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Colunista José Augusto Ribeiro

O Oscar de Stephen Hawking

Data: 06/03/2015 
Autor: José Augusto Ribeiro

O ator Eddie Redmayne , protagonista do filme  A Teoria de Tudo, ganhou o Oscar deste ano por sua interpretação do físico, astrofísico e cosmólogo britânico Stephen Hawking, que desde os trinta e poucos anos  sofre da terrível Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA) , teve a estimativa de apenas mais dois anos de vida e já viveu mais de quarenta depois disso, com uma produção intelectual que seguramente o colocará na história da ciência no mesmo plano de Sir Isaac Newton.

 

O prêmio parece ter sido atribuído a Redmayne  sobretudo pela perfeita imitação que fez de Hawking,  a partir de uma grande parecença fisionômica, mas sobretudo de um espantoso esforço de expressão corporal. Como podemos às vezes ver em imagens disponíveis na internet, a doença provocou enormes deformações no rosto e no corpo de Hawking.

 

Desde o primeiro sintoma, um tombo sem razão aparente,  e passando pelo diagnóstico assustador, Eddie Redmayne nos mostra a obstinada e corajosa resistência de Stephen Hawking, que não se intimidou, não perdeu o humor, não abriu mão de viver, aceitou o amor da mulher que o amava e dedicou-se ainda mais intensamente ao trabalho que o consumia, no fundo o mesmo dos grandes cientistas e filósofos de todos os tempos: tentar explicar a origem do universo em que vivemos.

 

Na reconstituição da luta de Stephen Hawking em busca da superação, o ator realiza uma espécie de documentário, o que um documentário em sentido estrito jamais teve condições de realizar.Talvez essa reconstituição seja mais inteligível para que viveu e vive, como o autor destas linhas, a experiência das sequelas de um AVC, que está bem longe, é até uma adversidade benigna, em comparação com os efeitos devastadores da ELA. 

 

É impressionante a sequência do Stephen Hawking de Edde Redmayne subindo a escada de sua casa, literalmente de bunda (com perdão das almas mais sensíveis) , sentado, as pernas sem o menor movimento, contorcendo-se agarrado aos varais do corrimão, ao encontro do filho pequeno que o espera impaciente no andar de cima.

 

O mais impressionante é  que em nenhum momento somos levados a  sentir pena do Hawking da vida real.  Minha atitude, e creio que a de todos, foi torcer pelo mocinho, assim como na infância torcíamos pelos heróis cinematográficos da geração de cada um. E o filme deixa claro que o próprio Hawking nunca sentiu pena de si mesmo.

 

Talvez o mais importante no caso de Stephen Hawking seja o estímulo que ele apresenta aos neurocientistas, como o brasileiro Miguel Nicolelis, que lutam para oferecer alternativas  às pessoas com doenças neurológicas, da ELA ao AVC, passando por tantos paraplégicos e tetraplégicos e uma infinidade de pessoas com outras deficiências, e também a todas essas pessoas.

 

Hoje se fala muito em superação e temos a estimulá-la as Paraolimpíadas acopladas à festa planetária de cada quatro anos,  acessível a bilhões de telespectadores de todo o mundo, dos  Jogos Olímpicos, marcados para o Rio em 2016. Mas a história, dos tempos antigos aos mais recentes, está repleta de casos impressionantes de superação. O Homero da Ilíada e da Odisseia, era cego. Demóstenes, o maior orador de todos os tempos era gago e venceu a gagueira. John Milton, o poeta do Paraíso Perdido e o pensador político da Aeropagítica, também era cego. Beethoven compôs e regeu sua Nona Sinfonia, uma das maiores, se não a maior obra musical de todos os tempos, inteiramente surdo. E nosso Aleijadinho?

 

Nesse passado, é verdade, a superação era para poucos. No presente já pode ser para muitos; no futuro, para todos, porque a ciência e a tecnologia estão avançando vertiginosamente nesse sentido. É só pensar nos progressos recentes e presentes da neurociência e nas realizações fantásticas  do cientista brasileiro Miguel Nicolelis, autor do exoesqueleto que permitiria a um paraplégico dar o chute inicial na recente Copa do Mundo, experiência frustrada pela Fifa, com medo de que a breve caminhada do rapaz estragasse o gramado do novo estádio do Corinthians.

 

Além de quase todos os movimentos do corpo, Stephen Hawking perdeu até a fala, depois de uma traqueostomia que o salvou de uma pneumonia mortal. Pois a tecnologia lhe deu a capacidade de falar por outra voz, que lê o que ele escreve num computador com um aparelhinho do tamanho de um celular, digitando letra por letra ao que parece com um só dedo. 

 

Sem precisar dessa voz, ele escreveu assim um de seus livros mais importantes, a Breve Hisória do Tempo. Recorrendo à voz postiça, Hawking realiza palestras para grandes auditórios e aproveita para namorar, com charme irresistível, as moças e senhoras que o sabatinam.

 

A tecologia disponível para Hawking logo estará disponível para outros, se é que já não está. O exoesqueleto já teve sua comercialização autorizada pelo governo dos Estados Unidos e há poucos meses um inglês atropelado por um  caminhão e atingido por graves danos na medula, o que o deixou paraplégico, comprou ou alugou um deles e participou de pé e caminhando do casamento da filha, numa igreja da Inglaterra.

 

A possibilidade de superação até em casos extremos, como a ELA,  muda radicalmente a perspectiva de vida para milhões de pessoas. 



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