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Colunista Paulo Moreira Leite

Lições que a ruína da Alstom pode ensinar à Petrobrás

Data: 17/03/2017 
Fonte: Brasil 247 Autor: Paulo Moreira Leite

Para a maioria dos brasileiros, a palavra Alstom recorda denúncias de contratos superfaturados e licitações marotas promovidas por governadores do PSDB. Na vida dos franceses, o destino da Alstom, uma das antigas glórias do capitalismo de Estado erigido no país no pós-Guerra, é sinônimo de uma investigação do Departamento de Justiça do governo dos Estados Unidos, entre 2012 e 2014, que guarda semelhanças impressionantes com a Petrobras, devassada pela Lava Jato e esquartejada em plena luz do dia pelo governo Temer.  Em dezembro de 2014, o setor mais lucrativo da Alstom, a área de energia, mudou de mãos. Foi adquirido pela General Eletric, gigante norte-americano que, com a transação, consolidou sua posição hegemônica no mercado mundial.

 

Em entrevista exclusiva ao 247, no café Berkeley, a poucas quadras do palácio do Eliseu,  sede do governo francês, o jornalista e escritor Jean-Michel Quatrepoint, autor de “ Alstom – Scandale d’Etat” (“Alstom, Escândalo do Estado”), obra de referência sobre o assunto, explica a diferença geopolítica entre as duas situações. “Alguns negócios envolvem aquilo que na indústria se chama de investimentos merdiáticos: rendem relativamente pouco, mas todo mundo é obrigado a fazer e acaba ficando de mãos sujas.”   

 

Com seis livros de jornalismo econômico já publicados, Quatrepoint diz ainda que os investimentos no mercado europeu, onde a Alstom construiu uma fatia importante nas tecnologias impopulares, mas indispensáveis à vida cotidiana dos franceses, como a nuclear, e ainda energia eólica, hidráulica e outras versões chamadas limpas, têm consequências profundas sobre o destino da quinta economia do planeta e uma respeitável renda per capta. “A cada dia que passa, o aparato industrial de nosso país se enfraquece”, afirma. “Para cada emprego na Alstom, há três gerados pelos fornecedores e subcontratados. Quando ocorrem mudanças no controle do capital e troca dos dirigentes de uma empresa, é todo um ambiente que pouco a pouco sofre as consequências”.  

 

Mesmo se tratando de empresas de caráter diferente – a Alstom foi privatizada pelo governo Eduard Balladur durante a coabitação com François Mitterrand – vários capítulos passados entre Paris, Nova York e Washington dão a impressão de antecipar aquilo que se se vê entre Brasília e Rio de Janeiro.

 

Embora o acordo tenha sido anunciado como um pacto entre iguais, na prática o poder do sócio americano sobre os rumos da companhia é determinante, seja pelo direito exclusivo a fazer nomeações estratégicas, seja pelo controle de 80% a 20% nas mais importantes. Mesmo a tesouraria, domínio obviamente fundamental em toda empresa, foi transformada em reserva da GE. Num total anunciado de 12,3 bilhões de euros, o pagamento final envolveu uma soma um terço inferior. Embora a compra envolvesse aquisição de ativos e herança dos passivos, como é padrão em transações do gênero, os novos acionistas não herdaram a multa de US$ 770 milhões a ser paga em função de uma denúncia de corrupção na Indonésia, base da investigação do DoJ norte-americano. Na verdade, a troca no comando da Alstom foi um lance recente de um dominó mais antigo.

 

Após a guerra de George W Bush contra o Iraque, a Alcatel, pioneira francesa de telecomunicações, com um domínio respeitável das tecnologias da área, caiu em desgraça diplomática por sua associação a Sadham Hussein, parceiro de muitas potencias – inclusive dos EUA, em determinados períodos. Em 2005 teve de encarar uma multa de US$ 137 milhões em dois processos de corrupção em Honduras e Costa Rica. No ano seguinte, acabou aceitando matrimonio com a norte-americana Lucent. No mesmo período que investigava a Alstom o DoJ aplicou uma multa de US$ de 8,9 bilhões contra o BNP Paribas.  

