquido

2010    76,2                  0,07                    46,4                       35,9

2011    77,2                   0,7                    45,4                       33,1

2012    70,9                   0,3                    32,4                       20,9

2013    71,1                   1,2                    34,4                       23,0

2014    80,4                  45,4                   -21,3                      -21,9

2015    98,6                  49,7                   -12,4                      -35,1

 Fonte: Petrobrás, Demonstrações contábeis, vários anos

 

Em 2014, os principais motivos para a Petrobrás realizar um impairment de R$ 45,4 bilhões e um prejuízo de R$ 21,9 bilhões foram: as baixas contábeis nos projetos ainda em construção pela empresa, como o Comperj (R$21,8 bilhões) e Abreu e Lima (R$9,1 bilhões), por conta de postergações desses projetos por extenso período de tempo, motivadas por problemas na cadeia de fornecedores oriundos das investigações da Operação Lava Jato. Neste ano, a empresa teve dificuldades em publicar sua demonstração contábil do 3ª e 4ª trimestres, bem como sofria pressão para divulgar os “prejuízos” com a corrupção. 

 

Em 2015, o tema da corrupção quase não aparece nas demonstrações contábeis. Mesmo assim, a empresa opta por reavaliar seus ativos de E&P influenciados pela redução do preço do barril de petróleo. Neste ano os principais motivos foram: as baixas nos campos de produção de petróleo e gás no Brasil (R$33,7 bilhões); a redução do preço do barril de petróleo (redução de 47%); e revisão geológica do reservatório de Papa-Terra. É importante frisar, ainda, que a queda no preço do barril de petróleo inicia-se em fins de 2014 e seu ajuste no balanço da empresa aparece em 2015, ano que a média anual do preço (e não somente seu fechamento do ano) se retrai.

 

Vale ressaltar que, por outro lado, a queda no preço do barril de petróleo também traz resultados positivos para a Petrobrás. Como a empresa é responsável pelo abastecimento do mercado brasileiro de combustíveis, refinando praticamente 100% do total de derivados consumido no país, seu principal faturamento está na venda de combustíveis a este mercado. Para termos uma ideia desse efeito, o preço do barril de derivados básicos no mercado interno vendido pela Petrobrás ficou, em média, R$ 228,18. Se considerarmos o valor médio do dólar em R$ 3,34, o preço médio do barril vendido pela Petrobrás no mercado interno ficou em US$ 68,32. Com um custo de exploração, em média, de US$ 18,53 e de refino em US$ 2,46, a empresa apresenta um lucro, em média por barril, de US$ 47,33. Não é por acaso que o resultado operacional da área do abastecimento apresentou lucro de R$ 25,4 bilhões em 2015, mesmo com uma redução de 9% na demanda nacional de derivados.

 

Neste sentido, não podemos afirmar que a Petrobrás é uma empresa “quebrada”, olhando apenas para o prejuízo anunciado. Como mostramos, esse resultado foi influenciado pela escolha da empresa em realizar um impairment de seus ativos, utilizando para isso a queda do preço internacional do barril. Mas sua principal fonte de receita não está vinculada a este preço e sim a venda de derivados no mercado nacional. Trata-se assim de um prejuízo contábil, que impacta no resultado final da empresa, mas não em seu caixa. Como mostraremos abaixo, suas disponibilidades de caixa aumentaram em 121% em relação a 2014, e a empresa terminando o ano de 2015 com mais de R$ 97 bilhões em caixa, que somados aos títulos públicos de mais de três meses de vencimento, perfazem um total de R$ 100,9 bilhões.

 

Por que vender ativos para reduzir seu endividamento?

 

Em poucos meses a Petrobrás irá apresentar seu Plano de Negócios e Gestão (PNG) 2016/2020 e esperamos que possa mudar sua posição em relação às escolhas planejadas até aqui no PNG 2015/2019. O objetivo maior da empresa passou a ser a “disciplina de capital”, “reforçar a gestão de desempenho” e “foco na geração de valor para seus acionistas”. Com isso passa então a atuar na tentativa de reduzir seu endividamento, reduzir seus investimentos e realizar uma venda de ativos de cerca de US$ 57 bilhões até 2019, sendo US$14,4 bilhões somente em 2016. Mas, será que a empresa precisa realmente vender ativos para pagar sua dívida?

 

O endividamento total líquido da Petrobrás, valores em Reais, cresceu 39% entre dezembro de 2014 e dezembro de 2015, chegando a R$ 391,9 bilhões. O montante total da dívida cresceu 40%, mas as disponibilidades, principalmente em geração de caixa, cresceram também em 46%. Vale ressaltar que, como 74% do total da dívida da Petrobrás está em dólar, qualquer desvalorização na taxa de câmbio tem forte influência sobre a capacidade de gerar receita em dólar para cobrir a dívida.

