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Colunista José Augusto Ribeiro

O perigo interno

Data: 07/01/2015 
Autor: José Augusto Ribeiro

Na profusão de notícias das últimas semanas sobre a Petrobrás e os escândalos que envolvem alguns de seus ex-diretores e dirigentes de algumas das maiores empreiteiras do país, é natural que algumas notícias falsas tenham sido plantadas na mídia ou que alguns fatos verdadeiros tenham sido deformados. Os indivíduos e grupos interessados em desmoralizar a Petrobrás para criar um clima de opinião pública favorável à sua privatização não poderiam contar com nada melhor que os acontecimentos em curso.

 

Do lado, porém, de alguns defensores mais passionais do governo, surgiu um fenômeno muito perigoso para a própria Petrobrás: a tentativa de negar fatos que estão fora de dúvida, fatos reconhecidos publicamente até pela Presidente Dilma Roussef. 

 

Para ficar num exemplo: desde a compra da Refinaria de Pasadena, a Aepet foi contra essa operação e talvez tenham partido dela os primeiros protestos. Ninguém vai me fazer acreditar que a Aepet estava agindo contra a Petrobrás. Hoje até a Sra. Graça Foster reconhece que a compra de Pasadena foi um mau negócio, como declarou no Congresso antes mesmo das confissões e delações premiadas que nos assombram a cada dia.

 

Assim como se opôs à compra de Pasadena, a Aepet se opôs a muita coisa que os governos impuseram à Petrobrás, tanto no período de Fernando Henrique Cardoso quanto na Era Lula. É o caso, por exemplo, dos leilões de áreas de exploração de petróleo promovidos pela ANP, sempre organizados em benefício das multinacionais e em prejuízo da Petrobrás. 

 

Ao ceder à chantagem dos grupos partidários que impuseram e fizeram tudo para manter diretores como esse inacreditável Paulo Roberto Costa, o governo Lula cometeu um erro trágico que na verdade teve origem muito antes.

 

Como ouvi de um amigo e ex-colega que foi deputado várias vezes pelo PT, Milton Temer, o PT nunca deu a devida importância à questão nacional, a questão da soberania do Brasil, e fixou-se apenas na questão social. Por isso, os governos da Era Lula não tiveram, em relação à Petrobrás, a mesma coragem demonstrada, por exemplo, no desafio que foi a Comissão Nacional da Verdade. Uma exceção foi o Pré Sal.

 

Coragem mesmo teve o então Diretor de Exploração e Produção da Petrobrás, Guilherme Estrela, ao mobilizar todos os recursos disponíveis no que para muitos poderia parecer uma aventura insensata. Se o Pré Sal desse em nada ou apresentasse resultados medíocres, isso estaria na lógica e nas estatísticas da indústria mundial do petróleo: em geral ocorrem mais fracassos que êxitos em qualquer experiência pioneira como essa. Estrela, porém, seria crucificado, como exemplo da incompetência das empresas estatais, e o governo seria acusado de entregar a um petrossauro, como os chamava Roberto Campos, uma diretoria de tal responsabilidade. Como o Pré Sal deu muito certo, começou imediatamente a corrida para transferir a empresas multinacionais a exploração daqueles recursos, em cuja descoberta elas não tinham investido um centavo de dólar e nem ao menos uma gota de suor ou um suspiro de inveja.

 

Foi aí que o governo Lula teve coragem. Como reconheceu o próprio Estrela em entrevista ao programa Debate Brasil, da Aepet, Lula e a então Ministra das Minas e Energia, Dilma Roussef, tiveram a coragem de optar por um novo modelo legal de exploração dos recursos do Pré Sal, o regime de partilha e não mais o das concessões. Se a coragem foi grande, a solução não foi a natural, que seria a outorga integral dos campos do Pré Sal à Petrobrás, sua descobridora única. O regime da partilha pagou pesado pedágio às multinacionais (e aos interesses dos Estados Unidos), concedendo a elas o direito de investir em lotes explorados diretamente pela Petrobrás, em áreas nas quais a Petrobrás estabeleceu sozinha a certeza de que existe petróleo. Por esse investimento, as multinacionais terão grandes lucros. É como se comprassem pelo preço original, de antes do sorteio, bilhetes de loteria já premiados.

 

O ideal, no ponto de vista da Aepet, seria o retorno ao modelo do monopólio estatal do petróleo, tal como definido pela Lei 2.004, de 1953, que criou a Petrobrás. Sendo isso difícil ou impossível naquele momento, a Aepet entendeu que o regime de partilha constituía pelo menos um avanço em relação ao regime das concessões.

 

Pouco tempo depois desse avanço, acontece o desastre do escândalo agora denunciado. Ou seja, tipos menores, como esse Paulo Roberto, põem em grande risco as realizações de homens de verdade, de coragem e integridade, como Guilherme Estrela. Esse é o perigo maior para a Petrobrás, o perigo instalado lá dentro. Os grupos empenhados em acabar com ela nem precisam de um cavalo de Troia para invadi-la, porque ela não é atacada de fora para dentro e sim de dentro para fora. 



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