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Colunista Pedro Pinho

Libertação ou sujeição

Data: 12/01/2017 
Autor: Pedro Pinho

O sentimento de nação, de pátria é muito forte e não há porque não o ser. Do mesmo modo que a mãe é a primeira referência do bebê, a família da criança, a pátria, a nação é do jovem e bem antes de prestar qualquer serviço civil ou militar à comunidade ou ao País. Vem das disputas esportivas, do conhecimento da história, do saber de outras culturas e comportamentos.

 

A globalização, a ideia de qualquer universalização só aparece como uma ideologia, seja política, religiosa ou qualquer tipo de pensamento que se apresente universal.

 

Os usos podem ser vários: a ideologia racial, colonial que pretendia colocar todos os humanos a serviço de uma raça, uma potência. A ideologia socialista sob uma classe; a religiosa sob um deus, a um ritual; hoje, a ideologia financeira quer nos colocar, a todos, sob o domínio ainda mais restrito de algumas dezenas de famílias, que controlam as finanças “de um mundo sem fronteiras”.

 

É curioso, não fosse trágico, que o apelo à paz, à fraternidade, à união dos povos, propagada pela banca, não escondesse a escravidão, a sujeição de todos ao império destas famílias.

 

Os instrumentos deste sistema financeiro internacional, que denomino a banca, são diversos e em constante aperfeiçoamento. Alguns ingênuos repetirão tratar-se de teorias conspiratórias, que os bons planejadores difundem para evitar maiores análises, aprofundar conhecimentos que trouxessem à luz seus verdadeiros objetivos.

 

A banca, nesta atual conformação, atua desde meados do século XX e como a vitoriosa no mundo capitalista desde 1990. As bases deste poder foram lançadas durante a década de 1980, sob o manto do neoliberalismo e do estado mínimo. Foi competente para dominar, em primeiro lugar, as tecnologias da informação (tratamento/manipulação de dados; controle de fontes, inserção de ruídos nas transmissões, mudanças de códigos etc) e os veículos de comunicação de massa, depois corromper instituições internacionais e nacionais e, por fim, se apoderar de governos de países, os mais ricos e poderosos, mas todos, como um verdadeiro vírus maléfico.

 

Hoje até fiéis servidores da banca, como o ex vice-diretor-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) e ex-presidente executivo do maior fundo de investimentos financeiros, a PIMCO, o novaiorquino Mohamed El-Erian, em seu livro “A Única Solução”, descrevem suas ações e suas formas de conquista. Para quem não é do ramo, a Pacific Investment Management Company LLC (PIMCO) é empresa com sede nos Estados Unidos da América (EUA), atuando em 12 países, movimentando perto de 2 trilhões de dólares, cerca de 25% do que estas famílias colocam ao redor do mundo em seu plano de dominação.

 

O maior incômodo e desafio da banca é o nacionalismo. A ideia de que um País deve ter seu governo em favor dos seus nacionais, dos que lá nasceram ou se estabeleceram em caráter permanente. E é esta a razão de tantas agressões à Rússia, à Federação Russa, cujo dirigente coloca os interesses da Federação acima de qualquer outro. Devem estar lembrados da triste e vergonhosa figura do presidente Boris Iéltsin, lá colocado pela banca.

 

Aqui no Brasil, malgrado a ação não agressiva à banca dos governos petistas, esta resolveu pelo golpe de maio de 2016, pois alguns programas governamentais a favor da construção da cidadania poderiam ensejar uma forte e consistente repulsa popular ao domínio. Vamos a mais um projeto da banca.

 

Procurando entender a moeda virtual denominada bitcoin, encontro algumas pérolas de agressão à cidadania e à própria ação ética. Senão vejamos.

 

No que é dito sob os títulos de transparência, descentralização, diferença positiva em relação a outras moedas, se infere que:

 

primeiro, você será um sonegador de impostos, pois as transações são de pessoa a pessoa, como a compra de cocaína a um traficante que só aceita em espécie, como ele entrega sua mercadoria;

 

segundo, além de colocar-se fora das autoridades fiscais do país, você, de modo inexplicável, fica sem o controle bancário. De duas, uma: alguém (a banca, que é mestra em informação) garantiria a troca ou haveria sempre, de um lado, um trouxa, ou, no simbolismo da FIESP, um pato amarelo;

 

terceiro, terá o anonimato. Mais um reforço à fuga de impostos. Pagar imposto a governo constituído democraticamente é um dever cidadão. Mas é claro que cidadania e banca são opostos. E mais, quem vai garantir este anonimato contra chantagem;

 

quarto, e paro aqui pois ainda terei muito a expor sobre esta moeda, o bitcoin se propõe uma moeda global. Agora me diga, caro e arguto leitor, quem é, hoje, mais global do que o sistema financeiro que não precisa de passaporte, não enfrenta alfândegas e entra, pela porta dos fundos ou até pela frente, em toda a parte, em todos os países? Quem pois será o controlador das transações em bitcoins? Quem controlará e ameaçará com os Moros da vida, com as espionagens às claras as movimentações “irregulares”? Uber e bitcoin, é esta a modernidade: trabalho sem direitos, moeda invisível?

