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Colunista Eugênio Miguel Mancini Scheleder

Petróleo - Futuro do mercado ainda é uma incógnita

Data: 15/04/2016 
Fonte: Revista Brasil Energia Autor: Eugênio Miguel Mancini Scheleder

A Agência Internacional de Energia (AIE) prevê que o mercado global de petróleo atingirá o reequilíbrio somente em 2017. Uma recuperação de preços antes é improvável e o excesso de oferta levará mais tempo para ser absorvido do que foi previsto anteriormente.

 

Em seu relatório prospectivo de médio prazo, divulgado em 22/02, a AIE analisa o período 2016-2021 e, referindo-se ao cenário que considera mais provável, informa que em 2017 o fornecimento de petróleo estará alinhado com a demanda, mas, os estoques que estão se acumulando reduzirão o ritmo da recuperação dos preços. "É difícil vislumbrar, no curto prazo, uma recuperação significativa dos baixos preços que estão sendo praticados hoje", diz a Agência.

 

A AIE alerta, porém, para o risco de se considerar que o mercado tenha iniciado um novo ciclo de preços mais baixos. Em face da redução de investimentos que vem ocorrendo, uma elevação brusca de preços no final do período é tão possível como foi a acentuada queda iniciada em novembro de 2014. Em escala mundial, as despesas de capital da área de E&P deverão cair 17% em 2016, após um corte de 24% em 2015. São dois anos seguidos de redução, o que não ocorre desde 1986. Poucos analistas perceberam o início desse processo e, praticamente, nenhum foi capaz de prever a extensão da queda e a duração desse período de redução de preços.

 

A AIE prevê um acréscimo de 4.1 MM de bpd na oferta global de petróleo entre 2015 e 2021, valor bastante inferior ao crescimento de 11 MM de bpd, ocorrido no período 2009-2015. Essa redução decorrerá, segundo a Agência, do menor investimento no “upstream”, em resposta aos preços mais baixos resultantes do excesso de oferta.

 

Após cair em 2016, a oferta não OPEP permanecerá estável no próximo ano, com recuperação em 2018. É previsto um aumento de 2 MM de bpd até 2021, atingindo 59,7 MM de bpd. A produção americana de “shale oil” (LTO) deverá diminuir em 600 mil bpd em 2016 e em 200 mil bpd adicionais em 2017. Em novembro de 2014, eram 1.850 sondas operando nos Estados Unidos e, em fevereiro de 2016, esse número caiu para 487 unidades, mostrando como a atividade foi afetada pela queda dos preços do petróleo. No entanto, a AIE prevê que a produção americana voltará a expandir durante o período até 2021, aumentando 1,3 MM de bpd em relação a 2015, em face de reduções de custos e de melhorias na eficiência operacional. Essa recuperação garantirá que os EUA continuem a ser a maior fonte de nova oferta para 2021, com uma produção total de 14,2 MM de bpd.

 

A participação da OPEP no mercado global deverá subir para 33,8% em 2020, superando a projeção de 32,4% feita em 2015. A demanda por petróleo da Opep atingirá 34,8 MM de bpd até 2021, superior em 2,7 MM de bpd à de 2015. A AIE acredita que a demanda mundial de petróleo crescerá à taxa média anual de 1,2 MM bpd, chegando a 101,6 MM de bpd em 2021. O consumo da Índia vai liderar o crescimento da demanda global, enquanto o aumento da demanda chinesa deverá ser mais modesto, em face da previsão de um crescimento econômico menor. O comércio global de petróleo permanecerá orientado para a Ásia.

 

As dificuldades de previsão implícitas nos cenários elaborados pela Agência, associadas às inevitáveis perturbações de natureza econômica, estratégica e geopolítica que costumam influenciar o setor, mantêm as incertezas quanto ao comportamento do mercado de petróleo nos próximos anos. 

 

Os dados do relatório da AIE são um importante subsídio para os planos do setor petrolífero brasileiro, indicando que, pelo menos até 2018, o mercado global terá dificuldade para absorver ofertas novas significativas. Isso desestimula qualquer elevação da produção brasileira no curto prazo, visando à exportação. A revisão para baixo das metas de produção da Petrobras, alinhada com essa perspectiva, reduzirá a pressão sobre o caixa e oferecerá melhores condições, inclusive de prazo, para o gerenciamento da dívida que hoje limita as atividades da empresa. O limão pode virar uma limonada.

 

Em: 19 de março de 2016

Fontes: AIE e OilPro

 

*Eugenio Miguel Mancini Scheleder é engenheiro aposentado da Petrobras. Também exerceu cargos de direção no Ministério de Minas e Energia e no Ministério do Planejamento. Atualmente, exerce a função de Mediador Extrajudicial na Câmara de Conciliação, Mediação e Arbitragem – CCMA/RJ. 

 

(1) Este artigo foi publicado na edição de abril/2016 da revista Brasil Energia. 



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