Colunas
Colunista Claudio da Costa Oliveira

O governador Paulo Hartung não é brasileiro, é apenas capixaba

Data: 10/02/2017 
Autor: Claudio da Costa Oliveira

"No caso Petrobras é preciso defender o Brasil e não apenas o Estado A , B ou C”  

 

Em artigo publicado no Valor Econômico nesta segunda-feira (06/02) o governador do Espírito Santo, Paulo Hartung, defende mudança nas regras de conteúdo local, como forma de agilizar os investimentos no pré-sal brasileiro. 

 

No artigo Hartung salienta: “Não se pode permitir que regras anacrônicas acabem minando a oportunidade de produção de riqueza”. 

 

A pergunta é: produção de riqueza para quem?  

 

É natural que o governador defenda a possibilidade de incremento na arrecadação do Estado na área de petróleo e gás, mas a análise tem de ser feita de forma mais profunda e consequente.  

 

No caso Petrobras é preciso defender o Brasil, não apenas o Estado A, B ou C.  

 

Eu também sou capixaba, entretanto, mais importante que ser capixaba é ser brasileiro. Creio que esta é nossa obrigação como cidadãos. 

 

O atual presidente da Petrobras, Pedro Parente (que de brasileiro não tem nada), em artigo publicado na Folha de São Paulo, na última quarta-feira (01/02) mostrou suas claras intenções ao dizer: 

 

“Ideologias, quando levadas ao extremo tornam as pessoas impermeáveis a argumentos e fatos. Discutir a origem de capital investido no Brasil é um exemplo. Superada pela Constituição, que não faz distinção entre capital nacional e estrangeiro, essa discussão tem pouca utilidade na vida real”. 

 

Não se trata de ideologia e nem aversão ao capital estrangeiro. Quando o capital vem para contribuir com desenvolvimento brasileiro e gerando empregos, como fábricas (automóveis, implementos agrícolas etc.) ou infraestrutura (aeroportos, rodovias, portos etc.) eles sempre serão benvindos. Mas quando o capital tem o objetivo de simplesmente explorar o Brasil e seu povo, gerando empregos e novas tecnologias no exterior, não podemos aceitar. 

 

No início do Brasil colônia, Portugal investiu em navios e pessoal para exploração do pau-brasil. Devastaram florestas para levar a madeira para a Europa. Investiram muito. E o que ficou no Brasil?   A mata devastada. 

 

Depois investiram mais pesadamente ainda para explorar o ouro de Minas Gerais. Muitos portugueses perderam a vida nesta aventura. Eram dias muito difíceis para se sobreviver. Para dar uma idéia, uma cabeça de gado que em Salvador valia 15 gramas de ouro, em Ouro Preto tinha o valor de 300 gramas de ouro. 

 

Pois bem, levaram todo o ouro. E o que ficou no Brasil? Somente os buracos. 

 

Agora é feita no Brasil a maior descoberta de reservas de petróleo das últimas décadas. Uma grande e real oportunidade de fazer o país mudar de patamar. E vamos entregar tudo como na época do Brasil colônia? 

 

O engenheiro Alberto Machado Neto, diretor Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos – ABIMAQ, em publicação feita no site do Clube de Engenharia, mostrou os problemas que sofrem as empresas brasileiras nos fornecimentos para a Petrobras e diz: 

 

“A começar pela dupla personalidade da Petrobras na hora de fiscalizar as obras que contrata no Brasil e as que contrata no exterior. No Brasil as empresas precisam construir extensas instalações para dezenas de fiscais da estatal, com critérios de padronização das salas a serem oferecidas aos funcionários, como detalhes específicos para localização das lixeiras, distâncias entre janelas e portas, número de cadeiras e uma infinidade de exigências de QSMS (Qualidade, Segurança, Meio Ambiente e Saúde) que precisam ser somados aos custos. Já no exterior, como em alguns projetos de grande porte enviados para a China, a companhia manda pouquíssimos fiscais para trabalhos do mesmo nível de complexidade, demandando estruturas muito mais enxutas e sem o mesmo rigor de padronização. 

 

Um dos resultados disso é uma atuação esquizofrênica, já ocorrida em alguns casos nesses últimos anos, em que plataformas vem da Ásia, com diversos problemas a serem consertados. As empresas brasileiras com histórico de sucesso, em termos de preço, prazo e qualidade – que são muitas – acabam chamadas para socorrer a Petrobras, revisando e refazendo o que ficou mal feito. 

 

O presidente da Petrobras (Pedro Parente) em alguns momentos usou a licitação da plataforma de Libra como exemplo negativo do que seria a indústria brasileira. Alegou um sobrepreço de 40% para se construir no Brasil. Seria um escárnio defender que a empresa pagasse esse valor a mais para fazer obras no seu próprio quintal. O problema é que os dados que embasam essa afirmação de Parente nunca foram detalhadas para o público e para o mercado nacional, que está ávido por oportunidades e tem se mostrado cada vez mais competitivo, com muitas empresas exportando para outros países – tanto estrangeiras a partir de instalações brasileiras, quanto companhias nacionais que conquistaram espaço no cenário internacional. Mais de uma vez foi feito um convite para que o executivo abrisse esses números e permitisse à indústria avalia-los. Se sua crença é em argumentos, porque não permitir ao mercado nacional que dê os seus próprios. Nessa discussão sem diálogo e abertura, não há avanço. Vira ranço ideológico”  

 

Querer que a empresa nacional compita com industrias de países que adotam o trabalho praticamente escravo, onde não existe nenhum benefício social, como férias, 13º salário, FGTS, aposentadoria etc. Não tem nenhuma lógica. Além disso, a exigências feitas pela Petrobras para os fornecedores brasileiros em termos de QSMS, superam em muito ao que ocorre normalmente no mercado brasileiro. Nada disso é cobrado no exterior. 

 

Já escrevi muitos artigos sobre as mentiras de Pedro Parente. Dizer que o custo aqui é superior em 40% é só mais uma mentira e por isso ele não pode mostrar as planilhas de custo. 

 

O governador Paulo Hartung deveria estar mais atento ao que está ocorrendo na Petrobras. Venda de ativos da empresa feitos por Parente, ao arrepio da lei, estão causando perdas superiores a muitas Lava Jato, conforme demonstram estudos feitos pela Associação dos Engenheiros da Petrobras – AEPET, a Federação Brasileira dos Geólogos – FEBRAGEO e a Associação dos Distribuidores de GLP – ASMIRG. 

 

A eliminação do conteúdo local é apenas uma parte do grande projeto lesa-pátria em andamento, que visa a completa destruição da Petrobras. Então, se as coisas continuarem assim por coerência, deveríamos trocar o nome de Brasil para Terra de Santa Cruz. 

 

Cláudio da Costa Oliveira é Economista aposentado da Petrobrás



Conteúdo Relacionado