 

Mesmo assim, no final de 2015, percebe-se uma redução do endividamento líquido, em dólares, de 5%, chegando a US$ 100,4 bilhões. Além disso, a empresa ainda anunciou um aumento do prazo médio da dívida, de 6,1 anos no final de 2014 para 7,14 anos no final de 2015.

 

Por outro lado, a Petrobrás terminou 2015 com geração de caixa operacional de R$ 86,4 bilhões, aumentando 39% frente ao ano anterior. Conseguiu R$ 56,1 bilhões em novas captações e terminou o ano com saldo em caixa de R$ 97,8 bilhões, montante 121% maior que o resultado de 2014. Vale ressaltar que ainda fez o pagamento de R$ 70,6 bilhões de suas dívidas, sendo R$ 49,7 de amortização do principal e R$ 20,9 bilhões de juros.

 

 

Neste sentido, iniciando 2016 com cerca de R$100 bilhões em caixa e considerando os US$ 10 bilhões (cerca de R$ 36 bilhões) provenientes do Acordo de financiamento assinado com o China Development Bank (CDB), em fevereiro de 2016, possivelmente a Petrobrás conseguirá os recursos necessários para quitação de sua dívida referente a este ano, cerca de R$ 76,6 bilhões (R$50,8 bilhões de principal e R$25,8 bilhões com juros). O próprio presidente da empresa, Aldemir Bendine, em café da manhã com jornalistas no dia 15/12/2015, falava que a Petrobrás encerraria o ano de 2016 com um caixa suficiente para honrar seus compromissos naquele ano. 

 

Uma empresa rentável como essa não teria necessidade de vender ativos para pagamento de sua dívida. Nestas condições, torna-se mais importante tomar decisões levando-se em conta o papel estratégico que vem desempenhando a Petrobrás para o país, avaliando sempre novas alternativas financeiras. Além disso, por conta das incertezas colocadas no mercado de petróleo, no Brasil e no mundo, não nos parece o momento ideal para negociação de venda de ativos, dado o momento desfavorável para a Petrobrás. Ela iria vender ativos com imenso valor econômico e social na “bacia das almas”?

 

Por que a redução de seus trabalhadores? 

 

Todo o Sistema Petrobrás terminou o ano de 2015 com 78.470 trabalhadores próprios, apresentando uma redução de 3% em relação ao ano anterior. Em relação aos terceirizados, a redução foi de 22%, saindo de 203.705 trabalhadores no final de 2014 para 158.076 no final de 2015. A relação entre o número de trabalhadores próprios e terceirizados na empresa reduziu de 2,5 vezes para 2 vezes.

 

Se considerarmos um período um pouco mais longo, de janeiro de 2014 a dezembro de 2015, período que coincide com a operação Lava-Jato e a queda no preço do barril do petróleo, percebemos uma redução de cerca de 210 mil trabalhadores, próprios e terceiros, em todo o Sistema Petrobrás. Entre os próprios a redução foi de 7.638 trabalhadores (de 86.108 para 78.470) e entre os terceirizados foi de 202.104 (de 360.180 para 158.076).

 

Ainda nesse processo de “enxugamento” do número de trabalhadores, em abril de 2016, foi anunciado o segundo Plano de Incentivo e Demissão Voluntária (PIDV), somente para a Petrobrás controladora, ou seja, para seus 56.046 trabalhadores. No PIDV lançado em janeiro de 2014 foram desligados 6.254 trabalhadores e ainda sairão outros 1.055 trabalhadores, totalizando 7.309 trabalhadores desligados. Segundo a empresa, existem cerca de 12.000 trabalhadores em condições de se aposentar e possíveis interessados neste novo PIDV. Se todos aderirem, teremos assim, no curto prazo, uma redução de quase 20.000 trabalhadores próprios, o que poderá reduzir a qualidade das operações da empresa, bem como trazer consequências negativas nas áreas de saúde e segurança.

 

Além disto, a empresa perde o acúmulo de conhecimento dos seus profissionais mais experientes. No futuro, com a recuperação do mercado de petróleo, esse conhecimento será imprescindível para a capacidade da empresa de fazer novas descobertas e inovações tecnológicas, mantendo-se competitiva tecnicamente em parâmetros internacionais.

 

(1) Esse texto tem como fonte principal as Demonstrações Contábeis publicadas pela Petrobras, em vários anos. Ver http://www.investidorpetrobras.com.br/pt/resultados-financeiros .

(2) Economista do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE). Responsável pela assessoria do DIEESE na Federação Única dos Petroleiros (FUP). 



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