 

Ah! Esta teoria conspiratória que ignora os planejamentos de diferentes prazos, os domínios das pessoas pela comunicação de massa e o controle das instituições pelo suborno e pela chantagem!

 

Pedro Augusto Pinho, avô, administrador aposentado  

 

 

UM REPTO DO PROF. J. CARLOS DE ASSIS

MONITOR MERCANTIL 10/01/2017 pag. 2

 

Governo faz propaganda de déficit que não existe

 

O Governo Temer está gastando milhões de reais em propaganda a fim de convencer o povo brasileiro de que a Previdência Social tem um grande déficit e precisa urgentemente de reformas profundas que atingem direitos adquiridos dos trabalhadores. A alegação de que há um grande déficit previdenciário é falsa. Na verdade, a Previdência não tem déficit nenhum, é superavitária. O propósito da propaganda de televisão é dúbio. Pode ser simplesmente dar dinheiro para a TV Globo, ou disseminar a ideologia do déficit.

 

Como um governo pode mentir tanto, para tantos e durante tanto tempo? Simples, manipulando os conceitos constitucionais de Previdência e de Seguridade Social. Previdência Social é o sistema contributivo tradicional. Para ele contribuem todo trabalhador do setor privado, assim como os autônomos. Chama-se, apropriadamente, de Previdência contributiva. Se olharem as contas, tem sido superavitário por anos e décadas. É um mecanismo de solidariedade entre gerações: os ativos pagam pelos inativos.

 

Seguridade Social envolve também a parte não contributiva do sistema do lado patronal. É o caso da aposentadoria do setor público, saúde, aposentadoria rural e assistência. Embora não sejam integrantes do sistema contributivo, a Constituição criou fontes de financiamento para eles, notadamente contribuição dos servidores, contribuição sobre lucro líquido, Finsocial, receita de loterias etc. Em algum momento a CPMF integrou esse sistema de financiamento, mas os bancos e os grandes interesses conseguiram revogá-la.

 

Qual é, pois, a origem da manipulação? Consiste em somar todos os benefícios da Seguridade Social e compará-los ao financiamento exclusivo da Previdência Social. Claro, aparecerá um déficit gigantesco porque a Previdência não foi criada para sustentar todo o sistema de seguridade, mas apenas o sistema contributivo privado. A outra parte, não tendo financiamento específico, deve ser financiada pelas contribuições da seguridade em geral e, quando isso não é suficiente, por recursos do Tesouro Nacional.

 

Essa questão não é apenas contábil. É a fonte de distorção da proposta de reforma previdenciária defendida pelo governo e pelos asseclas do grande capital que estão de olho na privatização da Previdência como fizeram no Chile, destruindo o sistema público. Os trabalhadores terão de resistir a isso, do contrário não terão cobertura previdenciária na velhice. Além disso, se a proposta colocada pelo governo supostamente protege direitos adquiridos, podem se preparar, na frente, para uma segunda etapa, na qual esses direitos também desaparecerão. Portanto, é fundamental resistir já, agora!

 

Sugiro que a resistência não se restrinja a lobbies no Congresso Nacional. Isso é importante, mas não basta. Os trabalhadores poderiam, por exemplo, procurar juristas respeitados e entrar imediatamente com uma ação de improbidade administrativa contra o governo a fim de sustar a publicidade do déficit previdenciário na televisão, que pode ser classificado como propaganda enganosa. Isso teria um caráter pedagógico importante. Se quiserem, darei uma assessoria informal, gratuita. Acho que a professora Denise Gentil, a maior especialista brasileira em Seguridade Social, também dará.

 

Note-se que, além de manipular as contas da Seguridade, o governo rouba – e isso vem de longe – através de contingenciamentos, recursos que seriam dirigidos constitucionalmente para seu financiamento. Esse “roubo” sistemático, que vem desde o Governo FHC, é destinado a pagar juros da dívida pública, de acordo com os mecanismos fiscais socialmente perversos introduzidos nas finanças públicas brasileiras desde a inominável Lei de Responsabilidade Fiscal, da qual fui um dos principais críticos na época de sua aprovação, e que agora está destruindo estados e prefeituras.

 

No meu caso, aceito qualquer debate sobre déficit da Seguridade e da Previdência com qualquer pessoa de dentro ou de fora do governo. Pode ser economista da PUC, pode ser economista de banco, pode ser contabilista, pode ser comentarista de jornal: aceita-se o contraditório, coisa que do lado de lá nunca fazem. Tenho mais de 40 anos de experiência em economia política, mais de 20 livros publicados, mais de 5 mil artigos em grandes jornais, e, mais recentemente, na internet:jamais vi, em minha vida profissional, maior tentativa de manipulação do povo do que essa publicidade de déficit previdenciário como matéria paga pela televisão.

 

J. Carlos de Assis 

Jornalista, economista, é coordenador do Movimento Brasil Agora.




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