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Colunista José Augusto Ribeiro

Os dividendos imediatos e os futuros

Data: 01/09/2014 
Autor: José Augusto Ribeiro

Leio no serviço informativo da Aepet uma notícia que muito me anima e outra que me inquieta. A boa notícia: a Petrobrás, não só grande achadora e grande produtora de petróleo, como grande produtora e indutora de tecnologia, desenvolveu um sistema de grandes boias de dez metros de altura e do tamanho de meio campo de futebol, para a sustentação dos dutos que transportam para as plataformas o petróleo extraído das profundezas do Pré-Sal. A má notícia: o programa de governo da ex-senadora Marina Silva, candidata tsunami à Presidência da República, já empatada com a Presidente Dilma Roussef nas pesquisas sobre o primeiro turno da eleição e vitoriosa nas pesquisas sobre o segundo turno, prevê a redução de investimentos no Pré-Sal, para permitir aumento correspondente no etanol.

Juntando as duas coisas: enquanto a Petrobrás avança no rumo do desenvolvimento de nossa economia, que é também o desenvolvimento da independência econômica e política do Brasil, uma candidata com chances efetivas de chegar à Presidência soma-se ao candidato nanico (em mais de um sentido) que quer privatizar a Petrobrás, e apresenta uma proposta que tem um lado de  ingenuidade, ignorância e boa fé, o lado da candidata, e outro lado, o dos aproveitadores das deficiências de informação da candidata, de esperteza, astúcia e cobiça, a serviço dos mesmos interesses antinacionais que rondam o Pré-Sal, assim como há mais de sessenta anos fazem tudo contra a Petrobrás.

Como diz em outras palavras o presidente da Aepet, Sílvio Sinedino, o estímulo ao etanol não precisa da redução dos investimentos no Pré-Sal. Essa redução pode fragilizar a posição da Petrobrás e abrir caminho a novo arrastão em favor dos grupos multinacionais que querem apoderar-se do petróleo do Pré-Sal para atender às angustiantes carências de mercados consumidores estrangeiros, como o dos Estados Unidos. O petróleo do Pré-Sal, diz Sinedino, deve ser explorado pela Petrobrás, na medida das necessidades brasileiras e da capacidade de nossa indústria de nacionalizar a produção dos equipamentos necessários. O Brasil não tem porque transformar-se em exportador de petróleo para atender à sede do mercado norte-americano.

Se quer obrigar o pecaminoso petróleo a financiar o verde e casto etanol, Marina Silva pode, com um mínimo de informação e inteligência, conceber outras alternativas. Pode, por exemplo, destinar parte dos lucros do petróleo do Pré-Sal a investimentos nas energias alternativas. O que não pode é, a pretexto de passar o Brasil a limpo, sabotar o papel e os esforços da Petrobrás, que já tem suficientes inimigos estrangeiros e nativos.

Esse contraste entre o desenvolvimento de boias para o Pré-Sal e a ingênua e perigosa proposta de cortar os investimentos no Pré-Sal lembra-me uma lição de mais de trezentos, quase quatrocentos anos de nossa história. Na primeira metade do século 17, Maurício de Nassau deixou o governo instalado pela conquista holandesa no Nordeste do Brasil porque os acionistas da Companhia das Índias Ocidentais, à qual o governo da Holanda terceirizara a exploração dos recursos econômicos de sua colônia brasileira, queixavam-se de que Nassau dava prioridade ao desenvolvimento dessa colônia, em prejuízo dos dividendos esperados pelos acionistas. Na verdade Nassau queria desenvolver a colônia para aumentar os dividendos futuros, mas o imediatismo dos acionistas não entendeu isso.

Lembro-me também, a propósito, de uma entrevista que fiz há tempos para o Debate Brasil, logo depois da confirmação das potencialidades do Pré-Sal, com o então diretor de Exploração e Produção da Petrobrás, Guilherme Estrela, que foi o grande herói daquela aventura. Só uma empresa como a Petrobrás – disse ele - poderia ousar a aventura do Pré-Sal. Empresas privadas, tendo de priorizar os dividendos imediatos dos acionistas, não poderiam realizar os investimentos necessários. O mesmo problema, penso agora, de Maurício de Nassau no século 17.

Não só Marina, como todos os outros candidatos, inclusive aquele nanico, têm o dever de informar-se e pensar: querem ser como o grande Nassau ou como os acionistas sôfregos por seus pequenos dividendos imediatos e cegos para os grandes dividendos do futuro? 



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