Colunas
Colunista José Augusto Ribeiro

Prelúdio ao entardecer de Obama

Data: 04/12/2014 
Autor: José Augusto Ribeiro

Manifestações e violência como as de meio século atrás, no auge da luta pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, voltaram a acontecer em muitas cidades americanas em atos de protesto contra a decisão de um grand jury, um júri preliminar de investigação, de não indiciar, isto é, absolver liminarmente um policial branco que matou a tiros um jovem negro desarmado na cidade de Ferguson, no Missouri.

Ficou mais do que claro que o grand jury foi conduzido pelo promotor Robert McCulloch com grande preconceito racial a favor do policial branco, Darren Wilson, e contra o jovem negro assassinado, Michael Brown. Na comunidade negra de Ferguson, por sinal, o promotor é conhecido por suas ligações e cumplicidade com a polícia, a ponto de dizerem que ele está no bolso dela.

O promotor, em primeiro lugar, recusou-se a deixar o caso em mãos de um promotor especial que seria nomeado pelo governador Jay Nixon para garantir a imparcialidade da investigação. Depois, prolongou o processo por três meses, quando o normal é um grand jury durar poucos dias, já que se destina apenas a indiciar ou não o acusado ou suspeito. Finalmente, o promotor não fez nenhuma recomendação aos jurados, na maioria ou totalidade cidadãos leigos, deixando-os mergulhados e embananados na documentação acumulada nos três meses de procedimentos.

Segundo o New York Times, a conduta desse promotor levantou a suspeita de que ele estava no propósito expresso de inocentar o policial. Além de tudo isso, o promotor, depois de sucessivos adiamentos, deixou para anunciar o veredito já em plena noite, “quando a escuridão deixava as forças da lei em grande desvantagem para controlar a encolerizada multidão que aguardava o veredito”. E o pronunciamento do promotor “mais parecia uma defesa do policial Wilson que um resumo neutro dos fatos que haviam levado o grand jury à sua decisão”.

Para a comunidade negra de Ferguson – acrescentou o jornal - a morte de Michael Brown foi a última gota numa longa sequência de abusos que os negros vinham sofrendo diariamente nas mãos da polícia local. Justificadamente, a polícia do condado da Grande St. Louis, onde fica Ferguson, é vista como uma força estrangeira de ocupação.

O problema, porém, como observou o Presidente Barak Obama em discurso após as primeiras manifestações e protestos violentos em muitos lugares de todo o país, não é exclusivo de Ferguson. O problema é do conjunto dos Estados Unidos.

A morte de jovens negros pela polícia é uma característica comum da vida afro-americana – diz mais o New York Times, lembrando um estudo recente da organização ProPublica, segundo o qual jovens negros correm muito maior risco – 21 vezes maior – de serem mortos pela polícia que jovens brancos.

Essa penosa demonstração de retrocesso na sociedade norte-americana ocorre logo depois de Obama e seu Partido Democrata serem derrotados nas recentes eleições, que deram maioria nas duas casas do Congresso ao mais retrógrado conservadorismo republicano.

Obama, o primeiro Presidente negro dos Estados Unidos, tem apenas dois anos de mandato pela frente e em condições muito mais adversas que até aqui. Ele, porém, parece que acordou e se mostra decidido a aproveitar esses dois anos, com ou sem maioria no Congresso, para fazer o que não fez até aqui. E acaba de mandar ao Congresso atual, que não terá tempo para votá-lo, um projeto de lei que só será votado pelo Congresso recém-eleito, ainda mais conservador, dando garantias de residência a 5 milhões de imigrantes ameaçados de deportação. 

O novo Congresso certamente rejeitará o projeto, mas Obama, com ele, fez um desafio tanto a esse Congresso como à sociedade americana. Foi essa sociedade, contaminada pelo vírus do egoísmo neoliberal, que elegeu esse Congresso. É ela que estimula o recrudescimento do racismo e da violência policial. O Obama de fim de mandato, que não pode mais ser reeleito e não tem mais nenhuma eleição pela frente, talvez tenha o poder constitucional de ainda cumprir algumas de suas promessas. E ele pode repetir a convocação feita por outro Presidente democrata, John Kennedy, quando disse, dirigindo-se a cada americano: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por ele.”

Aqui no Brasil, quem sabe seja conveniente prestarmos atenção aos dois últimos anos de Obama. Talvez, empenhado em fazer o que ainda pode pelos Estados Unidos, ele possa fazer alguma coisa que, sendo boa para eles, seja boa também para esta pobre América Latina, tão longe de Deus, como dizia o mexicano Porfírio Diaz, e tão perto deles.




Conteúdo Relacionado