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Colunista José Augusto Ribeiro

O cerco dos excluídos (2)

Data: 07/10/2015 
Autor: José Augusto Ribeiro

Lembrei-me do episódio quando começava a escrever sobre um caso muito distante, geograficamente, o dos refugiados da Síria, no momento – rapidamente esquecido, como tudo nesta era midiática – em que todos se mostravam indignados diante da foto do menino morto numa praia da Turquia. 

 

Era outra a praia do episódio de que me lembrei – a de Ipanema, no Rio.

 

Numa noite, já bem tarde, saíamos da TV-Bandeirantes, em São Paulo, e fomos levados por Marília Gabriela ao restaurante recém-aberto de um amigo seu. Creio que estava cheio, sem mesas vagas, porque um conhecido de Gabi achegou-se a pretexto de cumprimentá-la e foi-se instalando em nossa mesa, para contrariedade visível dela.

 

O sujeito era mais bem vestido que apessoado, bem vestido demais, num terno brilhoso e indiscutivelmente caro. Logo se apossou também da conversa e, informado que eu era do Rio, tratou de contar da decepção de seu recente fim de semana num dos hotéis de luxo da Avenida Vieira Souto, na Praia de Ipanema.

 

Ele chegara pela última ponte aérea, tarde da noite, e só tivera disposição, antes de dormir, para dois uísques e um jantarzinho no próprio hotel. Na manhã seguinte, de sábado, acordou cheio de energia , com grande apetite pelo sol e pelo mar. Pulou da cama e correu à janela, para abrir a cortina. Mas aí, que susto:

 

- Era aquela mancha marrom, enorme!

 

*  *  *

 

Anos antes, a construção do emissário submarino, nome ciclópico de um esgoto avantajado que despejaria em mar alto a merda de milhões de cariocas da Zona Sul da cidade, fora marcada por mais de um acidente e ejetara grandes volumes marrons ainda na arrebentação, volumes que as ondas devolviam a terra firme e às celebradas areias de Ipanema.

 

O emissário submarino jogara merda também, metaforicamente, no ventilador do ex-Ministro e Embaixador Roberto Campos, que nesse momento chefiava nossa representação em Londres. Lá ele teve de receber a visita sempre ameaçadora do General Octávio Medeiros,  que ainda não era Chefe do SNI, mas diretor de sua Escola Nacional de Informações. 

 

Campos convidou Medeiros para um almoço e na conversa, para evitar questões e perguntas mais espinhosas, preferiu fazer piada com a obra do emissário, mas não resistiu à tentação de associá-la à Petrobrás, da qual se considerava inimigo pessoal. Depois da primeira crise do petróleo, deflagrada em 1973, o Presidente Geisel decidira acelerar a ida da Petrobrás para o mar, em busca das promessas na Bacia de Campos, um primeiro passo que acabaria por levar-nos ao Pré Sal. 

 

Sem se dar conta do perigo que era qualquer coisa dita ao sombrio General Medeiros, Campos disparou, referindo-se aos acidentes do emissário submarino:

 

- Veja, General, o Brasil não tem competência para administrar a própria merda e se mete a instalar essas tubulações enormes no fundo do mar, em busca de petróleo.

 

O General Medeiros, fã incondicional de qualquer nova badalhoca de espionagem, tinha no bolso um gravador que registrou a piada. Medeiros  espalhou-a por todos os lugares de Brasília onde ela pudesse arruinar o futuro do Embaixador.

 

*  *  *

 

O episódio do turista de Ipanema aconteceu muitos anos depois. Assim, a mancha marrom que o assustou não era a dos dejetos do emissário submarino. A mancha marrom era de gente, gente marrom, dejetos, quem sabe, de uma sociedade dividida entre os privilégios de poucos e a exclusão de muitos. Eram pessoas que, aos olhos dele, não deviam estar ali, que não sabiam qual era seu lugar. O curioso é que esse sujeito não se reconhecia como intruso, dizendo tais coisas na mesa de pessoas pelas quais não fora convidado.

 

A rejeição aos refugiados deve ter, no fundo, a mesma explicação psicológica – eles também não deviam estar ali, eles são a mancha marrom que avança pela alvura do mundo dos ricos. Acontece, porém, que as manchas marrom ao redor do planeta são compostas de muitos e as reservas brancas e privilegiadas comportam muito poucos – e a desigualdade crescente entre os que têm e os que não têm leva os que têm a uma sensação de cerco e de medo, porque os outros podem um dia cansar de ser o que são.

 

A seguir: 

As geladeiras e os carros do Governador Carvalho Pinto 



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