 

Numa ironia da história, a tragédia que derrubou a Alstom teve início como um típico caso “merdiático”, cuja importância os executivos de Paris levaram tempo demais para reconhecer: um contrato suspeito na Indonésia. Olhando de cima para aquelas sociedades julgadas em termos depreciativos, não puderam perceber o risco que representava. O valor da multa imposta pelo DoJ, impressiona por várias razões. Envolvia um investimento muito inferior a aquilo que foi cobrado por práticas ilegais. Tudo se torna ainda mais curioso quando se recorda que sócios japoneses do mesmo empreendimento, de um grupo chamado Marubeni, envolvidos nas mesmas acusações, foram convocados a pagar pouco mais do que um décimo da mesma quantia.

 

Convencido de que existe uma conexão direta entre as ações do Departamento de Justiça e os interesses das grandes empresas norte-americanas, em artigo publicado na edição de fevereiro do Le Monde Diplomatique (“Em nome da lei americana”), Quatrepoint aponta uma razão para o duplo tratamento: “O Marubeni não preocupava os pesos pesados norte-americanos do setor, enquanto a Alstom já era um alvo para a General Eletric”.

 

Em seu livro, Quatrepoint é capaz de sustentar, com boa argumentação, a visão de que a Alstom fez um negócio que não tinha o menor interesse, do ponto de vista econômico. Em nossa entrevista, perguntei:

 

-- Se o acordo era tão ruim, por que ele foi aceito pela Alstom?

 

-- Porque o DoJ tinha um dossiê que poderia matar a empresa. Havia diretores presos e, embora nem todos estivessem falando, havia delações. A direção da Alstom demorou para enxergar a força que iria enfrentar. Não deu importância ao que estava acontecendo na Indonésia. Quando percebeu, era tarde. Acabou tendo de aceitar tudo para sobreviver.

 

Em sua visão, que faz muito sentido, ocorreu o seguinte. Com quatro executivos encarcerados no momento em que o negócio foi anunciado, a direção da Alstom concordou com o acerto oferecido pela GE, sem fazer nenhuma oposição significativa, movida pelo interesse de salvar o próprio pescoço. De quebra, o alto comando ainda garantiu uma boa recompensada. Depois que o negócio foi fechado, os puderam repartir um bônus no valor de U$S 30 milhões. Só o presidente Patrick Kron recebeu uma fatia de US$ 4 milhões.

 

Por razões compreensíveis a venda da Alstom representou um golpe de misericórdia no governo François Hollande, que deixa o Eliseu como um dos piores da história francesa. Autoridades que tinham o direito de intervir na negociação acabaram sendo informadas do que se passava por um furo espetacular da agência Bloomberg, num vazamento que produziu grandes trapalhadas sem maiores efeitos práticos, pois já era tarde demais. Pelo volume de recursos envolvidos, pelo seu alcance num mercado que é alvo de disputa permanente entre as economias mais ricas do planeta, o negócio teve e terá imensas consequências econômicas, mas também produziu efeitos políticos notáveis, que chegam à campanha presidencial cujo primeiro turno será disputado dentro de 45 dias.

 

Adversário barulhento da transação, o deputado Arnaud Montebourg, que era Ministro da Economia e do Desenvolvimento Industrial, com uma carreira ligada a setores a esquerda do PS, deixou o governo após brigas múltiplas e pouco eficazes,  baseadas no preceito legal de que o Estado francês tinha o direito de impedir um negócio que fosse considerado prejudicial aos interesses do país. Sob sua inspiração, a Alstom solicitou a Siemens que fizesse uma contraoferta, o que acabou acontecendo, num ritual que mais serviu para preservar aparências do que para demonstrar que havia uma disputa real.   

 

Montebourg já estava fora do governo quando o acordo final foi assinado. Seu lugar foi assumido por Emmanuel Macron, hoje candidato que, entre vários, disputará a chance de enfrentar Mariane Le Pen num provável segundo turno. Sem raízes populares, com um perfil de tecnocrata abençoado por uma parcela da elite que apoia um projeto de estado mínimo apenas amenizado por programas compensatórios dirigidos aos casos mais graves de exclusão, Macron entrou no debate sobre a Alston sem fazer eufemismos. Chamou a proposta de acordo alternativo com a Siemens de “casamento forçado”. Também pediu ajuda a um velho fantasma político sul-americano – o bolivarianismo -- para defender o acordo com os norte-americanos em nome do respeito à propriedade privada. “Só na Venezuela existem empresas privadas às quais se pode impor um acordo.”



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