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Colunista José Augusto Ribeiro

Zuenir seria reprovado em redação

Data: 13/11/2014 
Autor: José Augusto Ribeiro

Como todo mundo, acompanhei nos últimos dias o noticiário sobre o Enem, o exame nacional do ensino médio, essa maratona de alta voltagem, talvez meio esquizofrênica, que supostamente avalia a capacitação dos pretendentes (7 a 8 milhões desta vez) a uma vaga em nossas universidades.

Nos dias e horas que antecedem as provas, o noticiário volta-se freneticamente para as expectativas e preparação dos candidatos e para alguns casos extremos de superação, pessoas que venceram dificuldades enormes e estavam prontas para o exame. No dia da prova, a pauta do noticiário passa a ser a série de incidentes que a acompanham, a moça grávida que dá à luz, os que são excluídos por tentarem recorrer ao celular e até a candidata que morre ao chegar ao local do suplício.

Sim, suplício, porque não é outra coisa concorrer com 7 ou 8 milhões de outros candidatos, em exames escritos que duram mais de cinco horas e exigem resposta a um questionário verdadeiramente enciclopédico, que vai da literatura à física nuclear e passa por todas ou quase todas as disciplinas de ensino secundário – a matemática, a química, a história, a geografia e sei lá o que mais – tudo num dia só, de cambulhada com questões que não imagino como possam ser concebidas. 

Pelo que li no noticiário da internet, o tema principal da prova de redação neste Enem foi a publicidade infantil, tema que só há algum tempo os sociólogos começaram a desbastar e que os órgãos de regulamentação publicitária ainda não conseguiram disciplinar. Sei que sou um poço de ignorância nessas modernidades, mas não consigo atinar com a razão pela qual um futuro médico, engenheiro, advogado, agrônomo, veterinário ou analista de sistemas deva saber alguma coisa sobre publicidade infantil.

Pior, a meu ver, foi outro tema imposto para redação: essa luta chamada pela sigla MMA ou coisa parecida, que ocupa horários regulares na televisão e é de uma boçalidade e brutalidade assustadoras. Nunca vi uma só dessas lutas, apenas algumas chamadas que as anunciam, sempre com um dos lutadores dando um ponta pé no rosto do adversário.

Dizem as chamadas que essa luta é o esporte que mais cresce no mundo e no noticiário sobre o Enem li que ela está desbancando ou já desbancou o boxe, “esporte” que prefiro escrever entre aspas, pelo que já li sobre casos de lutadores vitimados por concussão cerebral e desastres correlatos. Na infância, na primeira metade do século passado, aconteceu-me duas ou três vezes de ser levado por algum tio ou avô a espetáculos de boxe ou luta livre, então chamada de catch-as-catch-can. As regras do catch não permitiam golpes abaixo da cintura e muito menos o ponta pé no rosto. Esses espetáculos não me atraíram muito, mesmo naquela idade tão sugestionável. Do boxe, depois, só admirei o campeão Cassius Clay, não por suas lutas, mas por sua decisão de mudar de nome, rejeitando o Clay dos proprietários de seus avós escravos e adotando o de Muhhamad Ali, em homenagem à crença islâmica a que então se convertia. Cheguei, portanto, à época da MMA já predisposto contra ela e devo ser suspeito para discuti-la.

Não quero, por isso, invocar minha própria opinião, mas a de Zuenir Ventura, grande jornalista e escritor, recém-eleito para a Academia Brasileira de Letras. Logo que apareceu a tal da MMA, Zuenir escreveu em sua coluna que não vira e não pretendia ver qualquer dos espetáculos dessa luta. Com toda razão, não vira e não gostara, e invocava os mesmos motivos.

Outros podem escrever tão bem quanto Zuenir, mas ninguém no mundo de língua portuguesa escreve melhor que ele. Pois Zuenir seria reprovado nessa prova de redação, porque nada saberia escrever sobre a tal MMA. Ele poderia dar uma volta nos pensadores do Enem parafraseando sua própria coluna do não vi e não gostei, mas não estaria escrevendo sobre a luta, que era o tema escolhido.

Acho que essa escolha parte de um equívoco: o de supor que tudo o que aparece na televisão é relevante. Como é moda, sobretudo entre os jovens, o andar sempre plugado, presume-se que todo mundo acompanha os espetáculos de MMA e eles, portanto, constituem um tema universalmente conhecido e abordável por todos.

Comentando o assunto com um vestibulando de trinta anos atrás, ele contou que na véspera de sua prova de redação, foi dormir mais cedo e não assistiu pela TV a um jogo do Flamengo, brasileiro, contra o Liverpool, inglês, que decidiria o Campeonato Mundial de Clubes e seria disputado em algum lugar do outro lado do planeta, de madrugada no Brasil.  Horas depois, bem descansado e de cabeça fresca, o vestibulando foi fazer a prova e surpreendeu-se com o tema da redação:  “o que você achou do jogo Flamengo x Liverpool?” Ele não achara nada, simplesmente porque, num momento de sensatez, decidira dormir cedo na véspera do exame, cautela, aliás, recomendada a todos os vestibulandos. 

O elaborador da prova presumira – e uma das piores características da ignorância é presumir quando deve perguntar – que, como na teoria todo brasileiro é maluco por futebol, todos os vestibulandos teriam assistido ao jogo e teriam muito a dizer sobre ele. Só que aconteceu dessa vez o que com muita frequência acontece: na prática a teoria pode ser outra.

O caso da luta de MMA deve ser o mesmo. Alguém presumiu que, por estarem sempre na TV, essas lutas são acompanhadas por todos e o tema se prestava a um exame decisivo para o futuro de 7 ou 8 milhões de pessoas. Se o Enem fosse um evento parnasiano como um torneiro de trovas numa festa de caridade, vá lá que se partisse para esse despropósito pedante e pretensioso. Mas não seria mais simples escolher alguma coisa como a recente Copa do Mundo ou a ainda mais recente eleição presidencial?

Ninguém vai me convencer de que os ponta pés no rosto do adversário são mais importantes que uma eleição presidencial ou mesmo que uma Copa do Mundo de futebol, onde uma simples canelada pode provocar um cartão vermelho. 



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