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Colunista Ronaldo Tedesco

O voto nulo neste segundo turno das eleições para o C.A. Da Petrobrás

Data: 11/02/2016 
Autor: Ronaldo Tedesco

Por Ronaldo Tedesco - A eleição do representante dos trabalhadores no Conselho de Administração da Petrobrás este ano será decidida em segundo turno sem que haja uma candidatura que conjugue características que são fundamentais: um programa claro em defesa dos trabalhadores e da Petrobrás com uma atuação independente do governo e da direção da companhia. E que se apoie na organização e na luta dos trabalhadores.

 

Por um lado, vemos a candidatura à reeleição de Deyvid Bacelar, representante da FUP, a Federação Única dos Petroleiros, ligada à Central Única dos Trabalhadores (CUT). Deyvid é coordenador do Sindipetro Bahia, um dos mairoes sindicatos dos petroleiros no país. De origem sindical, a postura pró-governo do atual representante tem se manifestado desde o início de sua gestão. A nomeação do presidente Adelmir Bendine pelo governo Dilma foi seguida de um comentário satisfeito de Deyvid: “ainda bem que não foi um nome do mercado”. Ledo engano. O que se vê desde o início é uma administração inteiramente voltada aos interesses do mercado, sem nenhum compromisso com a companhia, pagando impostos questionados pelo corpo técnico da companhia de valores da ordem de R$ 5 Bilhões, sufocando o fluxo de caixa, atacando o caráter integrado da Petrobrás, vendendo ativos (leia-se: privatizando). Não se observa por parte do atual representante qualquer reação à altura. Esperava-se que Deyvid viesse a público para corrigir sua observação precipitada, o que nunca aconteceu. Seu silêncio diante do governo é cúmplice.

 

A despeito das dezenas de declarações contra a venda da Gaspetro, BR, Transpetro etc, os compromissos da FUP com o atual governo não permitem que seu representante tenha uma atuação mais incisiva e determinante em favor dos seus representados. O programa de Deyvid não vai além das palavras de ordem contra a privatização. Não consegue sugerir e lutar por medidas básicas para defender a Petrobrás, como a saída do presidente Bendine, ou a liberação de empréstimos do BNDES para a companhia poder sair do sufoco por que está passando. Não se posiciona sobre o ataque a engenharia básica do Cenpes ou sobre a reestruturação imposta pela atual gestão da companhia.

 

As denúncias sobre as práticas de corrupção que se instalaram na companhia e que tinham aflorado durante os mandatos independentes apoiados pela Associação dos Engenheiros da Petrobrás (Aepet) e a Federação Nacional dos Petroleiros (FNP), como foi no caso da compra da refinaria de Pasadena, desapareceram nos mandatos da FUP.

 

Esquerda questionada - Há que se afirmar, porém, que as candidaturas independentes do governo não conseguiram entusiasmar os trabalhadores. A Aepet, que apoiou diversas candidaturas que tinham este caráter e este programa, e a FNP, que lançou o coordenador do Sindipetro LP, Adaedson, para contrapor a candidatura governista, não conseguiram, juntas, somar os votos necessários para combater o candidato governista. Sem a liderança necessária para se afirmar como alternativa, o movimento sindical combativo demonstra uma fraqueza maior que deveria. Há um longo caminho a ser trilhado na construção de uma direção alternativa classista para os trabalhadores. Mas a despeito de suas falhas e insuficiências, esta construção não se faz por atalhos.

 

Com origem nas lutas dos trabalhadores contra o neoliberalismo nas décadas de 1990 e 2000 mas, também, das lutas contra a corrupção que contamina a sociedade brasileira, o atual governo sucumbiu a corrupção que dizia combater. Ignorando o anseio de milhões de trabalhadores que lutaram, fizeram greves, mobilizações e votaram em diversas eleições para “mudar tudo isto que está aí”, os governistas de plantão absorveram os métodos e as práticas que diziam condenar, passando a participar de tenebrosas transações.

