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Colunista José Augusto Ribeiro

O Jornal do Brasil e a ciranda financeira

Data: 09/03/2016 
Autor: José Augusto Ribeiro

São muito sóbrios a  capa e o título do livro – apenas Jornal do Brasil – mas o conteúdo, para o leitor não jornalista, será pelo menos muito revelador. Para o leitor jornalista, sensacional, explosivo. É  o livro de Belisa Ribeiro, que trabalhou lá duas vezes, a primeira no início de sua carreira de jornalista e a segunda já no fim da vida do jornal. 

Para ambos os leitores, os capítulos de maior impacto são os que tratam da prisão, tortura e assassinato do ex-deputado Rubem Paiva no período mais sinistro da ditadura de vinte anos da qual nos livramos há trinta, e da bomba do RioCentro na véspera do 1º de maio de 1981. 

O caso Rubem Paiva foi reconstituído  depois, até porque na época em que aconteceu não havia como investigá-lo. No caso do RioCentro, os repórteres do JB começaram a agir antes mesmo que ele acontecesse, porque a redação do jornal recebeu já em hora tardia da noite um telefonema anônimo mas em nome de um desconhecido Comando Delta, avisando que corressem para lá, porque uma bomba explodiria naquele lugar, onde se realizava, com grande público, um show comemorativo do Dia do Trabalho.

Acionado pelo chefe de reportagem Luís Mário Gazzaneo, o repórter Ubirajara Moura Roulien chegou ao RioCentro momentos depois da explosão da bomba que matou o sargento Guilherme do Rosário, que a conduzia no colo, no banco do carona de um carro Puma.

Essas histórias  poderão ser lidas  no próprio livro, que, editado pela Record, deve estar em todas as livrarias. Aqui vou tratar de outra história contada no livro, mais identificada com os compromissos da Aepet – uma história que não chega a  cobrir  todo um capítulo, é contada em duas páginas.

O jornalista José Carlos de Assis, hoje também professor, era sub-editor de Economia do Jornal do Brasil e foi demitido por ter publicado, com destaque e até chamada na primeira página do jornal, a notícia de uma defesa de tese da professora Maria da Conceição Tavares.

A tese era sobre industrialização, mas na defesa, em cerimônia pública, Conceição atacou com a ferocidade habitual e encantadora de uma patriota brasileira nascida em Portugal, a ciranda financeira em que alguns ganhavam muito dinheiro aproveitando a correção monetária dos títulos negociados no mercado overnight. Naquele Brasil pós-milagre da ditadura, as facilidades e tentações da ciranda afastavam  do investimento em atividade produtiva (na indústria por exemplo) um dinheiro de que o país precisava desesperadamente para sair do atoleiro que se seguiu às crises internacionais do petróleo.

Os jornais não falavam dessa distorção perversa da economia e Assis aproveitou um plantão de fim de semana, no qual devia escolher também as notícias que apareceriam na primeira página do jornal no dia seguinte, um domingo, e pôs na primeira página a denúncia de Conceição. Era a primeira vez que  a expressão “ciranda financeira” saía do círculo fechado do debate universitário para o boca a boca das ruas.

Assis foi demitido no dia seguinte e achou até natural. Às forças dominantes  na economia brasileira de então não convinha que fosse conhecida popularmente a existência desse cassino não clandestino, no qual ganhavam todos e não apenas alguns dos apostadores, por meio de uma correção monetária paga com o dinheiro dos impostos arrancados a todos os brasileiros.

A história do jornalismo brasileiro, até a abdução de boa parte de uma geração inteira de profissionais pelo arrastão neoliberal, é sobretudo a história de jornalistas como José Carlos de Assis, por ousarem dizer verdades que desmascaravam os privilégios e o parasitismo dos ganhadores de dinheiro.

Era comum, nas redações, chegar a notícia da demissão de algum jornalista importante – Cláudio Abramo, Janio de Freitas, Washington Novaes, Alberto Dines, Luís Edgar de Andrade, Paulo Henrique Amorim e tantos outros – e a reação era  imediata e automática:

- Alguma ele fez!

Alguma era alguma coisa boa para o país, mas não para os parasitas convencidos de que  só o que era bom para eles podia ser bom para o Brasil.

Isso explica porque não há espaço na mídia para contestar as inverdades sobre a Petrobrás e  sobre as ambições privatizadoras  que avançam sobre ela. Explica, particularmente, o fato de ter passado no Senado, com a maior facilidade, o projeto do Senador José Serra que permite o afastamento da Petrobrás do Pré-Sal a pretexto de liberá-la de encargos supostamente insuportáveis para ela.

Pela mesma razão, não pode haver dúvida de que esse projeto passará sem dificuldade pela Câmara, só nos restando depois a alternativa do veto presidencial – uma alternativa bem pouco provável.



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