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Colunista José Augusto Ribeiro

As pesquisas do Datafolha sobre a Petrobrás

Data: 25/03/2015 
Autor: José Augusto Ribeiro

Duas  pesquisas muito recentes do Datafolha, o instituto de pesquisas associado à Folha de S. Paulo, divulgadas creio que com exclusividade por esse jornal (notícia  publicada no domingo, 22 de março, mas logo retirada do site da UOL, também associado à Folha), revelaram números muito desagradáveis e decepcionantes para o pessoal que no fundo festejava a revelação das patifarias na Petrobrás, na esperança de que elas afinal conduzissem à privatização da empresa; mas também desagradáveis para o governo.

 

Essa esperança de privatização, nascida simultaneamente à criação da Petrobrás, há mais de sessenta anos, renasce a cada problema em nossa economia petroleira e foi alimentada com grande entusiasmo pelas notícias sucessivas, cotidianas, como que obsessivas, da Operação Lavajato.

 

Para muita gente, no governo e na periferia de seus defensores mais obstinados e até fanatizados, tudo isso que nos é contado não passa de invenções perversas de uma conspiração das elites. As confissões, as propostas de delação premiada, as decisões do juiz Sérgio Moro fariam parte, igualmente, dessa conspiração diabólica. 

 

Minha experiência pessoal, porém, a convivência e o contacto ocasional com muitas pessoas do povão mais desprivilegiado mostram que os moradores de andar de baixo de nossa sociedade, e até dos subterrâneos da sub-habitação, são os brasileiros mais indignados. Eles ralam num cotidiano degradado e veem os malandros serem flagrados com depósitos milionários no exterior, propondo devolver centenas de milhões em troca de algum desconto em suas futuras sentenças, assim como acompanham pela TV os lances do leilão do carro de luxo confiscado a uma doleira que não passa de figurante na farra das propinas, mas gastou, só na compra desse carro, o que um trabalhador de salário mínimo levará quase dois anos para ganhar.

 

Em outro nível de preocupação, caberia lembrar aos defensores da tese da conspiração das elites que as decisões do juiz Sérgio Moro – por mais severas que pareçam, como a prisão prolongada de homens poderosos, ex-diretores da Petrobrás e presidentes e vice-presidentes de empreiteiras das maiores do país – não têm sido revogadas pelas instâncias superiores da Justiça. Nem os presos têm insistido com pedidos de habeas corpus, sabendo, certamente e mais que ninguém, como estão com o rabo preso.

 

Pois, num momento em que a Petrobrás nunca esteve tão por baixo como agora, uma das duas pesquisas do Datafolha revela que 61% dos brasileiros entrevistados são contra a privatização da Petrobrás. Mais de trinta anos depois da ascensão do arrastão neoliberal em escala planetária e submetidos à hegemonia de um pensamento único tão hostil à presença do Estado na economia (e ao próprio Estado e suas instituições políticas), os brasileiros ainda mantêm, majoritariamente, a convicção de que a Petrobrás não deve ser privatizada. É como se ecoassem o refrão de sessenta anos atrás: o petróleo é nosso!

 

Os resultados detalhados dessa pesquisa oferecem também dois dados merecedores de consideração, sobre a opção eleitoral dos entrevistados no ano passado.

 

Dos simpatizantes do PSDB, 56%, portanto a maioria absoluta,  também são contra a privatização. 

 

Dos simpatizantes do PT, 67% também não querem a privatização, o que faz acender um sinal amarelo de advertência. No maniqueísmo fundamentalista de nossos dias, quem não está com o governo está contra a Petrobrás. Então seria de supor que os simpatizantes do PT contrários à privatização fossem todos, ou seja, 100%. Mas são apenas 67%. Isso significará que os 33% restantes querem a privatização?  Deduzir isso seria uma reação igualmente maniqueísta e fundamentalista.  Desses 33% que não se definiram claramente contra a privatização, muitos podem não ter opinião ou sequer conhecimento do problema.

 

O que, aliás, não deixa bem o PT, por nunca ter dado à questão nacional a mesma prioridade  que confere à questão social, como se fosse possível um país realizar seu desenvolvimento e avançar com a justiça social sem cuidar de sua soberania. 

 

Getúlio Vargas, fundador da Petrobrás, pensava que não há justiça social sem desenvolvimento, nem desenvolvimento sem soberania. Mas, como sabemos, muita gente no  PT continua, ainda hoje, fazendo péssimo juízo de Getúlio, embora ele tenha dado a própria vida para preservar a Petrobrás e, entre outras coisas, a legislação trabalhista da qual foi pioneiro.

 

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A outra pesquisa recente do Datafolha diz que, para 84% dos entrevistados, a Presidente Dilma sabia das negociatas na Petrobrás. A pesquisa tem outros dados alarmantes, mas sua exposição e discussão não caberiam no espaço deste artigo e devem ficar para o próximo.

 

 

 

 



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