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Colunista José Augusto Ribeiro

O referendo da Escócia

Data: 28/08/2014 
Autor: José Augusto Ribeiro

Não sei se tem saído alguma coisa em algum nicho de nossa mídia, mas vi na BBC que os eleitores escoceses estão convocados para um referendo a 18 de setembro, para decidir se a Escócia continua unida à Inglaterra ou se se torna um país independente. Aliás, ela adquiriu grande autonomia nas últimas décadas, com governo e parlamento próprios, dotados da prerrogativa de decidir sobre assuntos locais. Foi esse parlamento da Escócia, não o parlamento de Londres, com jurisdição sobre todo o Reino Unido, que determinou a realização do referendo, aprovado pela Rainha Elizabeth ou por algum órgão da monarquia. Isso dá a medida do quanto já avançou a ideia da independência da Escócia.

 

Como pais que também já foi dominado politicamente por outro, no caso Portugal, e economicamente pela mesma Inglaterra que há séculos governa e explora a Escócia, e depois pelos Estados Unidos, só podemos. nós, brasileiros, ter a maior simpatia pela causa da Escócia.

 

Mas o referendo escocês também nos ensina algumas coisas, especialmente sobre dependência e petróleo. Estive na Escócia uma vez, em 1976, integrando uma delegação de jornalistas brasileiros, na época em que o petróleo do Mar do Norte era uma promessa, hoje coisa do passado.

 

Logo ao chegar a Edimburgh, que os escoceses pronunciam Edimborough, orgulhosamente, gostosamente, rolando bem o r e alongando a última sílaba, aprendi tudo, num só episódio, sobre o humor escocês, exuberante, inesgotável, delicioso, muito parecido com o humor carioca de tempos melhores, e sobre o esporte nacional escocês, que era (e creio que ainda é) fazer piada sobre os ingleses.

 

Eu estava sem dinheiro trocado e precisava de algum, para a gorjeta do rapaz que levava minha mala para o quarto. Fui à caixa do hotel, nesse momento ocupada por uma senhora bem idosa, de cabelos brancos e óculos de aro bem fino. Uma senhora risonha e muito simpática que imediatamente se prontificou a trocar meu dinheiro. Devia ser uma nota de dez libras, que ela olhou surpresa, como que escandalizada:

 

- Mas, senhor – disse-me ela – um homem tão distinto, vindo de tão longe, andando com dinheiro falso?

 

A surpresa passou a ser minha. E expliquei:

 

- Esse dinheiro eu recebi em meu hotel de Londres. Não podia saber que é falso...

 

A senhora riu, percebendo meu embaraço, e completou a piada:

 

- Como o senhor não tem culpa nenhuma, vou trocar seu dinheiro falso por dinheiro bom. 

 

E recolheu à gaveta minha cédula de dez libras do Banco da Inglaterra e me passou dez cédulas de uma libra do Banco da Escócia:

 

- Esse dinheiro é bom, não vai lhe causar nenhum embaraço. – E ria muito, gostando do golpe risonho que acabava de desferir nos ingleses.

 

As cédulas do Banco da Escócia eram praticamente iguais à do Banco da Inglaterra, com a mesma efígie da Rainha Elizabeth, mas eram do Banco da Escócia, não eram inglesas. Na mesma semana, a Elizabeth do século 20 esteve na Escócia e foi muito bem tratada, mas os escoceses não podiam esquecer a Elizabeth do século 16, que mandara decapitar a escocesa Mary, chamada até hoje de Mary, Queen of Scots, Mary, Rainha dos Escoceses.

 

Dias depois, em encontro com alguns professores escoceses da Universidade de Edimborough (permitam escrever como eles falam), um deles nos disse qual era o projeto nacional da Escócia:

 

- Queremos a independência para explorar nós mesmos o petróleo do Mar do Norte, em benefício da Escócia, não dos ingleses e dessas multinacionais que eles mandam para cá. Nós somos seis milhões de escoceses. Dividindo entre nós os lucros do petróleo, nenhum escocês terá mais de trabalhar. E vamos viver rindo dos ingleses.

 

Bem, a independência da Escócia só está chegando agora. Os ingleses e suas multinacionais exploraram o petróleo do Mar do Norte, que, dizem meus amigos tão bem informados da Aepet, já acabou ou está acabando, sem deixar quase nada para os escoceses.

 

Isso nos mostra o quanto a independência econômica depende da independência política, e quanto a independência política depende da independência econômica de um país. Na campanha presidencial de 1950 no Brasil, em plena batalha do “petróleo é nosso!”, Getúlio Vargas dizia que país que entrega seu petróleo é país que entrega também sua soberania.

 

Os escoceses não entregaram seu petróleo, ele foi extraído e levado embora pelos dominadores ingleses. Se, no futuro, por acaso, descobrirem um pré-sal nos mares da Escócia afinal independente, podemos ter certeza de que os escoceses não entregarão esse petróleo. Preferirão explorá-lo eles mesmos e passar o resto da vida rindo dos ingleses. Um simpaticíssimo projeto nacional.




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