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Colunista José Carlos de Assis

Especulação sobre as perspectivas brasileiras até o ano de 2018

Data: 04/03/2016 
Autor: J. Carlos de Assis

A contração da economia brasileira no ano de 2015, segundo estatísticas oficiais que ainda serão revisadas, foi de 3,8%. Este ano, será de, no mínimo, 3,5% segundo o FMI, que em geral calcula por baixo. Para o próximo ano a probabilidade é que essas médias se repitam já que não há perspectiva, até o fim deste ano, de retomada do investimento público. Ao contrário, tem havido mais cortes. Em suma, teremos uma contração acumulada em três anos da ordem de 12%, fazendo explodir a taxa de desemprego para algo em torno de 15%, e para o dobro entre jovens e quarentões.

 

Do ponto de vista político, se não houver mudança na política econômica que está por trás dessa tragédia econômica e social, o PT e os partidos da base do Governo serão varridos do mapa nas eleições de 2018. No meu modo de entender, isso aconteceria mesmo que Lula viesse a se desvencilhar do cerco judicial implacável que lhe estão fazendo e confirmasse a candidatura à Presidência que já anunciou.  Nesse caso, qual seria seu discurso? Que a culpa é da crise mundial? Que a culpa é das oposições? Que a culpa é de Dilma, como de fato seria?

 

Bom, mas foi Lula quem criou Dilma. A opinião pública receberia com naturalidade um rompimento dele com ela por conta de uma política econômica que, no fundo, tem sido uma continuidade desde 2002 - exceto nos anos gloriosos de 2009 e 2010, quando, em plena crise mundial, tivemos as maiores taxas de crescimento do planeta, junto com China e Índia, graças a uma política inteligente de investimentos deficitários? Duvido que, a despeito do carisma inegável de Lula, a maioria do eleitorado apostaria novamente nele, mesmo porque as oposições, com alguma razão, lhe cobrariam um programa consistente para vencer o desemprego recorde, cuja credibilidade teria dificuldade de sustentar.

 

Portanto estamos num ponto de afundamento completo do projeto social progressista que esteve na origem da pregação do PT junto com outros partidos aliados. Nesse contexto, a única salvação seria uma mudança drástica e imediata na política econômica que salvasse parte de 2016 e 2017. Mas esqueçam as mudanças perfunctórias. Seria uma virada brusca no navio já que não há possibilidade real de retoques parciais. É preciso uma política monetária oposta à que está aí, significando uma verdadeira política macroeconômica anticíclica e virando de cabeça para baixo a política fiscal de geração de superávits primários.

 

Essa mudanças fundamentais, confrontando diretamente o neoliberalismo, deveriam convergir para uma retomada vigorosa dos investimentos públicos deficitários, a começar pelos da Petrobrás, os quais, ao contrário de outros investimentos em infraestrutura que demandam tempo, podem ser retomados quase imediatamente. Tudo isso significa uma forte interferência do Estado na economia do tipo da realizada por Roosevelt nos anos da Grande Depressão, repelindo de vez essa manipulação ideológica suicida, comandada pela grande mídia, segundo a qual temos que ter superávit primário, e não déficit fiscal, mesmo em depressão.

 

Essa virada requer uma vontade coletiva única e férrea só possível no contexto de grandes crises. Creio que há iniciativas nessa direção já em andamento no Congresso, como a Frente para a Defesa da Petrobrás, que se reuniu com grande afluência de público e parlamentares na última quarta-feira, e a Aliança pelo Brasil, que propõe justamente, ao lado da defesa da institucionalidade no plano político, a mudança radical da política econômica. O ponto comum entre as duas iniciativas é que a Aliança tem como prioridade absoluta a retomada dos investimentos da Petrobrás aos níveis de meados de 2014, mediante um esquema de financiamento que já propusemos, tendo em vista a força de empuxe que isso teria sobre o conjunto da economia. 

 

Pode ser que as forças progressistas não consigam viabilizar seu programa junto à Presidenta. Acontece que as oposições também não tem alternativa a oferecer, a não ser o mercado livre. Nesse caso, estará aberto o caminho para um aventureiro salvador da pátria que usará os parâmetros do neoliberalismo para acabar de afundar com a economia e a sociedade, como aconteceu na Alemanha liberal pré-nazista. Como não sou especialista em movimentos de massa, me abstenho de fazer conjeturas sobre a reação dos que forem despojados de um governo que ajudaram a eleger. Acredito apenas que está no horizonte um clima de convulsão social, caminhando para algo ainda pior. Até que os militares nos pacifiquem, promovendo um lado ganhador que não sei bem qual seria!

 

*Economista, doutor pela Coppe/UFRJ.



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