 

Fruto desta confusão ética e moral que se instalou no meio da classe trabalhadora, o sentimento contra a organização sindical e associativa veio num crescente nos últimos anos. Este repúdio não se volta somente contra o lulopetismo. Apesar das práticas neoliberais do governistas serem combatidas pelos demais setores que se mantiveram firmes em defesa do programa e dos métodos abandonados pelo lulopetismo, a classe média e os setores mais sofridos da população se rebelam contra todos aqueles companheiros e organizações que identificam com um programa de esquerda. Não é só o sindicalismo fupista que está sob questionamento, mas toda a organização dos petroleiros, os sindicatos combativos, a FNP, os ativistas e grevistas de nossas lutas, nossas associações de classe. O neoliberalismo dá risadas quando percebe que os trabalhadores viram as costas para suas organizações sindicais e políticas.

 

Longe das lutas coletivas - Neste contexto é que surge a candidatura de Betania. É originária da insatisfação de diversos novos empregados da Petrobrás que, se é verdade que não conheceram por dentro os embates dos petroleiros com o programa neoliberal de Collor, Itamar e FHC, também não se satisfazem com a postura atual do sindicalismo governista, submissa ao partido, ao governo e à direção da companhia. Com isto, questionam tanto as lutas sindicais como a organização das entidades e associações que surgem a partir destas.

 

Não por acaso esta candidatura não era conhecida dos lutadores da categoria. Não está, como não esteve, presente em nossas lutas. Não se sente representada por estas lutas e as ignora. Não denuncia as privatizações. Não denuncia os ataques aos trabalhadores. Não se posiciona em relação as questões de seguranças no trabalho. Não abre a boca para falar da morte dos trabalhadores em seus locais de trabalho como a terrível morte de um operador da Reduc no último dia de janeiro.

 

Estas questões não são parte de suas preocupações. Por isso, não possui em seu programa um posicionamento firme contra a venda de ativos que Bendine e Dilma promovem. Trata a questão como uma decisão a ser tomada em função das circunstâncias. Não reconhece a estratégia que está em andamento para a destruição da Petrobrás como uma conquista do povo brasileiro. E assim, coloca a defesa da Petrobrás na trilha da derrota diante do neoliberalismo, tal e qual a omissão, a fraqueza e o caráter contraditório da federação governista o faz.

 

Produzir riquezas a serviço do povo - A exploração, produção, refino e abastecimento do petróleo e seus derivados é uma questão estratégica para os petroleiros e para o Brasil. É decisiva. Tem que estar a serviço do conjunto da sociedade. A opção não pode ser colocar o  resultado deste trabalho ímpar a serviço do enriquecimento de uma pessoa ou um grupo de pessoas. E as privatizações fazem justamente isto. Privatizam o que deveria ser coletivo. Não é, portanto, um debate circunstancial. É fundamental um posicionamento firme contra todo e qualquer tipo de privatização da companhia. Por que disso depende o nosso destino como nação.

 

É preocupante que a candidatura de Betania não esteja a serviço dessas lutas. É preocupante que nada fale sobre a proposta aventada recentemente de venda casada da Reduc, Regap e do Comperj a um acionista privado. Igualmente sobre a BR ou sobre a Transpetro. Por que o ataque de Bendine a engenharia básica do Cenpes não é objeto de suas preocupações? Por que não se manifesta em relação a reestruturação e a demissão de milhares de trabalhadores contratados que está sendo feita por Bendine? Não dá para esperar para saber sua posição sobre todos estes assuntos somente depois que sua eleição for confirmada. É passar um cheque em branco que não devemos passar para a FUP, nem para ninguém.

 

Diga não também ao menos pior - As conclusões deste processo ainda estão em aberto independentemente do resultado eleitoral que está por vir. Tanto governistas como a candidatura que se apresenta como alternativa neste segundo turno são duas faces de uma mesma moeda. Resta aos que lutam a afirmação do seu programa e de seu método, longe das aventuras que podem nos levar a derrotas ainda maiores.  O elemento chave será sempre a possibilidade que nossas lutas têm de impedir que o retrocesso se instale.

 

A democracia representativa volta e meia nos coloca nesta situação de optar pelo menos pior. Não devemos sucumbir a esta lógica. O menos pior não nos serve hoje como não nos servia antes. Se não está a serviço de nossos interesses não merece nem representatividade, nem credibilidade.

 

Somente nossa luta pode mudar a vida.

 

* Ronaldo Tedesco é diretor de comunicação da Aepet e Presidente do Conselho Fiscal da Petros



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