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Colunista Diomedes Cesário

A Petrobrás não é Paulo Roberto Costa

Data: 22/12/2014 
Autor: Diomedes Cesário

A Petrobrás não é Paulo Roberto Costa, nem Pedro Barusco. Ela é cada um dos seus empregados que retiram o petróleo do fundo do mar a centenas de quilômetros da costa, transformando-o em gasolina, diesel, gás de cozinha e outros derivados e fornecendo o combustível para o país mover sua economia.

 

Mas, perguntará o leitor: mas, como vocês não viram o que estava acontecendo, no meio de tantos superfaturamentos, indicações políticas e do cartel das empreiteiras?

 

Os empregados da companhia são selecionados e treinados continuamente para poder estar entre os melhores disponíveis nas suas especialidades. Fazem seus relatórios técnicos, projetos e avaliações para aprovar ou rejeitar projetos, equipamentos e serviços. Estas avaliações percorrem a estrutura gerencial até as assinaturas dos contratos. Além das auditorias internas, há acompanhamento de diversos órgãos federais como o TCU e a CGU. 

 

Manifestação do corpo técnico


Apesar de toda esta estrutura, os empregados da empresa foram surpreendido com as denúncias e revelações dos ex-dirigentes e de outras pessoas de fora da empresa. O sentimento geral é de constrangimento e indignação, que foi veiculado através de manifesto  em junho passado, sem divulgação nos meios de comunicação.

 

A AEPET (Associação dos Engenheiros da Petrobrás), que representa o corpo técnico da empresa, sempre levou ao conhecimento da direção da empresa as preocupações que lhe eram transmitidas pelos seus associados, de exigência de prazos, quantidade de obras, compras em fornecedores não tradicionais e sem experiências comprovadas de diversos equipamentos. 

 

Criticou insistentemente a contratação de obras pelo regime de EPC (“Engineering, Procurement and Construction”), onde o contratado fica responsável por fazer o detalhamento do projeto, comprar os equipamentos e montá-los. A justificativa dada é eliminar interfaces entre etapas e agilizar o empreendimento. Os resultados finais dos custos e prazos dispensam comentários.

 

Uma vez ganho o contrato, passam a tentar negociar aditivos para cumprir  prazos e requisitos técnicos constantes dos projetos, visando elevar seus lucros. Fabricantes tradicionais, principalmente nacionais, são descartados em detrimento de outros sem  experiência e qualificação no exterior, sob a justificativa de cumprimento de prazos. 

 

Apesar dos bilhões de dólares de investimentos da Petrobrás, as fábricas de seus fornecedores no país estão vazias. 

 

A mudança cultural


Os empregados da Petrobrás sempre vestiram a camisa da empresa, fiéis à missão de abastecimento do país aos menores custos, de forma rentável, para gerar os recursos de seus investimentos. 

 

Este espírito de corpo é antigo, como ocorreu no pedido de afastamento do general Albérico Barroso Alves do cargo de diretor da empresa, em 1989

 

No início dos anos 2000, uma decisão desencadeou uma mudança fundamental na empresa. Segundo a lenda, o ex-presidente da Petrobrás Henri Phillipe Reichstul (1999-2001) dizia que tinha tirado a pasta do tubo e que não havia como colocá-la de volta. 

 

Estava se referindo à sua gestão, cuja essência era mudar a cultura da Empresa, caracterizada por um corpo de profissionais que passava toda sua carreira na Petrobrás e pelo forte trabalho em equipe. 

 

Transformou refinarias, regiões de produção e outras instalações em Unidades de Negócios (UN). Elas teriam suas contabilidades individualizadas e deveriam competir entre si.

 

Todas as medidas apontavam no sentido de aumentar a competitividade interna e externa à Companhia, em linha com as diretrizes do governo da época.  A Petrobrás deveria abrir espaço para empresas privadas nacionais e internacionais, fazendo parcerias e oferecendo participações em seus negócios.

 

Uma outra alteração significativa de cultura foi a introdução dos conceitos de Cliente e Parceiro no linguajar interno. As UNs passaram a ser denominadas de Clientes pelo seu Centro de Pesquisas e Desenvolvimento (Cenpes), Engenharia e Materiais, quando tratavam de algum empreendimento ou tecnologia a ser implementada. 

Antes disso, todos se consideravam igualmente Petrobrás, procurando analisar o projeto dentro de sua visão e do que entendiam ser o melhor para a Companhia. A decisão que tinha um viés de equipe passou a ser de cumpra-se o que já foi decidido pelo Cliente.

 

A elevação salarial do corpo gerencial criou um efeito claramente perceptível. Antes, a gratificação de função era uma pequena parcela no salário, não ocasionando grandes problemas quando ocorria uma de perda de função, a menos, é claro, do status de gerente. 

 

 A predisposição à discussão mais participativa deu lugar a uma visão mais de cumprimento de ordens de instâncias superiores. Não que ela não existisse antes, mas sempre havia espaço e disposição em apresentar alternativas e apontar eventuais pontos fracos, pois se considerava que a Petrobrás era a nossa empresa, onde passaríamos toda a nossa vida, tendo a obrigação de dar nossa melhor contribuição. Era o que se chamava vestir a camisa da empresa, semelhante ao que os japoneses praticavam e diferente da visão americana, com empregados mudando de companhias continuamente, sem maiores laços com as empresas.

 

Para o corpo técnico ficava a impressão de que aumentara o receio de perda da função gerencial e da remuneração adicional, tão maior quanto mais novo o gerente.

 

Nas mudanças de governo e gestão que se seguiram, as decisões foram mantidas.

 

 

Moura


Na homenagem à sua aposentadoria e aos 50 anos de trabalho  Carlos Alberto Dantas Moura, o mais antigo professor da Universidade Petrobrás  e criador,  junto com sua equipe do Cenpes, universidades e empresas nacionais, do simulador de processo da empresa, disse aos mais novos que não deveriam perder a disposição e alento com o momento atual, pois a Petrobrás era muito maior que tudo isso. Nada mais correto para todos nós que ajudamos a recriar a companhia diariamente.

 

Os empregados da Petrobrás são Moura e não Paulo Roberto e Barusco.

 

Diomedes Cesário da Silva

Ex-presidente da AEPET

 

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